quinta-feira, 30 de junho de 2011

História do Apóstolo Simão Pedro (doze Homens e uma missão)

Imagem cedida por:  http://santuarioeucaristico.blogspot.com/2010_06_27_archive.html


Simão Pedro

"Vendo isto, Simão Pedro pros-trou-se aos pés de Jesus, di­zendo: Senhor, retira-te de mim; porque sou pecador"
Lucas 5.8

Nenhum outro personagem neotestamentário causa tão profun­da impressão no coração do leitor bíblico quanto esse impulsi­vo pescador galileu, cuja fervorosa devoção em servir seu Mes­tre o fez tornar-se um dos mais destacados e celebrados obreiros do Evange­lho em todos os tempos.
A relevância de Pedro para a história da Igreja se faz sentir na própria ordem da lista dos apóstolos. Embora a seqüência desses nomes varie conforme as citações dos evangelistas, dois dos discípulos são sempre apresentados na mes­ma ordem: o primeiro e o último. Se, para os autores sinópticos, o lugar de ignomínia e vergonha pertence ao abjeto Judas Iscariotes, por outro lado, a proeminência dentre os doze cabe a Simão, chamado Pedro (Mt 10.2, Mc 3.16, Lc 6.14).
O impacto causado pela figura de Pedro ao leitor do Novo Testamento obedece à razão direta de sua semelhança com cada um de nós, na complexi­dade de nossas contradições e ambigüidades. A natureza de Pedro assemelha-se a um turbulento redemoinho onde pululam as mais louváveis virtudes e as mais repreensíveis fraquezas. Desse vigoroso pescador podia-se esperar qual­quer coisa, exceto um comportamento previsível diante dos desafios do co­tidiano. Por isso, suas reações a eles variavam desde a mais expressiva coragem, como no andar sobre as águas tempestuosas do Mar da Galiléia (Mt 14.28-31), até posições pusilânimes como a da noite em que, aos impropérios, negou seu Mestre (Mt 26.69-75). McBirnie vê assim as características gerais do líder dos discípulos (op. cit., p. 50-51).

"Muito se tem dito sobre o temperamento de Pedro. Ele não era particu­larmente modesto, mas era freqüentemente impositivo. Por vezes, du­rante os primeiros dias da Igreja, Pedro pôs-se na vanguarda dos apóstolos, falando como seu porta-voz. Embora mais tarde eclipsado em notorieda­de por Paulo, Pedro permaneceu firme na afeição da Igreja primitiva como o primeiro dentre os mais notáveis cristãos.(...)
Com uma rara combinação de coragem e covardia, Pedro alternava mo­mentos de grande força e lamentável instabilidade. Jesus dirigiu-se mais a ele do que a qualquer outro de seus seguidores, tanto em louvor como em repreensão. Nenhum outro discípulo foi tão diretamente admoestado por nosso Senhor e nenhum deles jamais ousou advertir seu próprio Mestre como Pedro! Mas, sob os ensinos, os exemplos e o treinamento de Cristo, o caráter impulsivo desse galileu foi sendo gradativamente subjugado até, finalmente, após o Pentecostes, tornar-se a pró­pria personificação da fidelidade a Cristo.
Havia, entretanto, um fator remidor no caráter de Pedro: sua aguda sensibilidade ao pecado. Em seu espírito, ele se mostrou extremamente sensível e melindroso nesse particular. Foi ele quem disse: 'Senhor, retira-te de mim; porque sou pecador' (Lc 5.8). Pedro pecou tão grave­mente quanto Judas. Se este vendeu Jesus, aquele imprecou contra seu Senhor. Não há, pois, diferença essencial nisso, exceto pelo fato de que Pedro se arrependeu e Judas não."

De fato, os elementos conflitantes que com­punham o caráter do apóstolo foram sendo, pau­latinamente, adestrados e moldados por seu Rabi que, qual domador que habilmente submete o cavalo selvagem, transformou aquela personali­dade paradoxal num líder que, séculos mais tar­de, ainda é honrosamente lembrado como um dos grandes campeões da cristandade.
Dentre todos os apóstolos apresentados no Novo Testamento, Pedro é - ao lado de Paulo - aquele sobre quem mais relatos dispomos. Embora parte dessas informações seja também procedente da his­tória pós-bíblica, é nas páginas dos Evangelhos que obtemos os elementos fundamentais para o traça­do de uma silhueta aproximada de sua personali­dade como discípulo de Jesus Cristo.

