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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Os puritanos e a pregação da palavra de Deus


Imagem cedida por: http://grupodeoracaosaomiguel.blogspot.com.br


É típico se ver nas igrejas cristãs um zelo especial pela Palavra de Deus. Nas denominações evangélicas este cuidado também é notório. Embora um tanto desgastada pelos péssimos exemplos da atualidade a pregação da Palavra sempre ocupou um lugar de destaque no culto e na vida cristã, seja do leigo ou do ministro. Ao percorrer a história do cristianismo salta aos olhos os gloriosos exemplos deste amor pelas Letras Sagradas. Os puritanos podem ser tomados como um desses exemplos e aqui estarão expostos os seus traços gerais; servindo-se como guia a exposição de James Packer.
Ainda que um lapso de tempo de quatrocentos anos nos separe dos puritanos, hoje se reafirma a  necessidade de empenho, sinceridade e boa disposição na pregação. Os sermões puritanos eram marcados pela centralidade na Bíblia e vivacidade, tendo em vista a vida diária. “A retórica dos puritanos era serva do biblicismo deles” (p. 300).

A tradição puritana quanto à pregação foi criada em Cambridge na passagem do século XVI para o século XVII, pelos líderes do primeiro grande movimento evangélico naquela universidade (William Perkins, Paul Baynes, Richard Sibbes, John Cotton, John Preston, Thomas Goodwin e outros). O puritanismo que tinham em comum não era um programa de reformas eclesiáticas (p. 300).
No final do século XVI a estrutura dos sermões já tinha sido simplificada, nasceu então a divisão do sermão em três pontos. Lloyd-Jones foi o principal responsável pela entrada da tradição puritana da pregação no séc. XX (p. 301).

Ao traçar o perfil dos puritanos, Packer ressalta as atitudes e maneiras como a pregação deve ser apresentada, tal como aparece no Westminster Directory for the public Worship of God.
Ao servo de Deus cabe realizar todo o seu ministério (p. 298):
1-     Com empenho, não fazendo a obra do Senhor com negligência.

2-     De forma clara, para que os mais simples possam entendê-lo, equilibrado no uso das palavras.

3-     Fielmente visando a honra de Cristo, a conversão, a edificação, a salvação de pessoas e não sua própria glória e vantagem; nada ocultando que possa promover esses objetivos.

4-     Sabiamente, formulando bem todas as suas doutrinas, exortações e, sobretudo, suas reprimendas.

5-   Com seriedade, como convém à Palavra de Deus, evitando gestos, tons de voz e expressões que ocasionem as corrupções humanas que levem as pessoas a desprezarem a ele mesmo e o seu ministério.

6-     Com amor, para que as pessoas vejam que tudo se deriva de seu zelo piedoso, de seu profundo desejo em lhes fazer o bem.
7-    Como alguém que foi ensinado por Deus e que está persuadido, em seu próprio coração, de que tudo quanto ensina é a verdade de Cristo.

Quatro axiomas sublinham todo o pensamento puritano sobre a pregação:

1-     Primazia do intelecto: “Toda graça entra por meio do entendimento”. O único caminho para o coração, que o pregador está autorizado a tomar, passa pela cabeça das pessoas.

2-     Crença na suprema importância da pregação. O sermão era o clímax litúrgico da adoração pública. O sermão não vem naturalmente, o estudo intenso deve ser constante e toda a vida semanal do pregador deve ser planejada tendo em vista o tempo necessário para a preparação do sermão.

3-     Crença no poder que as Escrituras possuem para dar vida. Confiança no poder vivificador e nutriente da mensagem bíblica. A Bíblia é a Palavra de Deus, portanto tem poder para tocar as pessoas no âmago de suas almas. A tarefa do pregador é apascentar o rebanho com o conteúdo da Bíblia. A pregação era caracterizada pela reverência pela verdade revelada e a fé em sua total suficiência ante às necessidades humanas. Por esses motivos o trabalho pastoral era definido em termos de pregação.

4-     Crença na soberania do Espírito Santo. Insistiam que a eficácia final da pregação está fora do alcance do pregador (p. 304).

Os tipos de pregação que derivaram dessas convicções (p. 305...):

1-     A pregação dos puritanos era expositiva em seu método. Explicavam o texto em seu contexto; extraíam uma ou mais observações doutrinárias; ampliavam, ilustravam e confirmavam, com base em outros trechos bíblicos, as verdades dali derivadas.

2-     A pregação dos puritanos era doutrinária em seu conteúdo. “A tarefa do pregador consiste em pregar a fé, e não promover entretenimento para os incrédulos – em outras palavras, alimentar as ovelhas e não divertir os bodes” (p. 306).

3-     A pregação dos puritanos era ordeira em seu arranjo. Davam importância à análise e um bom sermão tinha que ser o mais claro e lógico quanto possível. Eles ensinavam às sua congregações a memorizarem os sermões a fim de meditarem neles durante a semana. Um sermão que fosse difícil de ser lembrado, por essa mesma razão, era tido como um mau sermão (p. 306).

4-     A pregação dos puritanos era profunda em seu conteúdo e popular em seu estilo. Toda a prédica que exalta o pregador não edifica e é uma pregação pecaminosa. Usavam uma linguagem (o inglês) simples, direta e familiar.

5-     A pregação dos puritanos era cristocêntrica em sua orientação. “A chamada do pregador consiste em anunciar todo o conselho de Deus; e a cruz é o centro desse conselho” (p. 307). Três metas: humilhar o pecador, exaltar o Salvador e promover a santidade.

6-     A pregação dos puritanos era experimental em seus interesses. A pregação era declaradamente prática: conduzir as pessoas ao conhecimento de Deus, a experimentá-lo. A regra fora formulada por David Dickson, que recomendou a um jovem pastor que estudasse dois livros ao mesmo tempo: a Bíblia e o seu próprio coração. “Os puritanos viam como uma questão de consciência provarem, por si mesmos, o poder salvífico do evangelho que recomendavam a outros” (p. 308). Demonstravam terem experimentado aquilo que estavam falando.

7-     A pregação dos puritanos era transpassante em suas aplicações. A Palavra de Deus deve ser aplicada aos diferentes tipos de pessoas, dado que as igrejas são formadas por um misto de todo tipo de gente. Baseado nisso o Westminster Directory for Publick Worship of God especifica seis tipos de aplicações: 1) instrução ou informação quanto ao conhecimento de alguma ... conseqüência de sua doutrina; 2) refutação de doutrinas falsas; 3) exortação quanto aos deveres; 4)dissuasão, repreensão e admoestação pública; 5) consolo adequado; 6) auto-exame (p. 309).

8-     A pregação dos puritanos era poderosa em sua maneira de ser. Eles buscavam a unção no púlpito e pregavam como se fosse a última vez, “como se a morte estivesse em suas costas” (p. 310). A técnica é uma necessidade na pregação (exposição e aplicação), mas é necessário, principalmente, a unção do Espírito Santo.
   
    EXTRAÍDO DE: Leituras em PACKER, J. I. A pregação dos puritanos. Cap. 17, in Entre os gigantes de Deus: Uma visão puritana da vida cristã. São José dos Campos, SP: 1996.

domingo, 8 de julho de 2012

Salvo Pela Graça: A Historia de John Newton (2ª Biografia).

