quarta-feira, 29 de junho de 2011

História de Judas Iscariotes (doze Homens e uma missão)

Imagem cedida por: http://mundodagislene.blogspot.com/2011/04/judas-iscariotes-o-emocionante-encontro.html


JUDAS ISCARIOTES

"(...) ai daquele por intermé­dio de quem o Filho do homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido!"
Mateus 26.24b

Dentre os numerosos personagens bíblicos, talvez nenhum te­nha deixado para a posteridade uma memória tão trágica e ignominiosa quanto Judas Iscariotes.
Seu nome tornou-se, ao longo dos séculos, sinônimo de desprezo e es­cárnio, transformando-se na própria epítome da traição. A ignomínia que se apropriou desse nome pode ser facilmente percebida em festas folclóricas como a "Malhação de Judas", que todos os anos vemos repetir-se em nosso país, durante as comemorações da Semana Santa.
Embora, com o decorrer do tempo, o nome Judas tenha sido grandemente estigmatizado, seu emprego nos tempos bíblicos era muito comum, como vemos nos exemplos que o Novo Testamento nos fornece.
- Judas, irmão do Senhor (Mt 13.55, Mc 6.3);
- Judas Tadeu, um dos doze apóstolos (Lc 6.16, Jo 14.22);
- Judas, o Galileu, líder do partido de resistência dos gaulanitas (At 5.37);
- Judas, habitante de Damasco, onde Saulo foi recolhido (At 9.11);
- Judas, chamado Barsabás, apóstolo da Igreja de Jerusalém (At 15-22). Na história de Israel, o nome Judas foi coroado de glória com o fervor revolucionário de um dos membros da casa dos Macabeus. Personagem des­tacado do período inter-bíblico, Judas Macabeu sagrou-se - ao lado do pai e dos irmãos — por sua luta para libertar Israel da opressão do rei sírio Antíoco Epífanes, tornando-se um dos grandes heróis daquela nação.
Quando se estabelece o propósito de escrever sobre a biografia dos apóstolos, tem-se em mente a trajetória vitoriosa de homens ungidos pelo Espí­rito Santo, audaciosos peregrinos que percorreram longas distâncias do mundo antigo testemunhando da graça de Deus e operando sinais e prodígios con­forme o Senhor lhes concedia (At 2.43). Nessa perseverança, muitos deles derramaram suas vidas no cumprimento da comissão de Cristo, mas não sem antes padecer indizíveis humilhações e torturas que quase anteciparam suas execuções. Nada disso, entretanto, diz respeito ao caminho seguido por Judas Iscariotes. Tomado por objetivos estranhos à causa do evangelho, o jovem discípulo perdeu-se no labirinto de suas paixões, abortando uma glo­riosa carreira de fé que se descortinava a sua frente. Por isso, ao pesquisador apostólico, escrever sobre Judas traz consigo um sabor de desgosto, muito distinto daquele despertado pelas vidas dos demais apóstolos.
Filho de Simão Iscariotes (Jo 6.71), Judas tem seu nome derivado da forma grega de Judá {louvor). O sobrenome Iscariotes, por sua vez, é uma provável corruptela do hebraico Ish Kerioth, ou "homem de Queriote". Seria esta uma referência ao vilarejo de Queriote Hezrom, localizado ao sul de Hebrom? Em se confirmando essa suposição, Judas Iscariotes pode ser o único dos doze apóstolos a proceder da Judéia, num flagrante contraste com seus condiscípulos, todos galileus. Isto, por si só, representaria para o apósto­lo uma característica distintiva na comunidade dos doze.
Não há referências pormenorizadas ajudas no Novo Testamento antes da apresentação dos discípulos, descrita nas listas apostólicas (Mt 10.4), nas quais seu nome figura sempre por último, como que em repúdio a sua vergonhosa carreira. Deste modo, ficamos sem o registro bíblico do momento de sua vocação como discípulo, assim como das circunstâncias e dos pormenores que a envolveram.
Se Judas for, de fato, procedente da Judéia, sua vocação deve ter se dado de modo distinto de seus companheiros de discipulado, contatados nas pro­ximidades do Mar da Galiléia. E provável que o futuro traidor tenha conhe­cido Jesus durante alguma incursão do Mestre pelo território da Judéia. Lembremos que, durante o batismo de Jesus (num local dalém Jordão, po­rém próximo da Judéia), então saíam a ter com ele Jerusalém, toda ajudéia e toda a circunvizinhança do Jordão (Mt 3.5). Judas talvez estivesse entre eles. Ou, ainda, é possível que a fama do Nazareno, propagada entre os cidadãos da Judéia a partir de Seu batismo, tenha despertado em Judas curiosidade suficiente para fazê-lo seguir rumo à Galiléia, em busca dos milagres e dos sermões de seu futuro mestre (Mt 4.23-25).