O chamado de Pedro
Pedro, em toda a sua vitalidade e demasiada franqueza, espelhava bem o típico temperamento do homem da Galiléia, região onde nascera e prospe­rara como pescador, nas imediações de Betsaida, às margens do Lago de Genesaré (Jo 1.44). O futuro apóstolo, assim como tantos outros judeus contemporâneos seus, aguardava ansiosamente a manifestação redentora do Messias. Essa é, pelo menos, a impressão que se tem a partir de alguns deta­lhes que cercam sua conversão, como veremos a seguir.
Nada se sabe sobre seu pai, João, mencionado apenas pelo nome nas Es­crituras (Mt 16.17; Jo 1.42), embora alguns eruditos sugiram que este, à semelhança de Zebedeu também exercia o ofício de pescador, influencian­do a profissão de seus filhos Pedro e André.
É necessário identificarmos dois momentos distintos no chamado de Simão Pedro ao discipulado cristão. Primeiramente, temos o impacto causado pela ação de André, seu irmão, então discípulo de João Batista. André, que mais adiante também se tornaria um dos doze, não apenas ouvira o testemu­nho do profeta acerca de Jesus na margem oriental do Jordão (Jo 1.29-37), como também conhecera pessoalmente seu futuro mestre (Jo 1.35-42). Tão convincente fora aquele primeiro encontro que André viu-se na impreterível tarefa de retornar à Galiléia e reportar o ocorrido a seu irmão, no afã de persuadi-lo a encontrar-se com Aquele que seria o Prometido de Israel, con­forme Jo 1.41-42:

"Ele achou primeiro ao seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo), e o levou a Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: 'Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro)'."

Pelo que se deduz do cruzamento das narrativas bíblicas, Pedro e André, após esse primeiro contato com Jesus, retornaram às suas atividades cotidianas nas cercanias do Mar da Galiléia. Ali, algum tempo depois, tornariam a encon­trar seu futuro Mestre; desta vez, em caráter definitivo (Mc 1.16-18).

"Caminhando junto ao Mar da Galiléia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. Então eles deixaram imediatamente as redes, e o seguiram."

Complementando a descrição de Mateus e Marcos, o evangelista Lucas apresenta os detalhes que envolveram a célebre vocação de Pedro e seus cole­gas de ofício (Lc 5.1-11).

"Aconteceu que, ao apertá-lo a multidão para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré; e viu dois barcos junto à praia do lago; mas os pescadores, havendo de­sembarcado, lavavam as redes.
Entrando em um dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastas­se um pouco da praia; e, assentando-se, ensinava do barco as multidões.
Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar.
Respondeu-lhe Simão: Mestre, havendo trabalhado toda noite, nada apa­nhamos, mas sobre a tua palavra lançarei as redes.
Isto fazendo, apanharam grande quantidade de peixes; e rompiam-se-Ihes as redes.
Então fizeram sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los. E foram e encheram ambos os barcos ao ponto de quase irem a pique.
Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim; porque sou pecador.
Pois, à vista da pesca que fizeram, a admiração se apoderou dele e de todos os seus companheiros, bem como de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram seus sócios. Disse Jesus a Simão: Não temas: doravante serás pescador de homens. E, arrastando eles os barcos sobre a praia, deixando tudo, o seguiram."

Se, no primeiro contato com Jesus, às margens do rio Jordão, a mensa­gem daquele jovem ainda desconhecido sensibilizou Pedro, seu súbito reen­contro com Ele ao fim de um dia de trabalho exaustivamente improdutivo, o fez reconhecer que ali havia algo mais sublime que um mero discurso espi­ritual.
Nem o próprio Simão, pescador experimentado e conhecedor como pou­cos do Lago de Genesaré, podia explicar a facilidade com que fora convencido a aventurar-se novamente numa empreitada que se demonstrara absolutamen­te infrutífera naquele dia. A autoridade dAquele que disse: faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar, tornara-se de tal sorte imperativa que ao atôni­to pescador só restava reconhecer: sobre a tua palavra lançarei as redes.
Pedro e seus amigos presenciaram, pois, algo até então nunca visto. Era como se aquele jovem varão, de aspecto sereno e de olhar contemplativo, tives­se, de alguma maneira, submetido as próprias forças da natureza, ordenando aos cardumes que se precipitassem sobejamente em suas redes. A contempla­ção daquele sinal, longe de fazê-los regozijar pelos dividendos que poderia tra-zer-lhes, encheu-os antes de um assombro jamais experimentado.
Se, para Pedro, as palavras que ouvira de Jesus às margens do Jordão — ou mesmo minutos antes em seu barco — não o demoveram de seu ceticismo quanto às pretensões dAquele pregador, o milagre da pesca imprimira imedi­atamente sobre ele a convicção de que estava diante de alguém cuja autorida­de demandava toda reverência. Como primeiro indício bíblico de seu temperamento impulsivo, o vemos — numa atitude atípica para um judeu — atirar-se incontinenti aos pés de Jesus, confessando-se indigno de aproximar-se de alguém agraciado por tão bendita santidade e sabedoria.
Ao retornar à praia, Pedro, ainda tomado de grande perplexidade pelo ocorrido, é surpreendido por um convite que doravante mudaria radical­mente sua vida.