Imagem cedida por: http://greenobles.com/john-newton.html

John Newton era pastor de uma igreja crescente em Olney, na Inglaterra, quando compôs a letra daquele que talvez seja o hino mais conhecido até hoje – Amazing Grace (i.e., “Incrível Graça”). Newton estava satisfeito naquele contexto de vida campestre. Ele tinha uma esposa carinhosa ao seu lado, desenvolvia um bom ministério pastoral e estava cercado de pessoas amáveis. Naquele momento, Newton desfrutava de uma ótima vida. Mas, 25 anos antes, sua vida estava em ruínas.
Newton nasceu em Londres no dia 24 de julho de 1725. Seu pai, um capitão de navio mercante, o amava, porém era um homem severo e reservado. Por outro lado, a mãe de John era uma mulher atenciosa e cuidadosa. Ela lhe ensinou as Escrituras – capítulos inteiros da Bíblia de uma vez – bem como hinos e poemas. Infelizmente, a mãe de John Newton morreu, duas semanas antes que ele completasse sete anos de idade, e, pouco tempo depois, seu pai casou-se novamente.
Quando o novo casal teve seu próprio filho, ambos deram mais atenção e carinho a este do que a John Newton, de modo que John deixou-se levar pela companhia influente de garotos pervertidos, aprendendo a andar nos sórdidos caminhos que eles trilhavam. Com a idade de 11 anos, ele fez a primeira das cinco viagens marítimas na companhia de seu pai, durante a qual rapidamente aprendeu a xingar e amaldiçoar com os melhores marujos.
Entretanto, durante os cinco anos que se seguiram, John se viu forçado a refletir seriamente sobre a condição de sua alma. Certa feita faltou pouco para que John Newton embarcasse num navio de guerra que levava a bordo um amigo dele. Mais tarde, todavia, ele soube que aquele navio naufragara e que seu amigo, junto com vários outros tripulantes, tinha morrido afogado.
Também foi nessa época que Newton teve um sonho perturbador no qual ele jogava fora um anel que representava toda a misericórdia que Deus lhe reservara. Essas experiências pesaram de forma tremendamente condenatória na consciência de Newton e, por algum tempo, impeliram-no a tratar as questões espirituais com mais seriedade. Contudo, passados alguns dias, ele logo se esquecia daquilo que o levara à sobriedade e continuava sua queda vertiginosa na espiral da perversidade. Newton afirmou: “Eu geralmente considerava a religião como um meio necessário para se escapar do inferno; mas eu amava o pecado e não estava disposto a abandoná-lo”.[1]
Aos 19 anos de idade, Newton foi obrigado a se alistar como aspirante da Marinha para servir no navio HMS Harwich. Passado algum tempo, ele desertou, foi capturado, encarcerado, açoitado a bordo do navio, fustigado com chicote de nove tiras, e rebaixado. Então Newton entrou em terrível depressão e desespero, que o levaram, por vezes, a querer se lançar ao mar e a planejar maneiras de assassinar o capitão que o humilhara. Entretanto, não demorou muito para que a situação dele mudasse, quando o capitão de seu navio fez uma permuta entre ele e marinheiros de um navio que estava preste a zarpar para a África Ocidental à procura de escravos.

A Época no Tráfico de Escravos

Em meados de 1700, o tráfico de escravos era um negócio lucrativo. Mais de 100 mil escravos foram trazidos para o Novo Mundo em navios ingleses.[2] William E. Phipps escreveu: “No século XVIII, a média de mortalidade dos escravos durante o trajeto [da África para algum porto no Caribe ou nos Estados Unidos, onde eram vendidos] em navios ingleses era de aproximadamente quinze por cento”.[3] Cerca de 15 mil escravos africanos morreram a bordo de navios ingleses nessa época.
Em meados de 1700, o tráfico de escravos era um negócio lucrativo. Mais de 100 mil escravos foram trazidos para o Novo Mundo em navios ingleses.
Em seu novo ambiente, Newton não fez absolutamente nada para ser benquisto pelos oficiais do navio. Ele compôs uma cantiga de escárnio para ridicularizar o capitão do navio e a ensinou para a tripulação inteira. Após capturar uma lucrativa quantidade de escravos, Newton ganhou a permissão de ficar na África, ao longo da costa da Guiné, onde trabalhava para um traficante de escravos inglês que vivia com uma amante africana. Essa mulher não gostava de Newton. Quando Newton contraiu malária, ela o tratou cruelmente, com insultos e subnutrição para que morresse de fome.
Tempos depois, Newton foi injustamente acusado de roubar o traficante inglês. Ele ficou acorrentado com cadeias no convés do navio daquele homem e foi mantido com pouca comida, água e roupa. Na verdade, ele se tornou escravo daquele homem e, por ironia do destino, recebeu o mesmo tratamento com o qual eram tratadas as pessoas que tinham sido escravizadas com a ajuda dele.
Esse tormento durou um ano, até que Newton convencesse seu dono a cedê-lo para um outro traficante de escravos. Seu novo senhor tratou-o com bondade e o colocou na supervisão das “feitorias” (prisões para escravos localizadas nos portos).
Apesar dos olhos vigilantes de seu antigo senhor traficante de escravos, Newton conseguiu enviar algumas cartas para seu pai, nas quais pedia socorro. Certo dia, um navio mercante denominado Greyhound [i.e., “cão pernalta e veloz”] chegou onde Newton estava. Ele fora enviado àquele lugar por ordem do pai de John Newton. A princípio, Newton hesitou em deixar seu negócio que a essa altura já era lucrativo, mas, por fim, concordou em voltar à Inglaterra. Newton foi mantido cativo na África por 15 meses ao todo.
A bordo do Greyhound em sua viagem de volta, Newton demonstrou ser o homem mais profano e devasso do navio. Certa noite, ele estava tão bêbado, que quando seu chapéu caiu no mar pela força do vento, se outro marujo não o agarrasse pela roupa, ele teria se lançado nas águas em busca do chapéu.
Mais tarde naquela viagem, Newton folheou um dos poucos livros que havia a bordo –Imitation of Christ [i.e., “Imitação de Cristo”]. Newton começou a ler esse livro como um mero passatempo, mas, depois, passou a se perguntar o que lhe aconteceria se aquilo que nele estava escrito fosse verdade. Ele ficou com medo e fechou o livro.

Atingido Pela Tempestade

Naquela noite de 21 de março de 1748, uma violenta tempestade se abateu sobre o navio, que por pouco não afundou. Homens, animais e provisões foram arrastados pela força das águas e caíram no mar. Newton orou a Deus pela primeira vez depois de anos. Ele temia estar à beira da morte e, se a fé cristã fosse verdadeira, estava certo de que não seria perdoado. John refletiu em tudo o que fizera naqueles últimos anos, inclusive a atitude de zombar dos fatos históricos do Evangelho, e ficou abalado.
Passados quatro dias, a tempestade diminuiu. Pela providência de Deus, a cera de abelha, que se encontrava no porão de carga, ajudou que o navio continuasse a flutuar. Newton atribuiu a Deus aquele livramento que tiveram. Ele começou a ler o Novo Testamento com mais interesse. Quando chegou à passagem de Lucas 15, John percebeu os impressionantes paralelos entre a sua vida e a vida do filho pródigo.
O navio ficou à deriva por um mês. Os suprimentos se esgotaram. O capitão culpou a blasfêmia de Newton como a causa dos problemas que enfrentavam e cogitou a hipótese de jogá-lo ao mar, à semelhança de Jonas. O navio avariado finalmente conseguiu seguir seu rumo para a Irlanda do Norte, a tempo de não ser apanhado por um vendaval que começava a ocorrer. Newton reconheceu que Deus respondera sua oração.
Ao chegarem em terra firme, Newton tomou a decisão de não mais xingar e blasfemar. Ele chegou a voltar para a igreja. Entretanto, ainda não era um crente em Jesus. Mais tarde ele declarou: “Penso que aquele foi o início de meu retorno para Deus, ou antes, o retorno dElepara mim; contudo, só considero que vim a ser crente em Cristo (no sentido pleno da palavracrente) muito tempo depois daquele momento”.[4]