Judas, um tesoureiro pouco confiável
Da época de sua vocação como discípulo até a Semana da Paixão, quase nenhuma menção é feita acerca de Judas. Esse silêncio só é rompido pelo evangelista João em seu relato da unção de Jesus por Maria em Betânia, de onde podemos deduzir a ocupação que Judas exercia entre os doze e os indícios da torpe ganância que germinava em seu coração (Jo 12.4-6).

"Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, dis­se: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários, e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava..."

Para um coração avarento como o de Judas a atitude de Maria era, de fato, digna de toda murmuração. Fabricado a partir de flores cul­tivadas na índia, o bálsamo de nardo derra­mado sobre a cabeça de Jesus era um dos perfumes mais caros da Antigüidade. O volu­me da especiaria com que a devota ungiu Je­sus eqüivalia a um ano de salário de um trabalhador comum!
Mas, por que Jesus e seus seguidores mais ín­timos precisariam de um tesoureiro? E como o futuro traidor pode preencher o perfil necessá­rio para ocupar este posto? O relato dos evange­lhos nos deixa claro que, à medida que eram chamados, os apóstolos abandonavam seus ofí­cios e priorizavam, em suas vidas, o discipulado aos pés de Cristo (cf. Mt 19.27, Mc 1.16-18 e Lc 5.11). Assim, ao se estabelecerem como um corpo, os doze e seu Mestre passaram a sobrevi­ver basicamente de ofertas que recebiam dos corações mais generosos que de perto os seguiam (Lc 8.3). Com o crescimento desses donativos, surgiu também a necessidade de se escolher al­guém dentre os doze que assumisse a responsa­bilidade por sua administração. Essa honrosa tarefa, por mais paradoxal que a princípio nos pareça, recaiu sobre Judas, conforme Jo 12.6.
Embora a Bíblia nada comente a respeito, a escolha de Judas para a tesou­raria do grupo nos leva a deduzir que o traidor não era alvo de qualquer desconfiança de seus condiscípulos; muito ao contrário, é bem provável que tenha conquistado a simpatia de todos. Para seus amigos ele aparentava ser (como no episódio de Betânia) alguém altruísta e dotado de uma sensibilida­de especial para com os necessitados. Ademais, com a disponibilidade de um hábil contador como Mateus integrando o grupo, presume-se que Judas tam­bém fosse dotado de preparo intelectual e alguma experiência administrativa que justificasse sua eleição para aquela função.
Embora a suposta simplicidade de Judas Iscariotes tenha cativado seus parceiros, não o fez com o Mestre que, desde cedo, conhecia os intentos de seu coração. Em Jo 6.70 vemos Jesus, mais de um ano antes da crucificação, profetizando um futuro sombrio acerca do apóstolo:

"(...) Não vos escolhi eu em número de doze? Contudo um de vós é diabo."

Embora conhecesse as motivações de Judas, Jesus todavia nunca o des­mascarou diante de seus companheiros. Se o fizesse, podemos imaginar que Pedro e os demais tomariam suas próprias providências para que a traição nunca se concretizasse. Note-se que, ao ser indagado acerca do traidor (Mt 26.22-23), durante a última ceia, Jesus respondeu de maneira tal que todos continuaram ignorando sua identidade:

"(...) O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá."