Disse Jesus a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. E, arrastando eles os barcos sobre a praia, deixaram tudo, e o seguiram."

A farta pescaria que precedeu sua vocação discipular na Galiléia tornou-se como que uma profecia do futuro ministério desse que seria um dos mais célebres pescadores de almas de todos os tempos!
Poucos anos depois, no Pentecostes, ante um público cosmopolita que se apertava pelas ruas de Jerusalém, Pedro pode experimentar de maneira gloriosa o cumprimento dessa profecia. Nessa pesca excepcional, cerca de três mil almas compungidas renderam-se à mensagem da Cruz (At 2.14-41).
Foi a partir do ocorrido naquela manhã de pescaria no Mar da Galiléia que Pedro tornou-se definitivamente um discípulo de Cristo. Começava ali uma jornada repleta de situações através das quais o futuro apóstolo conheceria de maneira íntima as maravilhas do poder de Deus, manifesto em Jesus Cristo, tornando-se um de seus mais chegados discípulos e, poste­riormente, uma das colunas da Igreja por Ele estabelecida.

As peripécias de um discípulo tempestuoso
A despeito de todo seu vigor físico é provável que Pedro estivesse no apogeu da meia idade - algo entre trinta e quarenta anos - quando de sua vocação discipular. Por inferência bíblica, sabemos que já se encontrava casado ao iniciar sua carreira cristã. Sua casa em Cafarnaum, na Galiléia, foi palco de um dos primeiros milagres por ele presenciado como discípulo: a cura de sua sogra (Mt 8.14-15).

"Tendo Jesus chegado à casa de Pedro, viu a sogra deste acamada e ardendo em febre. Mas Jesus tomou-a pela mão, e a febre a deixou. Ela se levantou e passou a servi-lo..."

Durante o extenso ministério de Jesus no norte da Galiléia, Pedro foi privilegiado com a oportunidade de presenciar muitos sinais realizados pelo Mestre naquela região. Ao lado dos irmãos Tiago e João, Pedro testemu­nhou a ressurreição da filha do líder da sinagoga Jairo (Mc 5.35-43) e o fenômeno da Transfiguração (Mt 17.1-5), cuja magnificência tão profunda impressão lhe causara que, muitos anos depois, a ele se refere em sua Segunda Epístola como chancela de sua autoridade ministerial (2 Pe 1.16-18):

"Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade.
Pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quan­do estávamos com ele no monte santo."

Esses prodígios, que enchiam os olhos do apóstolo, não eram sublimes apenas quando desafiavam as leis da natureza ou os grandes dramas da exis­tência humana, mas também quando se circunscreviam às pequenas ques­tões do cotidiano. Um deles sucedeu-se quando Pedro e seu Mestre foram abordados em Cafarnaum acerca do pagamento do tributo eclesiástico, ge­ralmente realizado na primavera e que visava o sustento do templo (Mt 17.24-27). O milagre então presenciado por Pedro — a predição sobre o estáter a ser achado na boca do peixe e que cobriria o imposto por ambos — talvez tenha sido de todos o mais curioso. Não obstante, foi através da singularidade de sinais como esse que o apóstolo convenceu-se dos atribu­tos divinos de Cristo. Pois, quem mais poderia antever, meio às miríades de peixes, precisamente aquele entalado com a moeda? Ou ainda, quem teria o formidável poder de atraí-lo ao anzol do discípulo?
Com efeito, Pedro, em sua característica impulsividade, não permane­cia passivo diante dos milagres de Jesus. Certa madrugada, açoitados por violentas ondas no coração do Mar da Galiléia, Pedro e seus condiscípulos cuidaram estar diante daquilo que, segundo a superstição local, significava o mais temido dos presságios para os pescadores: um fantasma vindo-lhes ao encontro em meio a uma borrasca (Mt 14.25-26).

"Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando por sobre o mar. E os discípulos, ao verem-no andar sobre as águas, ficaram aterra­dos e exclamaram: É um fantasma! E, tomados de medo, gritaram."