Regenerado Pela Fé

Naquela noite de 21 de março de 1748, uma violenta tempestade se abateu sobre o navio, que por pouco não afundou. Newton orou a Deus pela primeira vez depois de anos.
Em 1749 Newton zarpou como primeiro piloto de um navio negreiro. A essa altura, ele já tinha se esquecido do compromisso que assumira e recaiu nas antigas práticas pecaminosas. Enquanto buscava escravos ao longo da costa ocidental da África, John Newton foi novamente acometido de malária, situação que o levou a refletir mais uma vez sobre a sua vida. Diante das misericórdias de Deus para com sua vida, ele estava absolutamente convicto da culpa pelos erros que recentemente cometera. Meio delirante e enfraquecido, Newton se levantou da cama e caminhou com dificuldade até um lugar afastado da ilha. Naquele local, percebendo a futilidade de tomar decisões autoconfiantes, “ele se entregou ao Senhor”, escreve Richard Cecil, “para que Deus fizesse com ele aquilo que fosse do Seu agrado. Ao que parece, nada de novo acontecia em sua mente, exceto o fato de que ele estava apto para confiar e crer num Salvador crucificado”.[5] A incrível graça de Deus preciosamente se manifestou no exato momento em que John Newton creu pela primeira vez.
Daquele momento em diante, a vida de Newton mudou gradativamente. No começo, como acontece com a maioria dos crentes, ele não percebia todas as áreas de sua vida que precisavam ser transformadas pela graça de Deus.
Por exemplo, por cinco anos, ele enfrentou lutas quanto à certeza de sua salvação. Todavia, através do encorajamento dado por outro capitão de navio, que também era crente em Cristo, as dúvidas foram vencidas, conforme Newton declarou: “Eu comecei a entender [...] e a ter esperança de ser preservado e salvo, não por meu próprio poder e santidade, mas pelo imenso poder e promessa de Deus, através da fé num Salvador imutável”.[6]
A mudança mais evidente na vida de Newton se deu na área do tráfico de escravos. Um ano antes de crer em Jesus Cristo, John Newton se tornou capitão de um navio negreiro. Nos quatro anos seguintes à sua salvação, Newton realizou três viagens com o intuito de buscar escravos na África e levá-los para serem vendidos no Caribe. Durante essas viagens, Newton liderou sua tripulação em cultos de adoração e em momentos de oração. Contudo, ele também foi forçado a sufocar rebeliões de escravos, chegando a ponto de utilizar instrumentos de tortura para apertar polegares a fim de arrancar confissões.
Mais tarde, Newton se conscientizou de que o tráfico de escravos e sua participação nele eram algo moralmente ultrajante e repulsivo. Ele afirmou: “a força do hábito, o exemplo e o interesse [comercial] cegaram meus olhos”.[7]
A partir do momento em que o Espírito Santo convenceu John Newton dos males e pecados envolvidos no tráfico de escravos, ele passou a trabalhar incansavelmente para extingui-lo num esforço de décadas. Ele foi orientador e conselheiro de um crente em Cristo mais novo do que ele, chamado William Wilberforce, o qual atuou no Parlamento Britânico. Wilberforce se tornou o mais notável e eficaz abolicionista da história da Inglaterra. Alguns meses antes da morte de Newton, ocorrida em 21 de dezembro de 1807, o Parlamento Britânico aprovou o Decreto da Abolição do Tráfico de Escravos, o que muito alegrou Newton.

A Ternura da Graça

Antes de experimentar a graça salvadora de Deus, John Newton não tinha o menor receio de xingar e proferir palavrões quando relampejava, de blasfemar contra o Deus do céu, de zombar da Bíblia, de ridicularizar a consagração a Deus, de se envolver em atos depravados, nem o mínimo escrúpulo de comprar e vender seres humanos como se fossem objetos ou mercadorias.
Entretanto, John Newton mudou completamente após a sua conversão. Mais tarde, ele se tornou pastor e exerceu o ministério pastoral por 23 anos, sempre salientando em seus sermões o tema da graça de Deus. Ele compôs e publicou centenas de hinos, inclusive o hino intitulado How Sweet the Name of Jesus Sounds [que traduzido quer dizer: “Quão doce soa o nome de Jesus”] (um nítido contraste com a época blasfema de sua vida pregressa), bem como demonstrou incessante hospitalidade em sua casa.
Ele manteve comunhão com alguns dos mais notáveis nomes do avivamento evangélico na Inglaterra, tais como George Whitefield e John Wesley; ensinou e encorajou pessoas influentes como o grande missionário William Carey, o poeta William Cowper, e o abolicionista William Wilberforce; além disso, tornou-se um dos maiores defensores do fim da escravidão na Grã-Bretanha.
Como explicar tamanha transformação na vida de um homem? Semanas antes de sua morte, já velho e debilitado, Newton explicou: “Minha memória praticamente se foi; mas ainda consigo me lembrar de duas coisas: que eu sou um tremendo pecador e que Cristo é um tremendo Salvador”.[8] 

Notas:

  1. Richard Cecil, The Works of the Rev. John Newton, 3ª ed., vol. 1, 1824; reimpressão, Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust, 1985, 1:4.
  2. William E. Phipps, Amazing Grace in John Newton: Slave-Ship Captain, Hymnwriter, and Abolitionist, Macon, GA: Mercer University Press, 2001, p. 63.
  3. Ibid., p. 60.
  4. Cecil, p. 33.
  5. Ibid., p. 37.
  6. Phipps, p. 66.
  7. Ibid., p. 202.
  8. Ibid., p. 238.
De: 08/07/2012
Por: chamada meia noite

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os Puritanos e a Bíblia - Um Paradigma para a Igreja - Ken L. Sarles

Imagem cedida por: auribertoeternochocalheiro.blogspot.com

Na crença popular, o termo puritano traz consigo a imagem de um estraga-prazeres austero, pedante, farisaico, um caçador de bruxas. Mas nada poderia estar mais distante da realidade histórica. Embora utilizado originalmente como rótulo degradante, o termo puritano simplesmente denotava aquele que queria purificar a adoração da Igreja e a vida dos santos. O puritanismo inglês surgiu por volta de 1560. Apareceu pela primeira vez com o movimento de reforma litúrgica, mas rapidamente se expandiu, tornando-se uma forma distinta de se ver a vida cristã. O fenômeno puritano poderia ser definido como um movimento na Igreja da Inglaterra, da metade do século XVI até o começo do século XVIII que buscou reformulação na vida da Igreja e purificação na vida dos crentes, individualmente. Era calvinista quanto à teologia e pietista em sua maneira de enxergar as coisas.

Sabemos ter havido vários movimentos de reforma na história da Igreja - mas o que destaca o movimento dos puritanos dentre os demais é ser compromisso radical de viver para a glória de Deus. Nesse sentido, ninguém conseguiu resumir o caráter puritano de forma mais eloqüênte que J. I. Packer: Os puritanos foram almas grandiosas servindo a um grande Deus. Neles, fundiam-se a paixão bem definida e a compaixão de um coração afetuoso. Visionários e práticos, idealistas e realistas também, norteados por metas e metódicos, eles foram crentes magníficos, gente de muita esperança, valorosos obreiros e grandes sofredores. Mas seus sofrimentos, nos dois lados do Oceano (Na antiga Inglaterra - nas mãos das autoridades e na Nova Inglaterra, a mercê dos elementos), amadureceram-nos e tornaram-nos experientes, a ponto de adquirirem uma estatura nada aquém de heróica... as batalhas dos puritanos contra o deserto espiritual e climático no quela Deus os colocara produziram virilidadde de caráter, inabalável e destemida, vivendo do desalento e dos temores.

Os puritanos ocupam um lugar de grande honra entre o povo de Deus, conclui Packer, porque eles permaneceram "doces, pacíficos, pacientes, obedientes, e esperançosos sob pressões e frustrações duradouras e aparentemente intoleráveis.
A estabilidade e a firmeza promotora da honra de Deus que caracterizavam os puritanos é certamente digna de imitação hoje, em nossa sociedade apressada, extremamente móvel, de adulta tecnologia, autogratificadora. Essas mesmas características também permaneceram a forma bíblica de se ver o aconselhamento. Para se compreender o aconselhamento puritano, e desta forma imitar sua prática, precisamos destacar certos elementos de seu pensamento, incluindo a visão que tinham das Escrituras, de Deus, do homem, e do Pecado.
Compromisso com as Escrituras.