Durante as refeições, os judeus não usavam talheres, mas "garfavam" seu bocado de comida usando um pedaço de pão, na mesma vasilha de alimen­to, como símbolo de união. Assim, no momento em Jesus responde à mór­bida pergunta, é provável que vários dos discípulos, apenas separados por lapsos de segundos, estivessem fazendo a mesma coisa que Judas. Isso talvez explique porque, mesmo após essa indicação, os onze continuaram incertos quanto a quem dentre eles seria o traidor. Nem mesmo o cinismo de Judas trouxe sobre ele a desconfiança dos demais (Mt 26:25):

"Então, Judas, que o traía, perguntou: Acaso sou eu, Mestre?(...)"

O breve apostolado de Judas
Ao contrário dos demais apóstolos, Judas experimentou, em função de seu suicídio, um ministério limitado ao tempo em que esteve na companhia do Mestre, ou seja, cerca de três anos apenas. Mas, a grande dúvida que envolve o apostolado de Judas nesse período não diz respeito a sua duração, mas ao seu desempenho propriamente dito. Teria o futuro traidor conhecido o sucesso ministerial ao lado de seus companhei­ros? Em algum momento, através de sua intercessão, teriam sido saradas as enfermidades ou expulsos os demôni­os? Se tomarmos como referência o epi­sódio do envio dos apóstolos por Jesus, descrito em Mt 10, é possível que sim. Vejamos o que Jesus diz aos doze mis­sionários, ao enviá-los à campanha (Mt 10.5-8).

"A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: (...) curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios (...)
A participação ativa de Judas nas ações apostólicas parece clara no ser­mão com que Pedro introduziu a escolha de Matias para o posto do discí­pulo ausente, conforme vemos em At 1.17:

"Porque ele era contado entre nós e teve parte neste ministério..."

No texto grego original, Pedro refere-se a Judas como alguém que obteve a mesma categoria dos demais discípulos, ou seja, alguém que, antes de desviar-se por caminhos tortuosos, logrou reconhecido sucesso em seu apostolado.

A traição
Os dias que antecederam o momento da traição foram certamente de grande conflito para Judas. Afinal, como um discípulo próximo de Jesus, por três longos anos ele testemunhara tanto a riqueza dos ensinamentos quanto a sublimidade dos prodígios realizados por seu Mestre. Por isso, a única certeza que tinha ao prosseguir com aquela maquinação era a de não estar traindo um impostor. Entretanto, à medida que o dia se aproximava, sua ganância encontrava na covardia e no medo seus piores inimigos. Destarte, perma­necendo com toda dissimulação junto aos demais até momentos antes da última ceia, Judas encontra nas palavras do Mestre (Jo 13.27b) o ímpeto que lhe faltava para a consolidação de seu intento:

"(...) O que pretendes fazer, faze-o depressa."

Uma vez consumada a traição, a tentativa implícita de Judas compartilhar a responsabilidade de sua iniqüidade com os sacerdotes e anciãos judeus (Mt 273,4), demonstrou-se infrutífera em amenizar os tormentos de sua consciência e fê-lo precipitar-se num sentimento de autodestruição irrefreável (Mt 27.5).
Antes de tratarmos objetivamente do suicídio de Judas, devemos considerar algumas perguntas que têm incomodado os biblicistas no que se refere à pessoa do traidor. Por exemplo, quais os aspectos motivacionais que o teriam feito se aproximar de Jesus e assumir o árduo compromisso do discipulado, tarefa que já havia custado a desistência de tantos ao longo do caminho (conf. Jo 6.65-67)? Ou, ainda, teria sido ele um discípulo sincero a princípio, ou já se infiltrara entre os demais trazendo consigo seus ímpios intentos? Já que o Novo Testa­mento não deixa pistas suficientes para esquadrinharmos essas questões, tudo que podemos fazer é considerar algumas possibilidades.
Na tentativa de elucidar alguns mistérios que cercam essa personalidade intrigante, alguns estudiosos presumem que Judas teria planejado friamen­te sua traição desde o princípio, entendendo que Jesus, de alguma maneira, representava um perigo para a nação de Israel. Entretanto, antes de se ado­tar tal sugestão, é necessário que se aponte exatamente que tipo de perigo algum nacionalista exacerbado poderia encontrar em Jesus. Estaria tal ame­aça em sua atitude de confronto — se é que assim pode ser chamada — com a classe rabínica, tão influente na vida social judaica? Ou a encontraríamos na ausência de acepção mostrada por Jesus para com os gentios? Podería­mos considerar aqui outros possíveis pontos de conflito entre o pensamen­to de Jesus e de algum fanático judeu da época; no entanto, é muito pouco provável que alguém como Judas arquitetasse semelhante plano de infiltra­ção no meio dos discípulos, abrindo mão de seu conforto e de seus projetos particulares, apenas para trair Jesus posteriormente.
Outra hipótese à chegada de Judas sugere que ele estava, a princípio, sin­ceramente motivado em seus objetivos. Judas poderia ser apenas mais um dentre tantos milhares de judeus que suspiravam pela manifestação de um libertador nacional, naqueles tempos de opressão romana. Contudo, ao convencer-se de que Jesus decididamente não se tornaria o protagonista da reviravolta política associada ao Messias, o jovem discípulo decidiu desertar, tirando proveito financeiro dos anos gastos no discipulado, através da traição estimulada pelos principais dos sacerdotes, como nota o rev. Russell Shedd em sua obra O Mundo, A Carne e o Diabo (p.99).