Diante da aterradora crendice, o pânico se assenhorou daqueles galileus. Contudo, Pedro, que já presenciara a ação determinante de Jesus sobre as forças da natureza (Mt 8.23-28), resolve num rompante de coragem, ates­tar a procedência dAquele que, andando sobre as águas, lhes dizia: "sou eu, não temais". Numa inimaginável prova de fé, o pescador desafiou:

"Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo por sobre as águas."

Que discípulo, senão Pedro, ousaria semelhante atitude nesse cenário desesperador? Talvez nenhum outro momento do Evangelho resuma tão perfeitamente a inconstância de Pedro quanto esse incidente no Mar da Galiléia. A mesma impulsividade, que valentemente o impeliu a desafiar a gravidade — calcando as agitadas águas como se fossem solo firme — tornou-se num pavor insustentável, ante o qual o apóstolo, naufragando, fatal­mente sucumbiria não fosse o auxílio de seu Senhor (Mt 14.30-31)!
Embora contraditório em várias ocasiões, Pedro era sobretudo um entu­siasta de sua vocação cristã. Após um duro discurso de Jesus (narrado em Jo 6), grande parte de seus setenta discípulos, escandalizados com o con­teúdo teológico de Suas palavras, O abandonaram. Quando os doze restan­tes foram indagados se seguiriam os demais em sua dissuasao, Pedro, consciente da autoridade dAquele que o vocacionou, assim como da subli-midade de seu discipulado, adiantou-se aos demais e respondeu (Jo 6.68):

"Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna."

Da mesma sorte que a maioria de seus conterrâneos, Pedro ansiava por um Messias vitorioso sobre os inimigos políticos de Israel. Essa concepção messiânica era de alguém cujo poder resgataria a Israel os gloriosos tempos do passado. Em função dessa expectativa, Pedro não pode conter-se ao ou­vir de seu Mestre acerca dos dias difíceis que o porvir Lhe reservava (Mt 16.21-22).
"Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciões, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscita­do no terceiro dia.
E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem com­paixão de ti, Senhor; Isso de modo algum te acontecerá."
O apóstolo, que, pouco antes, falara pelo Espírito declarando ser Jesus o Cristo, o Filho do Deus Vivo (Mt 16.16; Mc 8.29; Lc 9.20), servia agora -em seu zelo humano — de instrumento satânico, ao proferir palavras que furtivamente se opunham aos planos de Deus para Seu Unigênito. O protesto de Pedro era, na verdade, apenas a fachada da sutil reinvestida do Inimigo contra Jesus, prometida ao fim da tentação no deserto, para um futuro mo­mento oportuno (Lc4.13). Assim, Pedro foi trazido diante de todos seus condiscípulos para receber de seu Mestre, talvez, a mais dura repreensão de sua carreira discipular (Mc 8.33).

"Arreda! Satanás, porque não cogitas das cousas de Deus, e, sim, das dos homens."

O verbo aqui traduzido por cogitar pode também significar no contexto, segundo Cranfield, tomar o partido de alguém. Destarte, Jesus poderia estar repreendendo seu precipitado discípulo por opor-se aos planos de Deus, devi­do a sua concepção nacionalista de messianismo, segundo a qual apenas a mais gloriosa e triunfante das jornadas se prestaria ao Cristo de Deus.
E provável que a estrutura emocionalmente instável de Pedro tenha se trans­formado num campo apropriado para algumas investidas do Tentador. Na noite em que foi traído, por exemplo, Jesus advertiu-o acerca da estratégia que as potestades espirituais intentavam contra ele (Lc 22.31-32a).

"Simão, Simão, Satanás vos pediu para vos peneirar como trigo. Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça."

Naquele momento, todos os discípulos estavam prestes a ser grandemente provados. Porém Pedro, em particular, demandava cuidados especiais da parte do Mestre. De fato, Jesus podia vê-lo interiormente, para além da­quele "invólucro" rústico que o apresentava como um homem valente, de­cidido e sempre adiantado a seus condiscípulos nas decisões mais importantes. Sobre esse momento na vida do apóstolo, Everett Harrison registra (Comen­tário Bíblico Moody, Vol.4, p. 168).

"O pronome singular indica que O Senhor se preocupava de maneira especial com Pedro. Ele sabia do fracasso iminente por causa do excesso de confiança em Pedro; mas Ele não o destituiria nem o privaria de sua posição de liderança."

A fé operosa de Pedro, que a todos impressionara em diversas ocasiões, era a mesma que agora necessitava uma intercessão particular para não es­morecer! Como observa Arndt, o verbo grego traduzido por rogarem Lc 22.32 significa literalmente a expressão de uma petição baseada numa necessidade real (Chave Lingüística do Novo Testamento, p. 153). Com efeito, as horas que se seguiram àquele discurso, provaram o quanto Pedro verdadeiramente careceu de tal intercessão.
Contudo, as experiências de Pedro com as astutas artimanhas do Malig­no, ao longo de seu ministério apostólico, acabaram contribuindo de modo positivo para inspirá-lo em uma de suas admoestaçÕes pastorais encontra­das em sua primeira epístola (1 Pe 5-8):

"Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como ieão que ruge procurando alguém para devorar."