As Escrituras constituíam a peça central do pensamento e da vida puritana.

O puritanismo foi, acima de tudo, um movimento bíblico. Para o puritano, a Bíblia era, na verdade, o bem mais precioso que há neste mundo. Sua profunda convicção era de que a reverência para com Deus implicava em reverência para com as Escrituras, e servir a Deus significava obedecer as Escrituras. Para ele, portanto, não haveria maior insulto ao Criador que negligenciar Sua Palavra escrita: e, de maneira contrária, não poderia haver ato de homenagem mais genuínos para com Deus que valorizá-la e atentar para o que ela diz, e assim viver e repassar seus ensinamentos. A intensa veneração das Escrituras, como Palavra viva do Deus vivo e uma dedicada solicitude quanto a conhecer e fazer tudo que ela prescreve, constituía marca registrada do puritanismo.

Para os puritanos, a Bíblia era suprema em tudo, inclusive na prática do aconselhamento.

E a base bíblica para o aconselhamento puritano repousava sobre a doutrina da inspiração divina. O método de inspiração, conforme enxergavam os puritanos, foi por meio do divino superintender do Espírito Santo na escolha das palavras, sem violar o conhecimento ou a personalidade do autor humano. O resultado foi uma inspiração do texto entendida como sendo verbal, plenária, infalível, e inerrante.
Embora muitos evangélicos contemporâneos concordem com essa visão de inspiração, os puritanos foram além de um simples concordar verbal com a doutrina. Os teólogos puritanos enfatizaram a perspicácia, a clareza e o proveito das Escrituras. Até a forma literária do texto inspirado tornou as Escrituras particularmente relevante a condição humana.

"Quanto a forma de expressão, as Escrituras não explicam a vontade de Deus por meio de regras universais e científicas, mas sim por intermédio de histórias, exemplos, preceitos, exortações , advertências e promessas. Este estilo se adequava melhor ao dia-a-dia do homem comum além de influenciar grandemente a vontade, mexendo com as motivações piedosas que se constituem no alvo principal da teologia."

Por seu próprio propósito, as Escrituras visam comunicar a verdade de tal modo que o leitor seja direcionado rumo a Deus. A Bíblia não é, tão somente, apenas clara naquilo que afirma; ela também autentica a si mesma. Nesse sentido, William Ames afirmou:"As Escrituras não precisam de nenhuma explicação proveniente de luz exterior, especialmente quanto às coisas necessárias. Elas se auto-iluminam, e cabe ao homem ser diligente nesse descoberta" Essa importante declaração revela a recusa do puritano em introduzir teorias psicológicas estranhas em sua interpretação do texto. A Bíblia era vista como fonte de toda direção, instrução, consolo, exortação e encorajamento divinos. O resultado disso foi um método de aconselhamento centrado nas escrituras, em lugar de uma teoria carregada.
Um resultado direto da inspiração da Bíblia é sua autoridade implícita. Carregando a marca daquilo que é divino, a autoridade da Bíblia era considerada como final e absoluta. O que quer que a Bíblia dissesse, Deus disse. Conforme Thomas Watson observou: "Em cada linha que você lê, imagine Deus falando com você". Isto significa que a Bíblia permanecia como prumo de juízo na consciência do indivíduo, quanto a todos os seus mandamentos e promessas. Em tudo o que diz, era como se o próprio Deus estivesse exortando, encorajando, dirigindo, consolando, instando, trazendo convicção, e instruindo.

Já que a Palavra de Deus consiste das próprias palavras de Deus, sua autoridade é exaustiva, estendendo-se por toda área da fé e da prática, incluindo tudo o que é necessário para a vida e a piedade. Conforme declarou Richard Sibbes: "Não há qualquer coisa ou qualquer condição que aconteça ao cristão nesta vida sem que exista uma regra geral na Bíblia para tal, e essa regra é estimulada por meio de exemplo" - Em outras palavras, os puritanos possuíam uma perspectiva teológica holística arraigada nas Escrituras, levando William Ames a concluir: "Não há qualquer preceito de verdade universal pertinente ao bem viver quanto a economia doméstica, a moralidade, a vida política, ou a criação de leis que não pertença, por direito a teologia" - Para os puritanos ingleses, toda necessidade psicológica concebível poderia ser satisfeita e todo problema psicológico imaginável poderia ser resolvido por uma aplicação direta de verdade bíblica.

A aplicação das Escrituras era feita de forma mais consistente por meio da pregação expositiva. Conforme explicou Ames: "o dever do pregador comum é destacar a vontade de Deus a partir da Palavra, para de forma coletiva, edificando o corpo dos cristãos ali reunidos". Pela perspectiva puritana, se os santos não eram edificados, então a Palavra não foi pregada. Falando aos pregadores, contemporâneos seus, Ames advertiu: "Pecam, portanto, os que aderem à descoberta e a explicação nua da verdade, mas negligenciam o uso e a prática em que consistem a religião e a bem-aventurança. Esses pregadores pouco ou quase nada edificam a consciência"- A pregação puritana, portanto, constituía-se em uma forma de aconselhamento preventivo, à medida que as verdades das Escrituras eram aplicadas à cosnciência. Para atingir esse propósito, cada sermão foi dividido em duas partes principais: doutrina e prática. O resultado era que a pregação ser tornava tanto profundamente reológica quanto intensamente prática.

A passagem das Escrituras a ser pregada era analisada a luz da gramática, da lógica, e contextualmente, e aí relacionada a outros textos de forma a assegurar sua importância doutrinária . Então, "cada doutrina, quando suficientemente explicada, deveria ser aplicada imediatamente" (Ames) - O uso da doutrina estava relacionado tanto ao discernimento quanto ao direcionamento. O discernimento inclui ou a informação dada a mente ou reforma feita ao entendimento (informação é a revelação de alguma verdade enquanto correção é a condenação da vida que deve ser evitada. A forma que o pastor deveria aplicar a verade bíblica a congregação foi delineada por Ames: "Aplicar uma doutrina quanto a seu uso é afiar e tornar alguma verade geral especialmente pertinente, com efeito tal, a ponto de penetrar a mente do ouvinte, despertando disposições piedosas" - Os puritanos leigos estavam completamente aparelhados com motivação adequadas, quanto ao viver para Deus, por meio da instrução prática a partir da Palavra de Deus. o fundamento no qual eles alicerçaram suas vidas foi a Bíblia.

FONTE: www.josemarbessa.com

domingo, 2 de outubro de 2011

Conhecendo a Bíblia como os Gigantes Puritanos.

Créditos a: http://valecristao.com.br/estudo/biblia_texto.html


Aquele que quiser interpretar corretamente a Bíblia, deve ser homem dotado de espírito reverente, humilde, dado à oração, disposto a aprender e obediente; de outro modo, sem importar o quanto a sua mente esteja "saturada com conceitos", ele jamais chegará a compreender as realidades espirituais.

Passemos agora a estudar a abordagem Puritana quanto à tarefa da interpretação propriamente dita. Seus princípios normativos podem ser sumariados por meio dos seguintes pontos:

1 - Interprete as Escrituras literal e gramaticalmente. Os reformadores — opondo-se à depreciação medieval do significado "literal" das Escrituras, a qual defendia os vários sentidos "espirituais" (alegóricos) — tinham insistido que o sentido literal, ou seja, o sentido tencionado, natural e gramatical, é o único que as Escrituras têm; sendo de acordo com esse sentido que devemos procurar fazer uma exposição da Bíblia, dando cuidadosa atenção ao contexto e à gramática de cada afirmação. Os Puritanos concordavam plenamente com isso.