"Quando esse discípulo finalmente percebeu que Jesus não tencionava lutar contra seus inimigos nem liderar qualquer movimento que o estabelecesse no poder, ficou profundamente decepcionado. Se o Senhor não ia assumir o domínio político, para quê todo aquele sacrifício e perigo? Justificou a traição com base na atitude generalizada: um movimento que não tem condições de prosperar não merece suor nem sangue. Pelo contrário, 'é justo' tirar alguma vantagem enquanto há tempo."

Há também os adeptos do raciocínio fatalista, que preferem atribuir a culpa do caráter de Judas à predestinação divina, ancorados em referências proféticas do Velho Testamento como, por exemplo, o Salmo 41.9, cum­prido durante a última ceia (Jo 13.18).
"(...) O que comia do meu pão, levantou contra mim seu calcanhar."
Se adotarmos a segunda hipótese, devemos concluir que em nenhum dos discípulos o colapso do sonho de ver no Nazareno a restauração da glória de Israel tenha causado tamanha frustração como em Judas.
Qualquer que tenha sido a motivação inicial, o certo é que, ao cabo de sua breve jornada como discípulo e diante da irreversibilidade de sua trai­ção, Judas mostrou-se tomado por um sentimento de remorso que o preci­pitou na autodestruição. Pendendo desfigurado sob aquela árvore, o discípulo transformou-se na mórbida imagem da amargura e do desespero, fruto dos extravios de seu próprio coração. No redemoinho que atormentava a alma de Judas, podia-se encontrar muitos sentimentos, exceto o arrependimento sincero que teria, em si mesmo, o potencial de salvá-lo do destino ao qual se entregara, como nos lembra o apóstolo Paulo em 2 Co 7.10,11:

"Por que a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte."

Ora, se pode ter havido perdão celestial para os carrascos nazistas Johaquim von Ribentropp, Wilhelm Frick e Wilhelm Keitel - responsáveis diretos pelo extermínio de milhões de judeus na Segunda Guerra, mas sin­ceramente arrependidos segundo o pastor que os assistiu em Nuremberg — poderia igualmente ter havido misericórdia para o traidor, se este a buscasse de todo coração diante do Pai.

O suicídio de Judas
A perturbação que se apoderou de Judas diante de sua infidelidade, assim como a vã tentativa de compartilhar seu desespero com os que estimularam a traição está retratada em Mt 27.3-10. Ali, vemos o discípulo intentando devolver a paga de seu crime — trinta moedas de prata — aos sacerdotes e oficiais do templo, que, por sua vez, se recusaram a recebê-la, por se tratar de "preço de sangue", ou seja, uma soma inconcebível de ser ofertada a Deus. Diante disso Judas, atirando a sacola com as moedas no pátio do templo, retirou-se incontinenti com o propósito de atender ao último sussurro que o Maligno soprara em seus ouvidos: dar cabo a sua própria vida.
Em At 1.15-20, Pedro relembra, em seu sermão, o vergonhoso galardão recebido pelo apóstolo como paga por sua traição (1.18a).

"Ora, este homem adquiriu um campo com o preço da iniqüidade..."

