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Dez Conselhos extraídos do livro que eu considero importante
Um sermão sobre a preparação para a morte
1
A morte é uma
despedida deste mundo e de todas as suas ocupações. Por isso é necessário que o
ser humano organize claramente seus bens temporais: a forma como estes devem
ficar ou como ele quer pô-los em ordem. Ele deve fazer isso para que, após sua
morte, não haja motivo para briga, desentendimento ou alguma outra confusão
entre seus parentes. E uma despedida corporal ou exterior deste mundo. O ser
humano abandona e se despede de seus bens.
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Em segundo lugar, também precisamos despedir-nos
espiritualmente. Quer dizer: somente por causa de Deus devemos perdoar com amor
todas as pessoas, por mais que nos tenham ofendido. Por outro lado, somente por
causa de Deus também precisamos querer o perdão de todas as pessoas. Sem
dúvida, magoamos muitas delas, pelo menos com algum mau exemplo ou com menos
boas obras do que devíamos a elas, segundo o mandamento do amor fraternal
cristão. Temos que fazer isso para que a alma não se agarre a nada na terra.
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Quando nos despedimos de todos na terra, então
temos que nos voltar a Deus somente. E para lá que se dirige e para lá que nos
leva o caminho da morte. Ali começa a porta estreita, o caminho apertado para a
vida (cf. Mateus 7.14). Cada um deve aventurar-se com boa vontade por esse
caminho. Pois este certamente é muito estreito, mas não é longo. Aqui acontece
o mesmo que ocorre no nascimento de uma criança. Esta nasce, com perigo e
medos, da pequena moradia no ventre de sua mãe para dentro deste grande céu e
desta grande terra. Isto é, ela vem a este mundo. Da mesma forma, o ser humano
sai desta vida pela porta estreita da morte. O céu e o mundo em que vivemos
agora são considerados grandes e amplos. Mas tudo é muito mais apertado e
menor, comparado ao céu que nos espera, do que é o ventre materno comparado a
este céu. Por isso a morte dos queridos santos é chamada de novo nascimento.
Também por isso o dia dedicado a eles é chamado de natale em latim.
Significa o dia de seu nascimento. No entanto, o aperto da passagem para a
morte faz esta vida parecer ampla e aquela outra, estreita. Precisamos
acreditar nisso e aprender do nascimento corporal de uma criança. Cristo diz:
"Uma mulher, quando está para dar à luz, sente medo. Mas depois de dar à
luz, já não se lembra do medo, porque, através dela, um ser humano nasceu ao
mundo" (João 16.21). Vale o mesmo para a morte: temos que nos libertar do
medo e saber que depois vai haver muito espaço e alegria.
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Os preparativos para essa viagem consistem, em
primeiro lugar, em fazer uma confissão sincera (especialmente dos pecados
maiores e daqueles que, no momento, conseguimos lembrar com o máximo esforço).
Consistem em providenciar os santos sacramentos cristãos do santo e verdadeiro
Corpo de Cristo e da Extrema-unção. Os arranjos também consistem em querer estes
sacramentos com devoção e recebê-los com muita confiança, à medida do possível.
Onde isso não é possível, o anseio por esses sacramentos deve, mesmo assim, ser
consolador. Não devemos nos apavorar demais se não pudermos recebê-los. Cristo
diz: "Todas as coisas são possíveis a quem crê" (Marcos 9.23). Os
sacramentos não são nada mais do que sinais que servem à fé e estimulam a crer,
como ainda veremos. Sem essa fé, eles não servem para nada.
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Em todo caso, temos que valorizar com toda a
seriedade e esforço os santos sacramentos e honrá-los, confiar neles livre e
alegremente. Devemos colocá-los na balança de tal modo que, comparados ao
pecado, à morte e ao inferno, eles tenham muito mais peso. Também precisamos
preocupar-nos muito mais com os sacramentos e suas virtudes do que com os
pecados. Mas devemos saber como prestar a devida honra aos sacramentos e quais
são as suas virtudes. Honrá-los significa crer que é verdadeiro e que me
acontecerá aquilo que os sacramentos representam e tudo o que Deus fala e mostra
neles. Portanto, devemos dizer juntamente com Maria, a mãe de Deus, com uma fé
firme: "Que me suceda conforme tuas palavras e teus sinais" (Lucas
1.38). O próprio Deus fala neles e coloca sinais por intermédio do sacerdote.