Sobriedade e vigilância, virtudes que o experiente Pedro exalta em sua carta, eram exatamente aquelas que lhe faltaram na noite do aprisionamen-to de seu Mestre. Mesmo advertido por Jesus acerca da iminente investida do Diabo, Pedro, estribando-se em suas próprias forças, declara de maneira precipitada (Lc 22.33):

"Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão, como para a morte."

Na noite da traição, estando todos reunidos à volta do Mestre, este começa a falar-lhes repetidamente acerca de coisas estranhas, sobre as quais poucos deles ousavam questioná-Lo. Era como se algo inesperado estivesse prestes a se suceder.
Após a ceia, Pedro assiste inconformado Aquele diante de quem outrora se prostrara, cingir-Se duma toalha e, aos pés dos discípulos, iniciar uma cerimônia cuja finalidade não podia compreender (Jo 13.4-15). Como o Mestre ousava, numa atitude típica de escravo, sentar-se diante de seus aprendizes e humildemente lavar-lhes os pés? Qualquer que fosse a razão, Pedro, ao contrário de seus amigos, não estava disposto a consentir com tal disparate (Jo 13.8).

"Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés."

Antes que pudesse apresentar suas razões, o rústico galileu é interrompi­do pela réplica do Senhor, na qual se torna evidente que aquele ato servil escondia, na verdade, um significado sumamente espiritual e, portanto, relevante para todos os presentes. Para Pedro, a vergonha de ser servido daquela maneira por seu Senhor não era pior do que estar privado da co­munhão com Ele! Daí sua imediata retratação (Jo 13.9):

"Senhor, não apenas os pés, mas também as mãos e a cabeça."

Mais adiante, naquela mesma noite, Pedro, em sua perspicácia, pode captar a estranha atmosfera que impregnara o cenáculo onde ele e seus amigos se reuniam. Sua suspeita confirmou-se diante da inimaginável de­claração de um Jesus turbado em Seu íntimo (Mc 14.18).

"Em verdade vos digo que um dentre vós, o que come comigo, me trairá."

Enquanto os atônitos discípulos se entreolhavam confusos com tão terrí­vel vaticínio, Pedro, em sua agitação peculiar, mais uma vez adiantou-se aos demais, agora na tentativa de esclarecer aquilo que a todos deixara em suspenso (Jo 13.23-24).

"Um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado próximo a Jesus. Simão Pedro fez sinal a este, dizendo: Pergunta de quem o mestre está falando."

Como nenhum dos presentes - incluindo Pedro - pode perceber que a resposta para a indagação estava no bocado de pão entregue ajudas Iscariotes (Jo 13.26-29), a expectação deflagrada por aquela notícia permanecia ater­radora entre os discípulos.
Talvez, naquele instante, o precipitado galileu, numa rápida auto-avaliação, tenha se conscientizado — para seu próprio desespero — que seu comportamen­to como discípulo foi por vezes inconstante e paradoxal. Seria esse o indício de um traidor? Que outro discípulo havia oscilado tantas vezes entre os limites extremos da coragem e da covardia, da fé e da incredulidade?
Qual deles, senão Pedro, fora repreendido outrora como instrumento satânico, na tentativa de dissuadir o Mestre de Seus propósitos vicários? Quem além desse aprendiz careceu de especial atenção de Cristo, em Sua intercessão a respeito do eminente ataque do Inimigo? Não teria ele o perfil do, até então, misterioso traidor?
Inseguro e agitado em seu interior, Pedro abruptamente interrompe seu Mestre, numa busca frenética por respostas para aquilo que parecia ser o raiar de um pesadelo (Jo 13.36a-37a).

"Senhor, para onde vais?(...) Por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a própria vida.(...) Ainda que todos se escandalizem, eu jamais!

Conquanto sincero em suas palavras, Pedro sente seu peito palpitar ace­leradamente quando, atônito, ouve de Jesus a profecia sobre algo que nunca pensara se suceder em sua carreira discipular (Mc 14.30).

"Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes."