Aqui deparamos com uma dificuldade na seqüência do relato bíblico. Se Judas, tomado pelo remorso, devolveu as moedas de prata aos anciãos do tem­plo, conforme Mateus 27.5, como poderia ter adquirido um imóvel, como nos dá a conhecer Pedro em sua mensagem no cenáculo? O Dr. Gieason Archer em sua Encyclopedia ofBible Difficulties (p. 344), propõe duas possibilidades para o esclarecimento dessa aparente contradição. Primeiramente, Judas já ha­via se antecipado e fechado negócio com o proprietário do terreno que preten­dia adquirir com o soma da traição embora, no último momento, tenha preferido devolver o dinheiro a concretizar a compra. Em segundo lugar, Pedro estaria, em seu sermão, referindo-se de modo irônico ao fato de que Judas realmente adquiriu, com a traição, um pedaço de terra (gr. cboriori), mas não um imóvel para morar e sim sua própria sepultura! Archer lembra que, aqui, o termo chorion poderia se aplicar perfeitamente a esse sentido.
O quadro do suicídio de Judas também reserva alguns detalhes confusos que demandam muita atenção do estudioso bíblico. Em seu sermão para os cento e vinte que aguardavam a promessa do Pai no cenáculo, Pedro acres­centa alguns fatos inéditos sobre a morte do discípulo, aparentemente des­conexos com o relato de Mateus (At 1.18b-19a).

"e, precipitando-se, rompeu pelo meio, e todas as suas entranhas se der­ramaram. E foi notório a todos os que habitam em Jerusalém;"

Como podemos conciliar essa descrição de Pedro com o texto de Mt 27-5. onde a narrativa do suicídio de Judas não apresenta qualquer referência a essa cena macabra?
O verbo grego empregado no relato de Mateus (apenxato, aoristo de apancho), cujo significado tornou-se específico a partir do quinto século antes de Cristo, dá a idéia de que Judas apertou um nó ao redor de seu pescoço e saltou de um galho de árvore ao qual estava atado. Mateus, portanto, encerra seu enfoque sobre Judas com a cena do enforcamento. Por outro lado, no cenáculo, Pedro tem em mente não o enforcamento em si, mas a cena macabra que se sucedeu a ele, algo que de tão medonho, ficou gravado na memória de quem o testemunhou.
Diante das diferenças apresentadas por estes relatos, supõe-se que o galho no qual o traidor se pendurou projetava-se sobre um precipício relativamente alto e, talvez por um forte vento, rompeu-se, lançando ribanceira abaixo corpo de Judas. O verbo "romper" (gr. lakeo) empregado por Pedro, significa tam­bém "estourar", sugerindo que o despencar do corpo de Judas resultou numa violenta queda com conseqüente mutilação, devido ao forte impacto.
Uma versão estranha e curiosa do suicídio de Judas é fornecida por Papias de Hierápolis, um dos grandes nomes do cristianismo do segundo século. Em sua Exposição dos Oráculos do Senhor — de cujo conteúdo só restaram fragmentos — o autor pré-niceno comenta o fim do traidor.

"Judas andou por esse mundo como um triste exemplo de impiedade. De tal maneira inchou-se em sua soberba, que já não podia passar por onde uma carroça facilmente passava. Foi, então, esmagado por uma carrua­gem de sorte que suas entranhas se derramaram."