Se você quiser compreender o verdadeiro significado... de algum trecho controvertido, então examine com cuidado a coerência, o objetivo e o contexto do mesmo."

Nelas [as Escrituras], não há outro sentido além daquele contido nas palavras que materialmente lhe constituem... Na interpretação dos pensamentos de quem quer que seja, é mister que as palavras ditas ou escritas sejam corretamente compreendidas; e isso não poderemos fazer imediatamente, a menos que entendamos a linguagem na qual esse alguém fala, como também as expressões idiomáticas dessa língua, com o uso comum e a intenção de sua fraseologia e expres¬sões.. . Em quantos erros, equívocos e perplexidades muitos expositores têm sido lançados, por causa da ignorância desses idiomas originais... especialmente aqueles que aderem, teimosamente, a uma só tradução... o que pode ser demonstrado por exemplos... incontáveis.

Naturalmente, há lugares, nas Escrituras, onde é usada uma linguagem alegórica. Todos os Puritanos consideravam o livro Cantares de Salomão como um desses casos típicos, e James Durham oferece-nos algumas interessantes observações sobre essa questão:

Admito que há aqui um sentido literal; mas afirmo que o sentido literal não é... aquilo que primeiro se deve buscar, como nas Escrituras históricas... e, sim, aquilo que tem um sentido espiritual... transmitido por meio dessa linguagem alegórica e figurada; esse é o verdadeiro sentido desse livro de Cantares... pois um sentido literal (conforme foi definido por Rivet, com base em certos eruditos) é aquele que flui de tal lugar das Escrituras, conforme tencionou o Espírito nas palavras, usadas literal ou figuradamente, e deve ser depreendido de todo o complexo de expressões... conforme é evidente na exposição das parábolas, das alegorias e das Escrituras figurativas.
Contudo, observou Durham que isso é algo bem diferente da alegorização ilegítima, da qual os intérpretes medievais se fizeram culpados. Porquanto "há uma imensa diferença entre a exposição alegórica das Escrituras e a exposição das Escrituras alegóricas". Durham só pregava alegoricamente quando tinha razão para pensar que ele estava expondo alguma alegoria bíblica.

2 - Interprete as Escrituras de modo consistente e harmônico. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, a expressão da mente divina, tudo quanto ela diz tem de ser verdadeiro, não podendo haver qualquer contradição real entre as suas várias partes. Logo, ficar explorando contradições aparentes, assevera Bridge, mostra uma grande irreverência. E prosseguiu Bridge:

Vocês sabem o que sucedeu a Moisés, quando ele viu dois homens brigando, um egípcio e outro israelita; ele matou o egípcio. Mas quando viu dois hebreus brigando, então ele quis apartá-los, pois eram irmãos. Mas por que fez isso, não foi por ser ele um homem bom e afável? O mesmo sucede no caso de um crente de coração afável. Quando vê a Bíblia lutando com um egípcio, um autor pagão ou um apócrifo, ele vem e mata o pagão... o egípcio ou o apócrifo; mas quando vê dois textos bíblicos em oposição (aparente, mas não na verdade), então diz: Oh! estes são irmãos e podem ser reconciliados; esforçar-me-ei para reconciliar um ao outro. Mas quando alguém tira proveito das aparentes diferenças das Escrituras, para dizer: Vocês estão vendo as contradições que há neste livro, ao mesmo tempo que não procura reconciliá-las, isso prova toda a corrupção da natureza humana, que se manifesta sob a forma de malícia contra a Palavra do Senhor? Portanto, cuidado com isso.

Esse é um pensamento chocante, bem como um diagnóstico acurado.
Visto que a Bíblia é a expressão unificada da mente divina, segue-se que "a regra infalível de interpretação da Bíblia é a própria Bíblia; portanto, quando há alguma dúvida sobre o verdadeiro e pleno significado de qualquer texto bíblico... esse significado deve ser buscado e conhecido por meio de outros textos que falam com maior clareza". Dois princípios derivam-se daí: (1) O que é obscuro deve ser interpretado à luz do que é claro. Disse Owen: "Nesse caso, a regra é que não damos qualquer sentido a uma passagem difícil ou obscura da Bíblia, senão aquele que é... harmônico com outras expressões e testemunhos claros. Pois, criar sentidos peculiares a partir de um texto, sem confirmação de outros textos, é uma prática curiosa e perigosa".'6 (2) As ambiguidades periféricas devem ser interpretadas em harmonia com certezas fundamentais. Logo, nenhuma exposição de qualquer texto estará certa se não "concordar com os princípios cristãos, com os pontos do catecismo estabelecidos no Credo, com a oração do Pai Nosso, com os Dez Mandamentos e com a doutrina das ordenanças".17 Esses dois princípios, juntos, formam a regra de interpretação comumente conhecida como "a analogia da fé", uma expressão tomada por empréstimo de Romanos 12.6 (provavelmente não com o sentido que lhe deu Paulo).

Estas duas regras dizem respeito à forma das Escrituras; e as próximas quatro têm a ver com sua matéria e conteúdo.

3       - Interprete as Escrituras teocêntrica e doutrinariamente. A Bíblia é um livro doutrinário; ela nos ensina sobre Deus e sobre as coisas criadas, em relação a Ele. Bridge ressalta isso desenvolvendo a ilustração bíblica de um espelho, usada por Tiago:

Quando você olha para um espelho, vê três coisas: o espelho, você mesmo e todas as outras coisas, pessoas, móveis ou quadros que estejam na sala. Assim também, quando examinamos a Bíblia... vemos ali verdades acerca de Deus e de Cristo. Deus é visto acima de tudo, Cristo também é visto; e vemos também a nós mesmos e o nosso rosto sujo; também vemos as criaturas que estão no mesmo aposento conosco...

Além disso, as Escrituras ensinam uma visão teocêntrica. Enquanto o homem caído vê a si mesmo como o centro do universo, a Bíblia nos mostra Deus no centro de tudo, e pinta todas as criaturas, incluindo o homem, em sua devida perspectiva — o homem existe por meio de Deus e para Deus. Um dos pontos onde os Puritanos mais podem ajudar-nos é na recuperação desse ponto de vista teocêntrico da Bíblia, que eles defendiam com tanta firmeza.

4       - Interprete a Bíblia cristológica e evangelicamente. Cristo é o verdadeiro tema das Escrituras: tudo ali foi escrito para testificar sobre Ele. Ele é "a súmula de toda a Bíblia, profetizada, tipificada, prefigurada, demonstrada, que se acha em cada página, quase em cada linha, pois as Escrituras são, por assim dizer, as roupas de nenê que envolvem o menino Jesus".19 Portanto:

A Tenha Jesus Cristo diante de seus olhos ao examinar a Bíblia, como o fim, escopo e substância da mesma. Que são as Escrituras, senão, por assim dizer, os "cueiros" espirituais do santo menino Jesus? (1) Cristo é a verdade e a substância de todos os tipos e sombras. (2) Cristo é a substância e a matéria do pacto da graça e de toda a sua administração; sob o Antigo Testamento, Cristo estava oculto; sob o Novo Pacto, Ele foi revelado. (3) Cristo é o centro e o ponto de convergência de todas as promessas; pois nEle as promessas de Deus acham o sim e o amém. (4) Cristo é a realidade simbolizada, selada e exibida nas ordenanças do Antigo e do Novo Testamentos. (5) As genealogias bíblicas são usadas para conduzir-nos à verdadeira linhagem de Cristo. (6)    As cronologias da Bíblia mostram-nos os tempos e épocas de Cristo. (7)   As leis bíblicas são nosso mestre-escola para levar-nos a Cristo: as leis morais, corrigindo; as leis cerimoniais, apontando. (8) O evangelho da Bíblia é a luz de Cristo, mediante a qual nós O ouvimos e O seguimos... as cordas do amor de Cristo, por meio das quais somos enlaçados a uma doce união e comunhão com Ele; sim, o próprio poder de Deus para salvação de todo aquele que crê em Cristo Jesus. Portanto, devemos pensar em Cristo como a substância, a essência, a alma e o escopo de toda a Bíblia.