Não é difícil imaginar o que se passou no coração de Pedro após essa revelação. Embora tentasse desesperadamente provar a si mesmo e aos de­mais uma ousada fidelidade, insistindo com maior veemência que nem a morte o separaria do Mestre (Mc 14.31), Pedro estava, na verdade, abalado por grande insegurança. Ciente de que fora, ao longo daqueles três anos, o protagonista de tantas atitudes impensadas, Pedro debatia-se em seu íntimo com a pavorosa possibilidade de tornar-se aquele por quem a medonha pro­fecia se cumpriria. Afinal, alguém capaz de uma tríplice negação de seu Se­nhor, não estaria igualmente apto para traí-lo?
Seguindo o Mestre, Pedro e seus amigos, silenciados por uma atroz ex­pectativa, deixaram o cenáculo e, atravessando o Vale do Cedrom, chegaram ao Monte das Oliveiras, onde costumeiramente se reuniam. Nem mesmo a serenidade daquele jardim, cenário de tantos ensinamentos preciosos aos pés de Jesus, foi suficiente para relaxar a tensão que se apoderara daqueles cora­ções. Para os discípulos e, particularmente para Pedro, aquela se transforma­ria na mais longa e aflitiva das noites.

Pedro nega a Jesus
Estressados pela tensão que marcara aquelas últimas horas, Pedro e os filhos de Zebedeu, mesmo a pedido de um Jesus profundamente entristeci­do, não conseguem atender a necessidade de vigiar e desfalecem diante do cansaço que deles se apoderara (Mt 26.36-46). Ao encontrar arrebatados pelo sono aqueles que necessitavam manter empunhadas suas armas espiri­tuais, Jesus exorta particularmente a Pedro, numa baldada tentativa de prepará-lo para os graves acontecimentos que se seguiriam.

"E, voltando para os discípulos, achou-os dormindo, e disse a Pedro: En­tão, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação."

Ainda entorpecido pelo sono que submetera sua continência, Pedro e seus companheiros são subitamente despertados pelo Mestre, com palavras que traziam à realidade a profecia de que tanto temiam.

"Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima."

Com os olhos ainda pesados e sem entender exatamente o que se passava, Pedro vê se aproximar uma turba liderada pelo, até ali, insuspeito Judas Iscariotes. O carinhoso beijo do traidor em seu Mestre contrastava com a truculência dos guardas que o acompanhavam e que procuravam por Jesus. A suspeita imediatamente surgida no coração de Pedro se confirma com a palavra de Jesus a judas (Lc 22.48).

"Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?"

Ao se dar conta das circunstâncias, o rude pescador, em novo repente de coragem, despreza o conselho de Jesus - que já havia rejeitado uma ação defen­siva sugerida pelos discípulos - lança mão duma espada e golpeia um dos servos que rendiam a Jesus. Everett Harrisson comenta (Comentário Bíblico Moody p.67) um detalhe interessante acerca dessa intervenção do apóstolo.

"A atitude impetuosa de Pedro, ainda que bem-intencionada, compro­metia seriamente a posição de nosso Senhor, e tornou necessário uma cura milagrosa para desfazer os desastrosos efeitos que provocaria no tribunal (conf. Jo18.36). E tão completo foi o milagre que o caso da mu­tilação nunca foi levantado pelos acusadores de Cristo."

Maniatado, Jesus é brutalmente arrastado pela multidão em direção à cidade. Diante da possibilidade de serem igualmente capturados, todos os discípulos o abandonaram. Pedro e João, ao contrário dos demais, afastaram-se dali apenas o suficiente para se­guirem seu Mestre sem se­rem percebidos pelos que o rendiam. Ao percorrerem ofegantemente as ruas de Je­rusalém seguindo a turba à distância, ambos discípulos percebem que seu destino inicial era a casa do sumo-sacerdote. A ligação de João com essa família (Jo 18.15) possibilitou-o a introduzir Pedro no pátio da casa, de onde os dois discípulos po­deriam acompanhar o que se sucederia ao Mestre.
No afã de aompanhar os desdobramentos da prisão de Jesus, Pedro não contava, en­tretanto, que sua figura como discípulo já se tornara familiar para muitos mora­dores de Jerusalém. Seu comportamento impetuoso - como o manifestado momentos antes no Getsêmani - o destacava dos demais seguidores de Cristo. E curioso notar, por exemplo, que nenhum dos circunstantes na casa do sumo sacerdote reconheceu a João como um dos doze, embora o discípulo tivesse com aquela família certa proximidade. Simão Pedro, ao contrário, fora imedi­atamente identificado pela criada ao adentrar o pátio (Jo 18.16b-17).
"O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, falou com a encarregada da porta e levou a Pedro para dentro. Então a criada, encarre­gada da porta, perguntou a Pedro: Não és tu também um dos discípulos deste homem? Não sou, respondeu ele."