Uma vaga a ser preenchida
Em seu livro The Apostles, o dr. Donald Guthrie comenta, com muita propriedade, as circunstâncias que envolveram a decisão de se preencher a lacu­na deixada por Judas e algumas de suas conseqüências imediatas (At 1.15-26):
"Dentre os dias que os discípulos empreenderam orando e aguardando a vinda do Espírito Santo, o mais notável foi aquele no qual decidiram com­pletar a vacância resultante da defecção de Judas.
Pedro foi quem suscitou a questão e a maneira como o fez é digna de nota, uma vez que evidencia a perspectiva pela qual os discípulos viam a carreira apostólica. A esse ofício era atribuída tal importância que seu significado não podia ser dissociado nem mesmo de seu número original, estabelecido por Jesus. Como judeus, os discípulos certamente conferiram alguma rele­vância simbólica ao número doze, como correspondente das tribos de Isra­el. Mesmo os judeus sectários de Qumram, no deserto da Judéia, contavam com um concilio de doze anciãos. Entretanto, a causa mais provável segun­do a qual os apóstolos insistiram na permanência dos doze foi devido ao peso da autoridade que o próprio Senhor Jesus deu a ele.(...)
O fato mais significativo sobre a referência de Lucas quanto ao fim de Judas está no apelo de Pedro às Escrituras, como garantia de que aquele posto deveria ser preenchido. Pedro reconhece que aquilo que as Escritu­ras dizem é o que fala o Espírito. Ele, então, apela aos Salmos 69 e 109, os quais, embora de autoria atribuída a Davi, são compreendidos como a voz do Espírito. Esta visão acurada do Velho Testamento está refletida em ou­tras passagens da narrativa lucana.(...)
Os dois Salmos certamente não se referem ajudas, mas, uma vez que Davi representa uma alegoria do Messias, seus inimigos são identificados como tipos dos inimigos de Jesus. (...) De tal maneira estavam os apóstolos cons­cientes da relevância do cumprimento das Escrituras que, mesmo diante de uma eleição para tal ofício, consideravam imperativo apelar para elas, o que por sua vez demonstra a importância que atribuíam ao encargo apostólico.
O enfoque sobre a elegibilidade para o exercício do apostolado é de grande importância. Dirigidos pelo propósito de determinarem um substituto para Judas com base nas Escrituras, eles depararam, a princípio, com a questão relativa às prerrogativas essenciais para o ofício apostólico. Isto se deveu, basicamente, pelo fato de nenhum deles ter tido a experiência de escolher apóstolos anteriormente; Jesus o havia feito. Provavelmente, esta foi a oca­sião propícia para considerar as razões pelas quais o Mestre os tornou Seus escolhidos. Até então, a única e óbvia qualificação que podiam encontrar para tal era o fato de que todos eles seguiram a Jesus desde os dias da pregação de João Batista até o momento de Sua ascensão aos Céus.
Pedro sugere, então, que essa mesma qualificação seja requerida para o complemento da vaga. É óbvio que semelhante exigência limitaria severa­mente o universo de escolha.(...)
Assim, apenas dois homens satisfaziam as exigências determinadas: José Barsabás e Matias. Tornou-se, portanto, necessário o estabelecimento de algum método de escolha. Todos eram unânimes em crer que a eleição de um apóstolo se constituía numa tarefa divina e não humana, por isso consa­graram a Deus, em oração, todo o procedimento para a escolha. Os discí­pulos eram sinceros quanto a querer que a vontade de Deus se cumprisse em resposta às suas orações, através do lançamento de sortes. Este procedi­mento, todavia, acabou por suscitar alguns problemas. Como poderiam eles saber se o método usado conferia com a vontade divina? Eles poderiam, por certo, apelar para o exemplo veterotestamentário, no qual o ato de se lançar sortes revelava o propósito de Deus(Pv 16:33). Todavia, é importan­te notar que a igreja primitiva não deu continuidade a esta prática. De fato, ela é mencionada exclusivamente nessa passagem do Livro de Atos. E pos­sível que os apóstolos tenham então aprendido que a era Cristã possuía soluções mais excelentes do que o Urim e Tumim do Velho Testamento (cf. 1Sm Sm 14.41) e que esta Era seria definitivamente regida pelo Espírito Santo, Aquele que Jesus prometeu ser o Guia infalível."
Alguns comentaristas, numa visão severamente crítica, reputam por preci­pitada a eleição de Matias para a vacância alegando, basicamente, três razões: em primeiro lugar, o caráter duvidoso do método utilizado para sua escolha, como vimos registrar o Dr. Guthrie. Em segundo, o silêncio absoluto das Escrituras acerca do ministério apostólico de Matias, tanto nos dias que antece­deram como nos que sucederam sua eleição. E, por fim, o surgimento de Paulo, como um dos maiores vultos do cristianismo da Era apostólica.
Entretanto, fechar questão quanto à precocidade da escolha de Matias -como sugerem alguns - é pouco recomendável, ainda que o ministério desse apóstolo permaneça obscurecido pelo silêncio da Escrituras e - em menor grau - da própria tradição cristã posterior. Basta lembrarmos que vários dos apóstolos também passaram pela história quase sem deixar rastro de seus ministérios. O que sabemos, segundo a tradição eclesiástica, sobre a carreira de Simão Zelote, Tiago Maior e, especialmente, Tiago Menor não supera significativamente o que se conhece sobre Matias.
Diversas são as razões que podem ter determinado a tímida repercussão histórica de apostolados como o do substituto de Judas. Viagens por regiões pouco conhecidas ou muito afastadas das fronteiras do império e a povos cuja cultura foi posteriormente destruída estão entre elas. Deve-se conside­rar, ainda, o morte ou o martírio prematuro, como no caso de Tiago Maior.
McBirnie dá sua impressão sobre a polêmica envolvendo a escolha de Matias (op. cit, p.24l).
"Alguns eruditos como David Smith e Campbell Morgan questionam o modo de sua escolha. Devido ao silêncio das Escrituras com relação ao seu ministério posterior, concluíram que os onze se precipitaram ao ele­ger Matias.Eles argumentam que Paulo é quem deveria ter sido escolhido e que os discípulos se adiantaram à direção do Espírito. Não devemos, entretanto, acatar essa idéia como verdadeira. A conversão de Paulo não se sucedeu senão muitos anos após a data da escolha de Matias, e o ministério de Paulo como apóstolo deu-se ainda mais adiante no tempo. Paulo teve de permanecer por anos em Tarso, em completa obscuridade até se tornar um missionário. Por esse tempo, Tiago Maior, foi assassinado por Herodes, deixando, assim, outra vaga entre os Doze. Paulo nunca foi aceito como um dos apóstolos originais e nem de fato poderia ser, uma vez que não conheceu Jesus segundo a carne."