Por isso não se poderia desonrar Deus mais em sua palavra e obra do que
duvidando se é realmente verdade. Também não se poderia prestar a Deus maior
honra do que acreditar que é verdade e confiar nisso espontaneamente.
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Para reconhecer as virtudes dos sacramentos precisamos conhecer inicialmente os defeitos que são
combatidos por elas e contra os quais aquelas virtudes nos foram dadas.
São três: a primeira é a imagem horrível da morte; a segunda, a imagem pavorosa
e multifacetada do pecado; a terceira, a imagem insuportável e inevitável do
inferno e da condenação eterna. Ora, cada uma dessas três imagens cresce e fica
grande e forte por causa daquilo que lhe é acrescentado. A morte fica enorme e
horrível, porque a natureza medrosa e desanimada grava essa imagem fundo demais
e a mantém exageradamente diante dos olhos. O diabo acrescenta a sua parte a
isso, para que o ser humano se concentre profundamente na aparência e imagem
terrível da morte. Assim este fica preocupado, vulnerável e medroso. Então o
diabo certamente vai apresentar-lhe todas as mortes terríveis, inesperadas e
más que uma pessoa já viu, ouviu ou sobre as quais já leu. Além disso, ele
também incluirá a ira de Deus, como ela atormentou e arruinou os pecados no
passado. Com isso o diabo quer induzir a natureza medrosa ao temor da morte, ao
amor pela vida e à preocupação com ela. Dessa forma, o ser humano, cheio de
tais pensamentos, vai esquecer Deus, fugir da morte e odiá-la e, no final, ser
desobediente a Deus. Quanto mais profundamente se encara e reconhece a morte,
tanto mais difícil e perigoso é o ato de morrer. Em vida, deveríamos ocupar-nos
com a idéia da morte e defrontar-nos com ela enquanto ainda está longe e não
nos angustia. É perigoso e de nada adianta ocupar-nos com ela na hora de
morrer. Então a morte, por si só, já é forte demais. Devemos afastar sua imagem
de nossa mente e negar-nos a vê-la. Portanto, a morte tem seu poder e sua força
na fraqueza de nossa natureza. Também porque ela é encarada de forma exagerada
e numa época inoportuna.
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Igualmente o pecado cresce e fica grande porque o encaramos
em demasia e pensamos nele em excesso. Contribui para isso a fraqueza de nossa
consciência, que se envergonha diante de Deus e se acusa horrivelmente. Aí o
diabo encontrou a arapuca que procurava: ele coloca em apuros; torna os pecados
tão numerosos e grandes; põe diante de nossos olhos todos aqueles que pecaram e
os que foram condenados com bem menos pecados. Assim, mais uma vez, o ser
humano vai desanimar ou não querer morrer. Dessa forma, vai esquecer Deus e continuar
desobediente até a morte. Isso acontece principalmente porque o ser humano
acredita que, naquele momento, deve concentrar-se no pecado. Ele crê que é
certo e útil ocupar-se com isso. Então ele descobre que não está preparado e
não tem jeito, assim que todas as suas boas obras se transformaram em pecados.
Isso tem forçosamente como conseqüência um morrer desgostoso, desobediência à
vontade de Deus e condenação eterna.
Não há motivo nem tempo para examinar o
pecado naquela hora. Isso deve ser feito durante a vida. Assim, o espírito
maligno muda o sentido de tudo. Em vida deveríamos ter sempre diante dos nossos
olhos a imagem da morte, do pecado e do inferno (conforme diz o Salmo 51.3:
"Meus pecados estão sempre diante dos meus olhos"). O espírito
maligno fecha os nossos olhos e esconde essas imagens de nós. Na hora da morte,
quando deveríamos ter diante de nossos olhos apenas a vida, a graça e a
salvação, ele abre os nossos olhos. Assusta-nos com as imagens vindas numa
época inoportuna, para que não vejamos as imagens corretas.
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Também o inferno fica grande e cresce quando nos
concentramos demais e refletimos constantemente sobre ele fora da época
adequada. Colabora muito para isso o fato de não se conhecer o julgamento de
Deus. O espírito maligno estimula a alma a sobrecarregar-se com uma curiosidade
desnecessária e inútil. Mais ainda: com a forma mais perigosa de explorar o
mistério do plano de Deus para saber se a alma é predestinada ou não para a
salvação. Aqui o diabo exerce sua última, maior e mais astuciosa arte e
habilidade. Pois com isso leva o ser humano (se este não se prevenir) a
colocar-se acima de Deus, para que procure sinais da vontade divina e fique
impaciente porque não fica sabendo se é predestinado. Isso faz o ser humano
suspeitar de seu Deus, a ponto de quase desejar um outro deus. Em suma, aqui o
diabo planeja apagar o amor a Deus com uma tempestade e despertar o ódio contra
Deus. Quanto mais o ser humano segue o diabo e permite tais pensamentos, tanto
mais perigosa é a sua posição. Por fim, ele não consegue mais resistir. Cai no
ódio e na blasfêmia contra Deus.