Apreensivo e já sentindo o frio das noites de primavera, Pedro dispôs-se junto a um fogueira acesa no pátio da casa do magistrado, onde alguns servos do sumo sacerdote e guardas do templo também se aqueciam. Enquanto ouvia ao fundo as palavras imprecatórias que os escribas e príncipes dos sacer­dotes dirigiam a seu Mestre, o amedrontado discípulo é surpreendido por outra serviçal que o reconhece. Na tentativa de desmascará-lo, esta proclama diante dos presentes sua suspeita (Mt 26.70-72).

"(...) Este também estava com Jesus, o nazareno."

A segunda identificação de Pedro como cúmplice de Jesus, de fato, cau­sa alguma dúvida ao leitor dos Evangelhos. Enquanto Mateus cita o ocorri­do como efetuado por uma outra criada (Mt 27.71), Marcos diz que a ação deu-se por parte da mesma criada que o reconhecera a princípio (Mc 14.69). O evangelista Lucas, por sua vez, escreve que o discípulo fora reconhecido por um outro homem dentre os que ali se aquentavam (Lc 22.58). O evangelista João acrescenta a isso o fato de ser o tal delator um dos servos do magistrado (Jo 18.26). A aparente contradição dessas narrativas pode ser explicada pelo fato de que a presença do discípulo naquele lugar suscitou tal desconfiança que não um, mas diversos circunstantes, num breve lapso de tempo, o reconheceram como alguém ligado a Cristo. Coube, assim, aos evangelistas que pormenorizaram o acontecimento, enfatizar esse ou aquele dentre os vários que o identificaram.
Lucas comenta que passada uma hora da segunda identificação, Pedro é novamente associado a Jesus, devido a seu sotaque galileu (Lc 22.59).

"(...) Também este verdadeiramente estava com ele, porque também é galileu."

E provável que nesse intervalo de tempo, afoito, o apóstolo tenha começa­do a fazer perguntas no intuito de saber o que poderia sobrevir a Jesus, diante do ocorrido. Ao expor-se dessa maneira, Pedro acabou evidenciando o acento gutural inconfundível dos galileus, tornando-se novamente alvo de suspeita.
Como agravante, o galileu é reconhecido por um dos servos do sumo sacerdote que estivera presente no Getsêmani e que o vira ferir a espada seu parente de nome Malco (Jo 18.26). O discípulo, prestes a ser reconhecido em definitivo como um dos coadjuvantes dAquele que Se declarava Messi­as, corria o risco de ser detido e imediatamente entregue aos principais dos sacerdotes. Em Mateus e Marcos encontramos registrado o expediente de que Pedro se valeu para safar-se dessa iminente possibilidade (Mc 14.71).

"Ele começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais."

A presença do verbo grego anatematizo sugere que Pedro colocou-se sob juramento diante dos presentes, rogando sobre si maldição caso não esti­vesse dizendo a verdade!
O cantar do galo, que rasgou o silêncio da alta madrugada trouxe ao apóstolo a esmagadora consciência de que a profecia acerca de sua infideli-dade se cumprira naquele momento. Lucas acrescenta um detalhe impor­tante no relato dessa triste experiência de Pedro (Lc 22.61):

"Então, voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lem­brou da palavra do Senhor, como lhe disseraí...). Então Pedro, saindo dali, chorou amargamente."

Absolutamente arrasado pelo peso de seu pecado, Pedro não suportou fitar prolongadamente Aquele por quem havia jurado, naquela noite, per-severar até morte. Uma profunda angústia apoderou-se do discípulo e, a fim de não externar suas emoções diante dos presentes o discípulo retira-se prontamente dali. Em algum lugar ermo, sozinho e tentando compreender as contradições que cercavam sua personalidade, o apóstolo derrama-se em lágrimas cujo amargor traduzia a expressão perfeita de sua alma.
Pedro, que durante seu discipulado questionara o Mestre sobre os limi­tes da misericórdia (Mt 18.21-22), estava tão consumido pelo fantasma de sua transgressão que nem mesmo a memória do perdão que alcança setenta vezes sete pode confortá-lo na ocasião. Afinal, haveria clemência para essa ignóbil atitude? Que grande diferença separaria a traição cabal empreendi­da por Judas e os juramentos mentirosos e imprecatórios que o pescador acabara de proferir ante tantas testemunhas?
Pedro havia novamente naufragado nas ondas impetuosas que contra ele se levantaram. Agora, tanto quanto naquela madrugada de tormenta no Mar da Galiléia, somente as mãos do Mestre poderiam trazê-lo à tona e salvá-lo da destruição iminente.

