quinta-feira, 30 de junho de 2011

Lutero e a reforma alemã (1403-1522)

Imagem cedida por: https://apdsji.wordpress.com/2009/10/25/frase-de-martinho-lutero/


Desde há muito, a doutrina da justificação pela fé ti­nha sido perdida de 
vista na igreja, e foi este um dos fatos pelos quais a Reforma se tornou uma necessidade. Logo que o poder desta verdade enfraqueceu nas almas dos fiéis, foi introduzida a doutrina de salvação pelas obras, e subs­tituíram por penitências e mortificações exteriores aquele arrependimento para com Deus e a santificação íntima. Estes erros começaram logo no tempo de Tertuliano e au­mentaram à proporção que iam passando os anos, até que, por fim, a superstição do povo não se podia levar mais adiante, e as trevas da Idade Média foram a origem dos flagelantes.

AS INDULGÊNCIAS
Os flagelantes, uma seita de fanáticos, foi instituída no século treze, e espalhou-se por uma grande parte da Euro­pa. Andavam pelas ruas meio-nus, flagelando-se duas vezes por dia com chicotes. A severidade destes castigos, que imaginavam servir de expiação, não só dos seus pecados, como também dos pecados dos outros, excitou a princípio a perseguição, mas por fim despertou a simpatia do povo, que começou a virar as costas aos padres desregrados e a confessar os seus pecados e tristezas aos flagelantes. 0 pensamento dominante dos padres foi então ver como po­deriam conservar a influência do domínio usurpado, "e, portanto", disse d'Aubigné, "inventaram um negócio novo a que chamaram indulgências". Em troca de uma quantia mais ou menos avultada, conforme a classe a que o com­prador pertencia, ficava este livre de uma peregrinação, de um jejum, ou de outra qualquer penitência; e assim come­çou esse detestável negócio.
O papa percebeu logo as vantagens que podiam resul­tar de um sistema tão lucrativo e, em tempo oportuno, Clemente VII instituiu o extraordinário dogma de que a crença nas indulgências era um artigo de fé.
Estas indulgências de Roma não diziam respeito só aos vivos; iam além da tumba, e as almas que gemiam no Pur­gatório também se dizia que eram salvas por meio delas.
A venda de indulgências era necessariamente um gran­de incentivo ao pecado, e, na verdade, os ignorantes nada podiam ver nesta doutrina senão uma licença absoluta para praticarem o mal, enquanto que os padres, que apro­veitaram cada vez mais tais idéias erradas, não tinham pressa em esclarecer o povo.
Tal era a condição da igreja no começo do século dezesseis: tão corrupta nas suas ações, que era impossível continuassem as coisas assim por muito tempo como estavam.
Não obstante isso, Roma vangloriava-se e estava con­fiante, porque tinha poucos inimigos declarados que a in­comodassem. Os hussitas tinham sido, uns espalhados pela perseguição, outros atraídos de novo para o grêmio da igre­ja; e o testemunho dos cristãos valdenses tinha sido quase suprimido. Mais ainda: havia um sentimento de insatisfa­ção nos corações dos homens de todas as classes que nem o fumo do fogo dos mártires sacrificados por Roma podia apagar, nem as promessas enganosas dos padres aliviar.
Reis e fidalgos, cidadãos e camponeses, teólogos e homens de letras, políticos e soldados tinham todos as suas razões de queixa, e estavam moralmente preparados para a obra de Reforma. A Europa tinha despertado do longo pesadelo da Idade Média, e estava agora olhando, ainda que com olhos de sono, através do nevoeiro de uma longa supersti­ção, à procura da luz. Era inevitável uma mudança impor­tante, uma reação; mais ainda, uma revolução; e apenas era necessário achar um chefe. 0 espírito dos homens esta­va pronto para a revolução; e só necessitava de um que agüentasse o peso da luta para os guiar, aconselhar e diri­gir.
Deus viu o que era preciso e enviou Martinho Lutero à Igreja na Europa.
Não faltaram líderes para seções e grupos particulares, mas Lutero havia de ser o chefe. Os príncipes e fidalgos, de há muito desgostosos com a usurpação sucessiva dos seus domínios pelos papas, encontraram no eleitor Frederico de Hanover um representante dedicado, embora tímido; os políticos e homens de letras, oprimidos pelas leis canônicas acharam um intérprete dos seus pesares em Ulrico von Hutten, mas todos, desde o rei até o mais humilde, encon­traram o defensor das suas liberdades no grande monge agostinho, Martinho Lutero.