Se quero saber se sou predestinado, isso
significa que quero saber tudo o que Deus sabe e igualar-me a ele. Assim Deus
não sabe nada mais do que eu e não é Deus. Não deve ele estar acima de mim no
saber? Então o diabo nos mostra quantos pagãos, judeus e cristãos se perdem.
Com tais pensamentos perigosos e inúteis estes chegam a fazer com que o ser
humano fique com má vontade, mesmo que no mais morresse de bom grado. Ser
atormentado por pensamentos sobre a sua predestinação significa ser atormentado
pelo inferno. Há muitos lamentos sobre isso nos Salmos. Quem é vitorioso nesse
ponto venceu de uma só vez inferno, pecado e morte.
9
Devemos esforçar-nos ao máximo para não convidar
nenhuma dessas três imagens a entrar em nossa casa. Também não devemos desenhar
a imagem do diabo por sobre a porta. Por si próprias, essas imagens vão
irromper com violência e querer apoderar-se totalmente do coração através de
seu aspecto, seus debates e suas manifestações. Onde isso acontece, o ser
humano está perdido. Deus foi esquecido completamente, pois essas imagens não
cabem neste tempo, exceto para serem combatidas e expulsas. Sim, onde elas
estiverem sozinhas, sem deixar transparecer outras imagens, seu único destino é
o inferno, entre os diabos.
Quem quiser combater aquelas imagens com sucesso
e expulsá-las não pode contentar-se apenas em discutir e brigar com elas. Elas
serão fortes demais para ele, e a coisa vai piorar. O jeito é livrar-se delas por
completo e não ter nada a ver com elas. Mas como acontece isso? Da seguinte
forma: você deve ver a morte na vida, o pecado na graça, o inferno no céu. Não
deve deixar-se afastar dessa maneira de encarar ou ver as coisas. Mesmo que
todos os anjos, todas as criaturas, mesmo que aparentemente o próprio Deus
apresente algo diferente a você. Não são eles que fazem isso. E o espírito
maligno que provoca essa impressão. Como se deve agir então?
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Você não deve encarar a morte em si mesma, nem em
você ou em sua natureza. Tampouco naqueles que foram mortos pela ira de Deus e
vencidos pela morte. Se você fizer isso, está perdido e é derrotado juntamente
com eles. Ao contrário, você tem que desviar energicamente seus olhos, os
pensamentos de seu coração e todos os seus sentidos dessa imagem. Deve encarar
a morte com ânimo e cuidado apenas naqueles que morreram na graça de Deus e
derrotaram a morte, sobretudo em Cristo, depois em todos os seus santos.
Nessas
imagens, a morte não vai parecer horrível e aterradora para você, mas sim
desprezada e morta, sufocada na vida e derrotada. Pois Cristo não é nada mais
do que pura vida, e seus santos também. Quanto mais profunda e intensamente
você gravar essa imagem e a encarar, tanto mais diminuirá a imagem da morte.
Ela desaparecerá por si mesma, sem luta e sem briga. Assim o seu coração
encontrará paz e poderá morrer tranqüilamente com Cristo e em Cristo. Assim
está escrito em Apocalipse 14.13:
"Bem-aventurados são os que morrem no
Senhor Cristo".
Números 21.6ss aponta para isso: quando mordidos pelas
cobras venenosas, os filhos de Israel não precisavam combatê-las; apenas tinham
que olhar para a serpente morta de bronze. Então as cobras vivas caíam por si
mesmas e morriam. Da mesma forma você deve preocupar-se apenas com a morte de
Cristo. Então encontrará a vida. Mas se você encarar a morte em outro lugar,
ela o mata com grande agitação e tormento. Por isso Cristo diz: "No mundo
vocês terão inquietação. Em mim, porém, terão a paz" (João 16.33).
FONTE: Extraído do livro Consolo no sofrimento de Martinho Lutero editora Sinodal.