Matias, o incógnito substituto de Judas
São escassas as informações bíblicas acerca desse a quem os discípulos escolheram como suplente de Judas. Mas, se o Novo Testamento se cala a respeito dele, a tradição eclesiástica deixou registrados alguns vestígios que nos permitem algumas conjecturas sobre os passos de Matias no ministério apostólico.
O grande historiador Eusébio, por exemplo, sugere que Matias estava entre os setenta discípulos enviados por Jesus em Lc 10.1. Se isto for verda­de, é possível que esta tenha sido a ocasião perfeita para Matias mostrar algumas de suas qualidades espirituais que, mais tarde, tornaram seu nome escolhido para o posto deixado por Judas.
De qualquer modo, a exigência de que o substituto devia ser um dos que acompanharam os doze todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre eles (At 1.21), deixa claro que Matias sempre se manteve perto dos apóstolos. Essa proximidade, por suposto, conferiu a Matias uma experiên­cia que enriqueceu seu ministério nos lugares por onde apregoou o nome de Cristo.
McBirnie propõe um perfil para o obscuro discípulo (op. cit, p.246-247).

"Como um dos primeiros seguidores de Jesus, tornou-se proeminente dentre os Setenta. Ele parece ter acompanhado os Doze em numerosas ocasiões e pode muito bem ter sido, a princípio, mais um dentre os discí­pulos de João Batista, assim como São João e Santo André. Foi segura­mente eleito para ocupar o lugar de Judas imediatamente após a ascensão de Jesus. Portanto, Matias estava presente em Jerusalém no dia de Pentecostes, participando ativamente dos turbulentos dias de expansão da Igre­ja primitiva. Como judeu, Matias provavelmente deixou Jerusalém para dirigir-se à distante parcela judaica da Diáspora."

A história da milenar Igreja da Armênia aponta Matias como sendo um dos evangelistas pioneiros naquela região, ao lado de André, Bartolomeu, Judas Tadeu e Simão Zelote. Algumas lendas mencionam ainda possíveis campanhas missionárias do apóstolo a Damasco, na Síria, à Macedônia e à imprecisa região da Etiópia oriental.
Uma antiga tradição martirológica afirma que Matias foi executado por mãos judaicas em Jerusalém, após retornar de uma campanha na Macedônia, entre 61 e 64 A.D. Para outras lendas, entretanto, seu martírio deu-se em 64 A.D. em Sebastopol, na Ucrânia, ao sul da península da Criméia.
FONTE: Doze homens e uma missão / Aramis C. DeBarros. - Curitiba : Editora Luz e Vida, 1999.

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