MARTINHO LUTERO
O reformador era filho de pais humildes, nasceu em Eisleben na província de Mansfeld, no dia 10 de Novembro de 1483. "Eu sou filho de camponeses", dizia ele mais tar­de, "meu pai, meu avô, e todos os meus antepassados eram camponeses". Foi de seus pais que ele herdou aquela rude simplicidade e temperamento franco e alegre, peculiar do camponês da Turíngia. A educação que recebeu em casa era reta e rigorosa, e o tratamento que recebeu na escola era áspero em extremo, mas tudo isso foi necessário para preparar o futuro reformador para a sua grande e perigosa obra.
Aos quatorze anos de idade foi mandado para a escola franciscana em Magdeburgo onde aumentaram muito os seus sofrimentos. Conta ele que quase o matavam de fome, e muitas vezes era obrigado a cantar nas cidades e vilas próximas para angariar pão. Algum tempo depois manda­ram-no para Eisenach, onde tinha parentes, mas estes de­ram-lhe pouco ou nenhum alívio. Teve de continuar a va­guear, esfomeado e miserável, pelas ruas cantando hinos e pedindo "panem propter Deum" às portas dos desconheci­dos, agradecendo muito até as migalhas que lhe eram às vezes lançadas. Mas por fim chegou o alívio. Aquilo que os parentes lhe tinham negado, deram-lhe os estranhos; e uma tarde depois de ter pedido a diversas portas sem re­sultado, chegou a uma onde não foi repelido. Os cristãos hão de sempre recordar com afeto e gratidão o nome de Ur-sula Cotta, porque foi ela que abriu as suas portas ao pobre rapaz esfomeado e lhe deu não só o sustento, mas um lar e o amor de uma mãe. Lutero teve ocasião, mais tarde, de re­tribuir a sua bondade, recebendo também o filho de Ursula na sua própria casa em Wittenberg.

LUTERO NA UNIVERSIDADE
Quando tinha dezoito anos, foi, por ordem de seu pai, para a Universidade de Erfurt estudar direito, e foi ali que seu espírito tomou uma séria orientação pela morte repen­tina do seu condiscípulo e amigo íntimo Aleixo. Isto teve lugar por ocasião dumas férias pequenas, quando ambos passeavam juntos. Ao passarem por Thuringenevald fo­ram surpreendidos por uma grande tempestade, e o levia­no Aleixo foi atingido por uma faísca elétrica. Caindo de joelhos, com o impulso do momento, Lutero fez um voto de se consagrar ao serviço de Deus, se Ele o poupasse na oca­sião.
Desde então mudou completamente. Levou bastante tempo antes que lhe voltasse o amor pelo estudo, e passava dias e dias vagueando pensativo pela biblioteca da Univer­sidade, como alguém que não pudesse achar descanso. Por fim veio-lhe às mãos uma Bíblia em latim, e tendo um per­feito conhecimento daquela língua, começou a ler o livro. Era esta a primeira vez que tinha olhado para aquele livro sagrado, e a sua surpresa foi grande. Nele encontrou uma sabedoria mais profunda do que imaginara, pérolas preciosas de verdade que nenhum missal ou breviário podia ensinar, e inclinou-se sobre seu novo tesouro num arrebatamento da alma. Á proporção que lia ficava mais persuadido da autoridade divina do livro sagrado, e ia-se possuindo de uma convicção profunda da sua própria maldade. Até ali as palavras inspiradas tinham para ele um sentido mis­terioso e estava como alguém que procurasse o seu cami­nho às apalpadelas em plena luz do sol. Perplexo e trêmu­lo, fechou o livro, e, após, fez uma lista dos seus pecados, que o encheu de um vago receio. Nunca tinha, até então, pensado seriamente neles; nunca os tinha considerado sob um ponto de vista tão negro. Uma tão medonha série ti­nha-lhe, por suposto, fechado as portas do Céu para sem­pre; não podia haver esperança para um homem tão vil como ele. Então Lutero lembrou-se de repente de seu voto, e ergueu-se com um novo propósito no coração: Sim; ainda restava uma esperança - deixaria a Universidade e far-se-ia monge.