Quão ricamente os Puritanos aplicavam esse princípio evangélico de exegese só pode ser apreciado por aqueles que escavam os escritos expositivos de autores como Owen, Goodwin e Sibbes.

5 - Interprete as Escrituras de modo experimental e prático. De certo ângulo, a Bíblia é um livro de experiências espirituais, e os Puritanos exploravam essa dimensão com profundidade e discernimento sem rivais. Os temas de O Peregrino servem de índice desse fato — a fé, a dúvida, a tentação, o desespero, o temor, a esperança, a luta contra o pecado, os ataques de Satanás, os cumes da alegria espiritual, os ermos do senso de abandono espiritual. A Bíblia também é um livro prático, dirigindo-se ao homem em sua situação concreta — conforme ele está diante de Deus: culpado, vil e impotente — e dizendo-lhe em que deve crer e o que deve fazer para o bem-estar de sua alma. Os Puritanos reconheciam que essa orientação prática deve ser característica da exposição das Escrituras. As doutrinas devem ser ensinadas do mesmo ponto de vista em que são apresentadas na Bíblia, e devem ser aplicadas com o mesmo propósito ensinado na Bíblia. Owen, conforme vimos, destaca isso ao iniciar sua análise da doutrina da justificação:

Trata-se do direcionamento prático da consciência dos homens, em sua aplicação a Deus, por meio de Jesus Cristo, visando à libertação da maldição devida ao estado de apóstata e à paz com Ele... o manuseio dessa doutrina tem apenas esse desígnio... E apesar de não podermos tratar de modo seguro e útil essa doutrina, senão no que tange às mesmas finalidades para as quais ela foi declarada e para o que ela é aplicada nas Escrituras, não deveríamos... desistir de dar atenção a esse caso, com vistas à sua solução, em todos os nossos discursos sobre o assunto. Pois o nosso dever não é satisfazer a curiosidade sobre noções ou sutilezas das disputas, e, sim, dirigir, satisfazer e conferir paz às consciências dos homens.

A negligência a essa regra, durante a era dos Puritanos, produziu muita irresponsabilidade no manuseio das doutrinas das Sagradas Escrituras; mas os grandes mestres Puritanos observavam-na de modo coerente, e seus escritos, em consequência, eram "práticos e experimentais" (uma expressão que lhes era comum), no melhor e mais edificador sentido.

6 - Interprete as Escrituras com uma aplicação fiel e realista. A aplicação deriva-se da própria Bíblia; assim, a indicação dos "usos" de doutrinas faz parte da obra de exposição bíblica. Interpretar quer dizer tornar as Escrituras significativas e relevantes àqueles a quem o pregador se dirige, e o trabalho não terá terminado enquanto não tiver sido mostrada a relevância da doutrina, "para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (2 Tm 3.16). Os "usos" padrões (tipos de aplicação) consistiam no uso de informações, mediante o qual o ponto doutrinário em foco era aplicado e suas implicações eram extraídas, a fim de moldar os juízos e as atitudes dos homens em consonância com a mente de Deus; o uso de exortações, convocando-os à ação; o uso de consolação, em que a doutrina aparecia como resposta às dúvidas e incertezas; o uso de perguntas para auto-exame, uma chamada para aquilatar e medir as condições espirituais da pessoa à luz da doutrina ensinada (talvez as marcas de um homem regenerado, ou a natureza de algum privilégio. ou dever cristãos). A aplicação deve ser realista; o expositor deve notar que a Bíblia dirige-se aos homens, onde eles estiverem. A aplicação feita ontem talvez não corresponda à condição de hoje. "É um zelo barato aquele que clama contra erros antiquados ou coisas que hoje estão fora de uso e de prática. Cumpre-nos considerar o que a época presente requer". Para um expositor fazer uma aplicação da Bíblia de modo relevante, sondador e edificante (em distinção a uma aplicação desajeitada, imprópria ou confusa), sem dúvida está envolvido um trabalho difícil, que requer grande prudência, zelo e meditação; e, para o homem natural e corrupto, isto será recebido como algo desagradável [essa consideração tenta um mensageiro de Deus a poupar os seus golpes, pois nenhum homem normal gosta de ofender ao próximo]; mas o pastor deve esforçar-se para realizar tal obra de modo que seus ouvintes percebam que a Palavra de Deus é viva e poderosa, capaz de discernir os pensamentos e intuitos do coração; e que, se estiver presente alguma pessoa incrédula ou ignorante, ela terá desvendados os segredos de seu coração, dando então glória a Deus.
A fim de aplicar as Escrituras de forma realista, é preciso saber o que se passa na cabeça e no coração do homem; e os Puritanos insistiam que aqueles que quisessem ser expositores precisavam conhecer as pessoas, tanto quanto a Bíblia.

Esses eram os princípios Puritanos na questão da interpretação da Bíblia. Para eles, nenhuma disciplina é tão precisa, nenhum trabalho tão compensador. Não há dúvida que o método deles era saudável; faríamos bem em seguir em suas pisadas, mas para isso precisamos fazer seis perguntas acerca de cada texto que tivermos de expor:

(1)     Que significam realmente estas palavras?

(2)     Qual luz outros textos bíblicos lançam sobre este texto? Onde e como este texto ajusta-se à revelação total da Bíblia?

(3)     Quais verdades este texto ensina sobre Deus e sobre o homem em seu relacionamento com Deus?

(4)     Como essas verdades se relacionam com a obra salvadora de Cristo, e que luz o evangelho de Cristo lança sobre elas?

(5)     Quais experiências essas verdades delineiam, ou explicam, ou buscam criar ou curar? Com qual propósito prático elas figuram na Bíblia?

(6)     Como se aplicam a mim mesmo e a outras pessoas, em nossa própria situação? A que condição humana atual elas se dirigem, e o que elas nos estão dizendo para crermos e fazermos?

J. I. Packer
FONTE: www.josemarbessa.com

Aprendendo a Maturidade com os Puritanos

Créditos a: http://frateralexander.blogspot.com/2011/09/liturgia-da-santa-comunhao-parte-ii.html


- “Puritano”, como um nome, era, de fato, lama desde o começo. Cunhado cedo, nos anos 1560, sempre foi um palavra satírica e ofensiva, subentendendo mau humor, censura, presunção e certa medida de hipocrisia, acima e além da sua implicação básica de descontentamento, motivado pela religião, para com aquilo que era visto como a laodicense e comprometedora Igreja da Inglaterra, de Elizabeth. Mais tarde, a palavra ganhou a conotação política adicional de ser contra a monarquia Stuart e a favor de algum tipo de republicanismo; sua primeira referência, no entanto, ainda era ao que se via como um forma estranha, furiosa e feia de religião protestante. Na Inglaterra, o sentimento antipuritano disparou no tempo da Restauração e tem fluído livremente desde então; na América do Norte edificou-se lentamente, após os dias de Jonathan Edwards, para atingir seu zênite há cem anos atrás na Nova Inglaterra pós-Puritana.

No último meio século, porém, estudiosos têm limpado a lama meticulosamente. E, como os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina têm cores pouco familiares depois que os restauradores removeram o verniz escuro, assim a imagem convencional dos Puritanos foi radicalmente recuperada, ao menos para os informados. (Aliás, o conhecimento hoje viaja devagar em certas regiões.) Ensinados por Perry Miller, William Haller, Marshall Knappen, Percy Scholes, Edmund Morgan e uma série de pesquisadores mais recentes, pessoas bem informadas agora reconhecem que os Puritanos típicos não eram homens selvagens, ferozes e monstruosos fanáticos religiosos, e extremistas sociais, mas sóbrios, conscienciosos, cidadãos de cultura, pessoas de princípio, decididas e disciplinadas, excepcionais nas virtudes domésticas e sem grandes defeitos, exceto a tendência de usar muitas palavras ao dizer qualquer coisa importante, a Deus ou ao homem. Afinal está sendo consertado o engano.