LUTERO NUM MOSTEIRO
Vamos agora encontrá-lo no mosteiro dos frades agostinhos, em Erfurt, e como tudo está mudado! Quando o dei­xamos era ele um inteligente estudante de Direito, um ba­charel de artes, e o ídolo da Universidade; agora é um monge, e o mais íntimo entre eles. Aquele que outrora ti­nha pronunciado discursos e tomado parte em discussões sábias era agora o criado da sua ordem, e tinha de limpar as celas, dar corda ao relógio, e varrer a capela do mostei­ro! Contudo Lutero sujeitava-se a estes trabalhos penosos, inerentes à sua nova posição, sem se queixar; a luta moral porque estava passando quase lhe fazia esquecer a degra­dação. Muitas vezes, quando sentia a sua alma apoquentada, deixava seu trabalho para ir à capela do mosteiro, onde estava guardada a Bíblia, e ali procurava o alimento espi­ritual de que carecia. E era só nestas ocasiões que ele podia estudar a Palavra de Deus.
Mais tarde, porém, foi nomeado para a cadeira de teologia e filosofia de Wittenberg, que se achava vaga. A nomeação foi feita por Staupitz, vigário geral da ordem agostinha de Saxônia, por conselho de Frederico, o Sábio, Elei­tor de Hanover. Lutero era agora até um certo ponto se­nhor do seu tempo, e podia dedicar-se mais ao estudo da Bíblia. A solidão de sua cela era muito conveniente para esse fim, e ele estudava com um zelo pouco vulgar. Fazia esforços extraordinários para reformar o seu modo de vi­ver, e para expiar o passado por meio de orações e penitên­cias, e foram muitos os votos que ele fez para se abster de pecado, mas estes esforços nunca o satisfizeram, e quebra­va sempre os seus votos. "É em vão", dizia Lutero triste­mente a Staupitz, "que eu faço tantas promessas a Deus: o pecado é sempre o mais forte". Staupitz discutia branda­mente com ele, e falava-lhe do amor de Deus e que Deus não estava zangado com ele, como Lutero supunha; mas o monge continuava desconsolado. "Como posso eu ousar crer na graça de Deus", dizia ele, "se é certo que ainda não se operou em mim uma conversão? Preciso necessariamen­te mudar de vida para ser aceito por Ele".
A sua ansiedade tornou-se mais profunda do que nun­ca, e os seus esforços para apaziguar a justiça divina conti­nuavam com um zelo incansável. "Eu era na realidade um monge piedoso", escreveu anos depois, "seguia os preceitos da minha ordem com mais rigor do que posso exprimir. Se fosse possível a um monge obter o Céu por suas obras monacais eu era, certamente, um dos que tinha direito a isso. Todos os frades que me conheceram podem ser testemu­nhas. Se tivesse continuado por muito mais tempo as mi­nhas penitências ter-me-iam levado à morte, a força de vigílias, orações, leituras e outros trabalhos".
O monge tinha ainda, de aprender a significação destas palavras: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8,9).
As repetidas conversações com Staupitz davam-lhe uma certa esperança, e de vez em quando sentia um estre­mecimento de alegria, e o seu coração ganhava confiança. Mas a lembrança dos seus pecados tornava a voltar e a sua alma perturbada tremia de horror ao pensar no julgamento a que tinha de comparecer. "Oh! os meus pecados! Os meus pecados!" exclamou ele um dia diante do vigário geral; e quando Staupitz lhe falou em Cristo como o Salvador do pecado e da impureza, as suas palavras pareciam ser um mistério impenetrável para o pobre monge.
Por fim a sua saúde ressentiu-se de tal maneira por tão repetidas vigílias e mortificações que chegou a estar às por­tas da morte. E então aos seus outros receios juntava-se mais o terror do seu próximo fim, e o medo do julgamento futuro mergulhava-o num abismo ainda mais profundo.
Que lhe aconteceria se morresse sem estar salvo? Que aconteceria se morresse nos seus pecados? Ainda não tinha uma certeza completa de misericórdia divina; aqueles pe­cados ainda não tinham sido postos de parte, e ele receava levar para a sepultura o peso deles.
Nesta triste condição foi um dia visitado na sua cela por um monge piedoso, que lhe disse algumas palavras de consolação. Lutero, vencido pela bondade dessas palavras, abriu o seu coração ao velho monge, mal imaginando o que havia de resultar daí. O monge não podia segui-lo em todas as suas dúvidas, mas repetiu-lhe ao ouvido uma frase do Credo dos Apóstolos que muitas vezes o tinha consolado:
"Creio na remissão dos pecados". Foi esta uma mensagem de Deus para a alma de Lutero, e agarrou-se àquelas pala­vras com uma energia quase desesperada. "Eu creio", repetia ele para consigo, "eu creio na remissão dos pecados".
Ouvindo-o repetir essas palavras, o monge lembrou-lhe que a fé deve ser pessoal e não uma fé geral, que não era bastante crer meramente no perdão dos pecados de Davi, ou dos pecados de Pedro, mas sim no perdão dos seus próprios pecados. Todas estas palavras soavam como música celestial aos ouvidos do trêmulo ouvinte, e quando o digno ancião acrescentou, "Atendei ao que diz S. Bernardo, e ao testemunho que o Espírito Santo produz no vosso coração, B que é este: "Os teus pecados te são perdoados". A luz brotou naquele coração atribulado, e Lutero deu graças a Deus por essas palavras serem verdadeiras com respeito a H ele mesmo.

LUTERO VAI A ROMA
Mas embora verdadeiramente convertido, Lutero ain­da se conservava escravo de Roma; e foi só depois de ter feito uma visita à cidade papal que ele começou a des­cobrir a corrupção que ali existia, e a sentir-se abalado na sua obediência à igreja romana. Tornou-se necessária esta visita de caráter oficial em conseqüência de uma questão que se levantou entre o vigário geral e sete dos conventos, e no tempo o competente Lutero pôs-se a caminho. Quando avistou Roma prostrou-se, e exclamou: "Santa Roma eu vos presto a minha homenagem", considerando-a como o campo de ação de S. Pedro e S. Paulo.
Mas quando entrou na cidade abriram-se-lhe os olhos. Começou a compreender que poço de corrupção era real­mente a metrópole do catolicismo e durante algum tempo ficou atordoado. Por onde quer que se dirigisse encontrava sempre o mesmo mal, e entre os habitantes da cidade, os que em mais alta voz proferiam blasfêmia ou mais se distinguiam pela sua infidelidade eram os próprios padres. Enquanto um dizia a missa num altar, diziam-se sete no altar próximo. Também ouviu da boca dos próprios mon­ges uma história que o horrorizou e o perturbou. Contaram eles, no meio de gargalhadas, que quando diziam missa, em lugar de pronunciar as palavras sacramentais sobre o pão e o vinho com que suponha transformá-los no corpo e sangue de Cristo, freqüentemente repetiam estas palavras: "Panis es, et panis manebis; vinum es, et vinum manebis" - Pão és, e pão ficarás; vinho és, e vinho ficarás.
O que fica dito apenas mostra a grande impiedade que Lutero encontrou em Roma durante a sua curta perma­nência ali; podíamos, se fosse necessário, mencionar muito mais. Foi pois com a alma entristecida pelo que ali tinha visto que Lutero saiu da cidade de Roma e voltou para a sua terra natal.