Mas, mesmo assim, a sugestão de que necessitamos dos Puritanos — nós, ocidentais do final do século vinte, com toda nossa sofisticação e maestria de técnica tanto no campo secular como no sagrado — poderá erguer algumas sobrancelhas. Resiste a crença de que os Puritanos, mesmo se fossem de fato cidadãos responsáveis, eram ao mesmo tempo cômicos e patéticos, sendo ingênuos e supersticiosos, super-escrupulosos, mestres em detalhes e incapazes ou relutantes em relaxarem. Pergunta-se: O que estes zelotes nos poderiam dar do que precisamos?

A resposta é, em uma palavra, maturidade. A maturidade é uma composição de sabedoria, boa vontade, maleabilidade e criatividade. Os Puritanos exemplificavam a maturidade; nós não. Um líder bem viajado, um americano nativo, declarou que o protestantismo norte-americano - centrado no homem, manipulativo, orientado pelo sucesso, auto-indulgente e sentimental como é, patentemente - mede cinco mil quilômetros de largura e um centímetro de profundidade. Somos anões espirituais.

Os Puritanos, em contraste, como um corpo eram gigantes. Eram grandes almas servindo a um grande Deus. Neles, a paixão sóbria e a terna compaixão combinavam. Visionários e práticos, idealistas e também realistas, dirigidos por objetivos e metódicos, eram grandes crentes, grandes esperançosos, grandes realizadores e grandes sofredores.

Mas seus sofrimentos, de ambos os lados do oceano (na velha Inglaterra pelas autoridades e na Nova Inglaterra pelo clima), os temperaram e amadureceram até que ganharam uma estatura nada menos do que heróica. Conforto e luxo, tais como nossa afluência hoje nos traz, não levam à maturidade; dureza e luta, sim, e as batalhas dos Puritanos contra os desertos evangélico e climático onde Deus os colocou produziram uma virilidade de caráter, inviolável e invencível, erguendo-se acima de desânimo e temores, para os quais os verdadeiros precedentes e modelos são homens como Moisés e Neemias, Pedro, depois do Pentecoste, e o apóstolo Paulo.

A guerra espiritual fez dos Puritanos o que eles foram. Eles aceitaram o antagonismo como seu chamado, vendo a si mesmos como os soldados peregrinos do seu Senhor, exatamente como na alegoria de Bunyan, sem esperarem poder avançar um só passo sem oposição de uma espécie ou outra. John Geree, no seu folheto “O Caráter de um Velho Puritano Inglês ou Inconformista” (1646), afirma: “Toda sua vida ele a tinha como uma guerra onde Cristo era seu capitão; suas armas: orações e lágrimas. A cruz, seu estandarte; e sua palavra [lema], Vincit qui patitur [o que sofre, conquista]”.

Os Puritanos perderam, em certa medida, toda batalha pública em que lutaram. Aqueles que ficaram na Inglaterra não mudaram a igreja da Inglaterra como esperavam fazer, nem reavivaram mais do que uma minoria dos seus partidários e eventualmente foram conduzidos para fora do anglicanismo por meio de calculada pressão sobre suas consciências. Aqueles que atravessaram o Atlântico falharam em estabelecer Nova Jerusalém na Nova Inglaterra; durante os primeiros cinqüenta anos suas pequenas colônias mal sobreviveram, segurando-se por um fio. Mas a vitória moral e a espiritual que os Puritanos conquistaram permanecendo dóceis, pacíficos, pacientes, obedientes e esperançosos sob contínuas e aparentemente intoleráveis pressões e frustrações, dão-lhes lugar de alta honra no “hall” de fama dos crentes, onde Hebreus 11 é a primeira galeria. Foi desta constante experiência de forno que forjou-se sua maturidade, e sua sabedoria relativa ao discipulado foi refinada. George Whitefield, o evangelista, escreveu sobre eles como se segue:

Ministros nunca escrevem ou pregam tão bem como quando de-baixo da cruz; o Espírito de Cristo e de glória paira então sobre eles. Foi isto sem dúvida que fez dos Puritanos... as lâmpadas ardentes e brilhantes. Quando expulsos pelo sombrio Ato Bartolomeu (o Ato de Uniformidade de 1662) e removidos dos seus respectivos cargos para irem pregar em celeiros e nos campos, nas rodovias e sebes, eles escreveram e pregaram como homens de autoridade. Embora mortos, pelos seus escritos eles ainda falam; uma unção peculiar lhes atende nesta mesma hora...

Estas palavras vêm do prefácio de uma reedição dos trabalhos de Bunyan que surgiu em 1767; mas a unção continua, a autoridade ainda é sentida, e a amadurecida sabedoria permanece empolgante, como todos os modernos leitores do Puritanismo cedo descobrem por si mesmos. Através do legado desta literatura, os Puritanos podem nos ajudar hoje na direção da maturidade que eles conheceram e que precisamos.

De que maneiras podemos fazer isto? Deixe-me sugerir alguns pontos específicos. Primeiro, há lições para nós na integração das suas vidas diárias. Como seu cristianismo era totalmente abrangente, assim o seu viver era uma unidade. Hoje, chamaríamos o seu estilo de vida de “holístico”: toda conscientização, atividade e prazer, todo “emprego das criaturas” e desenvolvimento de poderes pessoais e criatividade, integravam-se na única finalidade de honrar a Deus, apreciando todos os seus dons e tomando tudo em “santidade ao Senhor’’. Para eles não havia disjunção entre o sagrado e o secular; toda a criação, até onde conheciam, era sagrada, e todas as atividades, de qualquer tipo, deviam ser santificadas, ou seja, feitas para a glória de Deus. Assim, no seu ardor elevado aos céus, os Puritanos tornaram-se homens e mulheres de ordem, sóbrios e simples, de oração, decididos, práticos. Viam a vida como um todo, integravam a contemplação com a ação, culto com trabalho, labor com descanso, amor a Deus com amor ao próximo e a si mesmo, a identidade pessoal com a social e um amplo espectro de responsabilidades relacionadas umas com as outras, de forma totalmente consciente e pensada.

Nessa minuciosidade eram extremos, diga-se, muito mais rigorosos do que somos, mas ao misturar toda a variedade de deveres cristãos expostos na Escritura eram extremamente equilibrados. Viviam com “método” (diríamos, com uma regra de vida), planejando e dividindo seu tempo com cuidado, nem tanto para afastar as coisas ruins como para ter certeza de incluir todas as coisas boas e importantes — sabedoria necessária, tanto naquela época como agora, para pessoas ocupadas! Nós hoje que tendemos a viver vidas sem planejamento, ao acaso, em uma série de compartimentos incomunicantes e que, portanto, nos sentimos sufocados e distraídos a maior parte do tempo, poderíamos aprender muito com os Puritanos aqui também...