LUTERO VOLTA PARA WITTENBERG
Quando ali chegou, formou-se em teologia, e os seus sermões começaram a atrair a atenção na igreja da ordem agostinha em Wittenberg, onde se reuniam grandes multi­dões para o ouvirem. A sua magnífica exposição, e sua elo­qüência, a sua admirável memória, e sobretudo a evidente força das suas convicções, cativavam todos os que o ou­viam, e o dr. Martinho Lutero tornou-se o assunto das con­versações entre as pessoas ilustradas. Mas o que o tornou mais geralmente notável foi a sua contenda com João Tet­zel, o monge dominicano de Leipzig. Tetzel tinha vindo vender indulgências no próprio lugar onde Lutero estava cumprindo com os seus deveres de confessor do povo de Wittenberg. Tornava-se, pois, inevitável uma questão en­tre eles.

DISCURSO DE TETZEL
Subindo ao púlpito, perto do qual estava colocada uma grande cruz vermelha encimada pelas armas papais, Tet­zel começou o seu discurso. Falava alto e animadamente, e fazia do Purgatório uma descrição medonha que fascinava o auditório, despertando em todos a maior solicitude pelas almas dos seus amigos já falecidos. Falou das grandes van­tagens da comodidade que ele proporcionava aos seus ou­vintes, pois não havia pecado algum que tivessem cometi­do que se não pudesse lavar com uma indulgência. Ainda mais, estas indulgências eram eficazes não somente com respeito aos pecados presentes, mas também sobre os pe­cados passados e futuros. E ainda os pecados que os seus ouvintes tivessem o desejo de cometer podiam ser perdoa­dos com antecedência pelas suas cartas de absolvição: "Eu não trocaria o meu privilégio", disse o monge loquaz, "pelo de S. Pedro no Céu, porque eu tenho salvo mais almas com as minhas indulgências do que o apóstolo com os seus dis­cursos".
Estas observações eram escutadas com uma atenção extraordinária, mas os seus apelos a favor dos mortos pro­duziram ainda mais resultado. "Padres, nobres, mercado­res, esposas, moços, moças", exclamou ele, "ouçam a vos­sos pais e amigos já mortos, gritando-vos do abismo pro­fundo: 'Nós estamos sofrendo um martírio horrível! Uma Pequena esmola nos poderia salvar; vós podeis dá-la, e contudo não quereis fazer!' Ouçam estes gritos, e saibam que logo que soar uma moeda no fundo da caixa a alma sol­ta-se do Purgatório e dirige-se em liberdade para o Céu... Como sois surdos e desleixados! Com uma insignificante quantia podeis livrar o vosso pai do Purgatório, e apesar disso sois tão ingratos que não comprais a sua liberdade! No dia do juízo eu serei justificado, mas vós sereis castigados tanto mais severamente por terdes desprezado tão grande salvação".
Concluído o discurso, os fiéis chegaram-se às pressas para onde se achava o vendedor de indulgências, e ali fize­ram as suas compras. A maior parte deles ficaram prova­velmente, muito satisfeitos com o seu negócio, e, quando no dia seguinte se foram confessar, foi sem idéia nenhuma de se emendarem dos seus pecados. Não tinham eles, por­ventura, consigo um documento assinado pelo irmão João Tetzel, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que lhes restituía a inocência e pureza que tinham na hora do seu batismo, assim como também os declarava isentos das conseqüências de futuros pecados até ao dia da sua morte?

OPOSIÇÃO DE LUTERO A TETZEL
Porém, o padre confessor Martinho Lutero não ligava importância nenhuma ao irmão Tetzel, nem aos seus do­cumentos. O seu dever era dizer ao povo que Deus odiava o pecado; que o Inferno e não o Céu é o destino dos maus, e que, a não ser que tivessem um verdadeiro arrependimento para com Deus, ficariam perdidos para sempre. "Se não abandonardes vossos pecados", dizia ele, "perecereis todos igualmente".
Era em vão que Tetzel se encolerizava e o povo se opu­nha a estas sábias declarações. Lutero mantinha-se firme: "Acautelem-se", avisava ele, "e não dêem crédito aos cla­mores desses vendedores de indulgências! Há melhores coisas em que pensar do que na compra das tais licenças, que eles vendem pelos preços mais vis". No púlpito não era menos enfático. Em linguagem muito clara aconselhava o povo a que não continuasse com aquele tráfico infame.
O seu sermão deixou o auditório muito admirado e tornou-se o assunto da geral discussão em Wittenberg; e antes de ter passado a sensação que ele causou apareceram as suas famosas Teses - certas proposições sobre as verdades fundamentais do cristianismo, que Lutero escreveu e colo­cou na porta da sua igreja. Nenhum dos amigos de Lutero, nem mesmo os mais íntimos, sabia que ele as havia escrito; e o povo de Wittenberg ficou uma manhã espantado ven­do-as colocadas na porta da igreja. O erro de tão horrível tráfico era ali claramente exposto; e logo todos começaram a sentir que havia falado uma voz como ainda se não tinha ouvido outra na Europa. Uma cópia das Teses caiu nas mãos de Tetzel, e o frade dominicano ficou furioso. Chegou a valer-se de imprecações. Escrever também algumas teses e em seguida queimar as de seu adversário foi simplesmen­te acrescentar mais fel ao seu próprio cálix, porque os estu­dantes de Wittenberg tomaram o partido do seu professor e responderam a isto queimando oitocentas cópias das te­ses do dominicano.
No entanto as Teses de Lutero passavam de mão em mão, e espalhou-se rapidamente a notícia do ato arrojado do reformador. O papa soube logo desse fato, e citou o in­domável monge a comparecer em Roma, mas por conselho do príncipe de Saxônia - um amigo verdadeiro de Lutero -a citação foi ignorada. O Príncipe lembrava-se da sorte de João Huss, e suspeitava naturalmente das intenções de Leão X.

O PAPA DENUNCIA LUTERO
Lutero foi pois declarado herege, e o papa, em conse­qüência disso, mandou publicar uma bula de excomunhão contra ele. Durante toda esta agitação o doutor tinha avançado com firmeza no conhecimento da verdade, e quando recebeu a excomunhão já se tinha de tal maneira desembaraçado das cadeias de Roma que estava pronto Para dar mais um passo, como reformador, e declarou Publicamente que o papa era o Anticristo! Sem dúvida, essa declaração era arrojada, mas foi seguida de um ato Malmente arrojado. Rodeado pelos professores e estudantes da Universidade e vários membros da municipalidade, Lutero, na praça pública, queimou a bula do papa!
Roma logo teve conhecimento disso e tendo um senti­mento confuso do perigo que corria, declarou que o monge havia de morrer. Carlos V, um jovem príncipe que dava muitas esperanças, estava então no trono da Alemanha. Era católico romano, mas de modo algum se sujeitou incondicionalmente à autoridade da igreja. Não obstante is­so, o núncio Aleander, então legado papal na Alemanha, induziu-o a tomar alguma medidas com respeito a Lutero. Roma tinha as forças exaustas, e se não tivesse do seu lado o poder temporal tudo estava perdido. Estava para se reu­nir um congresso em Worms, para felicitar o jovem impe­rador pelo seu acesso ao trono e para fazer os preparativos para o contrato da eleição, e era essa a ocasião para dar uma palavra decisiva e esmagar o incômodo herege. Era este o pensamento geral e o papa juntou-se a ele, e expri­miu o desejo de que Aleander estivesse presente ao con­gresso, com o fim de ordenar o cumprimento da sua bula.
Era aquela uma ocasião própria para operar. O perigo ia-se espalhando e o soberano pontífice da cristandade ti­nha começado a compreender a força e a coragem do seu adversário. O espírito da Europa tinha despertado e não havia meio de o adormecer de novo se não fizessem calar o audacioso monge. Retirar-se da luta era simplesmente inú­til, porque a voz de Wittenberg já tinha soado por toda a Europa, e todos estavam esperando ansiosamente ouvi-la de novo. O serviço exclusivo de três imprensas não tinha podido suprir ao povo os seus escritos com bastante brevi­dade; e a sala de leitura da Universidade e a igreja dos agostinhos não eram suficientemente grandes para conter as multidões que ali se reuniam para ouvirem Lutero pre­gar. Príncipes, camponeses, poetas e homens de estado; professores, sábios e estudantes de teologia, todos igual­mente tinham despertado; e todas as classes e todas as na­ções dirigiam para Lutero e sua suprema atenção. Um monge solitário em Wittenberg fizera soar a trombeta de desafio, e a Europa inteira estava esperando com grande interesse o resultado da próxima luta.