J. I. Packer
FONTE:  www.josemarbessa.com

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Como não ler a Bíblia de forma inútil – Richard Greenham (1535 – 1594)

Imagem cedida por: http://prvitorhugo.wordpress.com/2010/05/07/

Uma das mais antigas obras dos Puritanos sobre como ler as Escrituras foi publicada por Richard Greenham (c. 1535-1594) sob o título Uma Proveitosa Obra, Contendo Orientação para a leitura e Compreensão das Escrituras Sagradas. 'Depois de estabelecer que a pregação e leitura da Palavra de Deus são inseparavelmente unidas por Deus na obra da salvação do crente, Greenham concentra-se sobre nosso dever de ler as Escrituras regularmente e a sós, recorrendo ao apoio de Deuteronômio 6.6, 11.18; Neemias 8.8; Salmo 1.2; Atos 15.21; 2 Pedro 1.19.
Tornando-se mais prático, Greenham afirma que os homens pecam não somente quando negligenciam a leitura das Escrituras, mas também "...ao lerem erroneamente"; portanto, as formas apropriadas de leitura reverente e fiel devem ser anotadas, como segue:
1.      Diligência  5. Conferência
2.      Sabedoria   6.
3.      Preparação 7. Prática
4.      Meditação  8. Oração11
Os números 1 a 3 devem preceder a leitura; os números 4 a 7 devem seguir-se à leitura; o número 8 deve preceder, acompanhar e seguir-se à leitura. Aqui está a essência do conselho de Greenham:
1. Diligência — deve ser aplicada à leitura das Escrituras, mais do que se faz na vida secular. Devemos ler nossa Bíblia com mais diligência do que os homens escavam em busca de tesouros enterrados. A diligência torna planos os lugares acidentados; torna fácil o difícil; torna saboroso o insípido.
2.      Sabedoria — deve ser usada na escolha do conteúdo, ordem e tempo. No tocante ao conteúdo, o crente não deve tentar mudar do que é revelado para o que não é revelado, nem consumir tempo considerável nas partes mais difíceis da Escritura. Se o ministro deve adaptar sua pregação da Palavra ao nível de seus ouvintes, "de igual modo muito mais os ouvintes devem aplicar sua própria leitura à sua capacidade individual".
Na questão da ordem, o leitor zeloso da Escritura procurará estar firmemente baseado em todos os "pontos principais da doutrina". Além disso, a leitura da Escritura deve seguir uma ordem, em lugar de leitura dispersiva. Somente uma Bíblia consistente fará um cristão consistente.
O tempo também deve ser utilizado criteriosamente. Todo o sábado deve ser devotado a tais exercícios como a leitura das Escrituras, mas, quanto aos outros dias, um trecho da Escritura de manhã, ao meio-dia e à noite é um equilíbrio sábio (Ec 3.11). Em qualquer circunstância, nenhum dia deve passar sem alguma leitura das Escrituras.
3.      Preparação adequada é fundamental. Sem ela a leitura da Escritura raramente é abençoada. Tal preparação divide-se em três propósitos: Primeiro, devemos nos aproximar da Escritura com temor reverente de Deus e de sua majestade.
Devemos nos aproximar da Palavra estando "prontos para ouvir, tardios para falar1' (Tg 1.19), determinados a guardar a Palavra de Deus em nosso coração. O temor reverenciai é sempre abençoado, quer por termos nossa compreensão esclarecida ou por outras boas emoções sentidas.
Segundo, devemos nos aproximar da Escritura com fé em Cristo, olhando para Ele como o Messias, "o leão da tribo de Judá, a quem é dado abrir o livro de Deus". Se chegarmos à Escritura com reverência perante Deus e fé em Cristo, não abrirá o próprio Cristo nosso coração, como fez aos discípulos a caminho de Emaús?
Terceiro, devemos nos aproximar da Escritura sinceramente desejosos de aprender com Deus. Aqueles que produzem frutos são precisamente os que recebem a palavra "na boa terra [o coração]"; são os que frutificam com perseverança (Lc 8.15). Muitas vezes não obtemos proveito da leitura da Bíblia porque chegamos a ela "sem coração" para o ensino divino.
4.      Meditação — após a leitura é tão decisiva como na preparação antes da leitura da Escritura. Pode-se ler diligentemente, mas a leitura não produz fruto algum, se a meditação não ocorrer após o que foi lido. A leitura pode dar alguma amplitude, mas somente a meditação e o estudo proporcionarão o aprofundamento. A diferença entre leitura e meditação é como a diferença entre flutuar à deriva em um barco e remar em direção ao porto de destino. "A meditação sem leitura é errônea, e leitura sem meditação é infrutífera. ... A meditação faz com que aquilo que é lido torne-se nossa possessão. Bem-aventurado é aquele que medita na lei de dia e de
noite" (Salmo l).
A meditação envolve nossa mente e compreensão, tanto quanto nosso coração e afetos. Para alcançar um julgamento profundo e estável sobre diversas verdades, a mente deve ser levada à compreensão meditativa. A meditação, porém, também "absorve" esse julgamento estável, e leva-o a agir sobre nossas afeições. Se nossas afeições não ficarem envolvidas, nossa profunda compreensão meditativa diminuirá. As Escrituras devem penetrar por toda a textura da alma.
5.      Conferência — Por conferência Greenham está referindo-se a uma conversa devota com ministros ou outros crentes. "Como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo" - (Pv 27.17). O piedoso deve partilhar o que ele está absorvendo das Escrituras, não de maneira orgulhosa, falando além do que os outros conhecem, mas com humildade, confiando que onde dois ou três se reúnem para uma conversação espiritual, Deus estará no meio deles. Tal comunhão não deve abranger muita gente, nem tampouco isolar-se em círculo fechado de uns poucos.
6.      — Nossa leitura da Escritura deve mesclar-se com a fé. A fé é a chave para o proveitoso recebimento da Palavra (Hebreus 4.2); "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hb 11.6). Ler sem fé é ler em vão. Na verdade, todas essas oito diretrizes para a leitura da Escritura devem ser seguidas no exercício da verdadeira fé.
Além disso, por meio da leitura da Palavra pela fé, nossa fé também será refinada. Nossa leitura da Escritura deve provar nossa fé muitas vezes, não somente nas coisas gerais da nossa vida, mas também nos aspectos pessoais da nossa vida — especialmente nas aflições. Como o ouro é purificado no fogo, assim nossa fé deve suportar o fogo da aflição.
7.      Prática — O fruto da fé deve ser prático. A prática "traz o aumento da fé e do arrependimento". A prática é o melhor caminho para o aprendizado; e quanto mais colocamos em prática a Palavra pela obediência diária da fé, mais Deus aumenta nossos dons para seu serviço e para o aumento da nossa prática. Quando o Espírito lança luz sobre nossa consciência de que estamos praticando a Palavra que lemos, recebemos também o grande benefício de estarmos seguros de que temos fé.
8.      Oração — Essa prática é indispensável ao longo de toda a leitura da Escritura — precedendo, acompanhando e seguindo. Em leitura pública da Escritura, não é possível fazer pausa e orar após cada versículo. Na leitura em privacidade faremos bem em temperar constantemente a Escritura com sal, usando petições curtas, ardentes, aplicáveis de acordo com sugestões específicas dos versículos diante de nós. Lutero escreveu: "Faça uma pausa em cada versículo da Escritura e agite, por assim dizer, cada galho dele, para que possivelmente algum fruto venha a cair."
Se oramos pelo alimento para o nosso corpo a cada refeição, quanto mais devemos orar pelo alimento espiritual provido em toda leitura da Bíblia! Se não ousamos tocar nosso alimento e líquido antes de orarmos à mesa, como ousamos tocar o Livro santo de Deus — nosso alimento e nossa bebida — sem oração?
A oração, necessariamente, também envolve ações de graças: "Se somos levados a louvar a Deus quando ele alimenta nosso corpo, quanto mais devemos fazê-lo quando ele ali-menta nossa alma?"16 Não sejamos fervorosos ao pedir e, em seguida, frios ao dar graças. Antes, oremos para ler com te¬mor piedoso e humilde gratidão, lembrando-nos de que o crente que é superficial na leitura da Bíblia será superficial na vida cristã.
Se a Bíblia existe para influenciar-nos, devemos recorrer a ela. "A Bíblia que está amarrotada", escreveu Vance Havner, "geralmente pertence a alguém que não está." Negligenciar a Palavra é negligenciar o Senhor, porém aqueles que lêem a Escritura, nas palavras de Thomas Watson, "como uma carta de amor que lhes foi enviada por Deus", desfrutarão seu poder afetuoso e transformador.

Joel Beeke
FONTE: http://www.josemarbessa.com/2011/08/como-nao-ler-biblia-de-forma-inutil.html

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