IDA DE LUTERO A WORMS
Foi para Lutero um tempo de perigo aquele, mas a sua confiança em Deus era grande. Determinou ir a Worms responder às acusações que lhe eram feitas, fossem quais fossem os perigos; e quando o seu propósito foi conhecido encontrou mais uma vez um verdadeiro amigo no Príncipe da Saxônia. Este príncipe cristão obteve para ele um sal­vo-conduto do imperador e de todos os príncipes alemães por cujos estados ele tinha de passar; e com esta proteção Lutero estava pronto a partir. Os seus amigos estavam re­ceosos e apreensivos, e procuraram ainda dissuadi-lo de empreender a jornada. Mas Lutero, confiando em Deus, não se importou com o pedido deles. "Se Jesus Cristo me ajudar", disse ele, "estou resolvido a nunca fugir do cam­po, nem abandonar a Palavra de Deus".
Chegando a Francfort, escreveu ao seu amigo Spalatim, que estava em Worms, para arranjar-lhe um quarto; e na sua carta lê-se o seguinte período característico: "Ouvi dizer que Carlos publicou um edito com o fim de me ater­rorizar. Mas Cristo vive; e havemos de entrar em Worms ainda que as portas do Inferno, ou todos os poderes das tre­vas se oponham".
A sua entrada naquela cidade no dia 16 de Abril de 1521 celebrou-se com uma ovação pública; e chegaram-lhe aos ouvidos muitas palavras piedosas e animadoras, e mui­to povo o abençoava quando ele atravessava as ruas para o seu alojamento. No dia seguinte apareceu o marechal do império para o conduzir ao Congresso; e quando o monge se dirigia por entre a multidão para a sala do concilio foi saudado com palavras amigas por vários cavaleiros e fidal­gos que se achavam ali presentes.

LUTERO NO CONCILIO
Ao entrar na sala do concilio o reformador ficou um tanto assombrado pelo espetáculo pouco vulgar que se lhe apresentava. Logo defronte dele sentava-se, vestido de Púrpura e arminho, Carlos V rei de Espanha e imperador da Alemanha, e ao lado do trono estava seu irmão, o arquiduque Fernando. Á conveniente distância deles estavam colocados príncipes do império, duques, margraves, arce­bispos, bispos, prelados, embaixadores, deputados, con­des, barões e outros. Um tal espetáculo era bastante para perturbar o espírito do monge solitário que tinha passado a maior parte da sua vida na solidão na sua casa de provín­cia, e na cela do mosteiro; mas havia alguém que estava do lado dele, que era mais que suficiente para protegê-lo. Al­guém que tinha dito a Ezequiel nos tempos passados:

"Não os temas, nem temas as suas palavras; ainda que se­jam sarças e espinhos para contigo, e tu habites com escor­piões, não temas as suas palavras, nem te assustes com os seus rostos!" (Ez 2.6). Era nele que Lutero confiava.

Os trabalhos daquele dia foram começados pelo chan­celer de Treves, um amigo de Aleander. No meio de um so­lene silêncio levantou-se do seu lugar e dirigiu a Lutero as seguintes perguntas: "Em primeiro lugar, queremos saber se estes livros" - e apontou para as obras de Lutero que es­tavam sobre a mesa - "foram escritos por vós. Em segundo lugar, se estais pronto a retratar-vos do que escrevestes nestes livros, ou se persistis nas opiniões que neles expusestes". Depois de ter trocado algumas palavras com o seu advogado, Lutero deu uma resposta afirmativa à primeira pergunta, mas pediu algum tempo para considerar a se­gunda. O seu pedido foi satisfeito e assim combinaram dar-lhe até ao dia seguinte para pensar no assunto.
Aquele espaço de tempo, exceto uns poucos momentos dedicados aos seus amigos, foi empregado por Lutero em fervente oração a Deus, e assim animado apresentou-se pela segunda vez perante o tribunal dos homens, mas esta vez forte e ousado; e quando o chanceler lhe fez de novo a pergunta ele respondeu-lhe com tanta facilidade que ar­rancou exclamações de admiração dos seus amigos, e con­fundiu os seus inimigos. As suas censuras a todo o sistema do papismo foram fortes e incontestáveis.
Lutero terminou o seu discurso com palavras enérgicas de aviso ao imperador Carlos, e pediu-lhe a proteção que a malícia dos seus inimigos tornava necessária. Sendo insta­do para que desse uma resposta mais explícita à pergunta do chanceler, respondeu prontamente: "Visto que vossa majestade e vós poderosos senhores me exigem uma res­posta clara, simples e precisa, dar-vo-la-ei, e essa resposta é a seguinte - não posso submeter a minha fé nem ao papa nem aos concílios, porque é claro como o dia que eles mui­tas vezes têm caído em erro, até nas mais palpáveis contra­dições, com eles próprios. Se, portanto, não me convencerdes pelo testemunho das Escrituras, se não me persuadirdes pelos próprios textos que tenho citado, libertando as­sim a minha consciência por meio da Palavra de Deus, eu não posso nem quero retratar-me, porque não é seguro para um cristão falar contra a sua consciência". Em segui­da, olhando em volta daquela assembléia, no meio da qual se conservava de pé, e que tinha bastante poder para o condenar, disse - "Tendo dito... aqui estou. Não posso pro­ceder de outro modo... Deus me ajude! Amém".
Estavam agora justificados os receios dos amigos de Lutero, de que Roma havia de proceder traiçoeiramente na questão do seu salvo-conduto; e se o imperador tivesse sido como Sigismundo tudo naquele dia teria acabado para o reformador.
Mas os esforços traiçoeiros dos papistas em promover a violação do seu salvo-conduto não acharam apoio em Car­los, e a cada nova instância dos traidores ele respondeu re­solutamente: "Ainda que a boa fé tivesse desaparecido da superfície da terra devia sempre encontrar um refúgio na corte dos reis". Contudo o imperador consentiu em que se publicasse um edito de desterro; mas isso satisfez tão pou­co às exigências de Roma que eles voltaram ao seu extremo e desesperado recurso - o assassinato. Fizeram-se combi­nações para assassinar o reformador quando ele voltasse para a Saxônia, mas o seu bom amigo, o príncipe, foi avi­sado da conspiração a tempo, e pôde frustrá-la. Quando Lutero voltava para casa, foi repentinamente rodeado num bosque por um bando de cavaleiros mascarados que, de­pois de mandarem embora as pessoas que o acompanha­vam, conduziram-no alta noite ao antigo castelo de Wartburgo, perto de Eisenach, e ali o deixaram.
Isto foi um estratagema do príncipe para pôr Lutero num lugar de segurança, e durante este tempo de descanso que lhe proporcionava a sua reclusão de Wartburgo, e com­pletamente tranqüilo a respeito de decretos imperiais e bu­las papais, o reformador escreveu algumas das suas mais soberbas obras de controvérsia, e começou a sua obra fa­vorita, e talvez a maior de todas - a tradução da Bíblia para a língua alemã.

FONTE: História do cristianismo / A. E. Knight [e] W. Anglin. – 2ª ed. - Rio de Janeiro : Casa Publicadora das As­sembléias de Deus, 1983.

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