A ressurreição de Cristo: um recomeço para Pedro
Não sabemos onde Pedro esteve durante as horas de opróbrio que marca­ram o julgamento e a crucificação de Cristo. A passagem de Lc 23.27 nos diz que grande multidão seguia a Jesus em direção ao Monte Calvário. Pedro, pois, como os demais discípulos que haviam se dispersado desde aquela ma­drugada, poderia estar entre os milhares que se comprimiam para testemu­nhar o fim dAquele que muitos criam ser o Ungido de Deus.
Mesmo que a forte emoção não o tenha permitido assistir ao desenrolar da execução, é certo que Pedro não se distanciou de Jerusalém naquele dia, pois as Escrituras o apresentam refugiando-se junto aos seus condiscípulos, numa dada casa nos limites da cidade.
Não se sabe como Pedro e os demais, uma vez dispersos, conseguiram novamente se reunir naquele refúgio. A casa, que então lhes servia de abri­go contra uma possível investida dos judeus (Jo 20.19), era provavelmente um local onde Jesus costumava reunir seus seguidores, quando em Jerusa­lém. Se João, como próspero pescador e conhecido da família do sumo sacerdote dispusesse - como sugerem alguns - de uma residência em Jeru­salém, talvez essa fosse a casa em questão.
Naquela noite, ao contrário do que lhe era peculiar, Pedro assentou-se junto a seus companheiros, tristemente calado e absorto em seu drama pessoal. Havia nele um amargo sentimento que superava a angústia vivida pelos demais: a dor de ter, não somente perdido, mas repetidamente negado seu Mestre diante de tantas testemunhas.
Ao amanhecer, as piedosas mulheres que há pouco haviam testemunha­ram a ressurreição, invadiram pasmadas o refúgio dos discípulos na inten­ção de trazer-lhes as boas novas. Notoriamente assombradas, as devotas atropelavam as narrativas umas das outras ao tentar ordenar a história da qual se diziam testemunhas. O evangelista Marcos registra um pequeno — porém importante — detalhe na recomendação do anjo àquelas fiéis diante do túmulo vazio (Mc 16.7):

"Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia. Lá o vereis, como ele vos disse."

Alvo particular daquelas insistentes mulheres, Pedro, embora a princípio tenha feito coro com os demais que, céticos, as receberam como delirantes
(Lc 24.11), não resiste à curiosidade e, em companhia de João, decide inves­tigar a razão de tamanha euforia.
Se o sepulcro vazio não incutiu em Pedro a imediata certeza de que o Mes­tre havia ressurgido, fê-lo sentir que aqueles estranhos acontecimentos deman­davam explicações convincentes. Como e com que objetivo alguém ousaria submeter a competente guarda pretoriana e, após mover a pedra que lacrava a tumba, seqüestrar um cadáver? Estariam os príncipes dos sacerdotes e escribas envolvidos nessa suposta fraude? Até que ponto esse fato ainda inexplicável poderia colocá-los, como discípulos, numa situação ainda mais perigosa?
O cair da tarde daquele domingo trouxe para os apóstolos uma ansieda­de, que crescia à medida que o tempo passava. Pedro, que visitara o sepul­cro pessoalmente naquela manhã, não conseguia propor aos seus companheiros uma explicação que satisfizesse todas as perguntas inerentes àquele mistério. Porém, enquanto os discípulos — longe que estavam dum consenso — tenta­vam debalde equacionar o assunto, eis que são surpreendidos pela visão esplendorosa do Mestre ressurreto. Nem mesmo a conhecida saudação paz seja convosco, com que foram abordados, garantiu-lhes que não estavam sen­do vítimas de alguma alucinação (Lc 24.36-40).
Ao tocarem avidamente o Mestre, Pedro e seus amigos foram invadidos por um júbilo que encontrou seu clímax momentos depois, quando Jesus lhes interpretou as Escrituras, abrindo-lhes o entendimento acerca da ne­cessidade daqueles sofrimentos pelos quais passara (Lc 24.44-49). Impressão tal causou aquela palavra no coração de Pedro que, anos mais tarde, em sua primeira epístola, o ex-pescador enfatizou, logo de início, o conteúdo profé­tico do sofrimento vicário de seu Mestre, sobre o qual fora esclarecido na­quele domingo (1 Pe 1.10-11):

"Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando aten­tamente qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que o seguiriam."

Após as aparições de Jesus aos discípulos em Jerusalém, Pedro e alguns de seus amigos dirigiram-se à Galiléia, onde ansiavam revê-lo, conforme lhes fora prometido. No entanto, aquelas primeiras teofanias, embora tenham respondido às questões ligadas ao sofrimento, morte e ressurreição do Mes­tre, fazendo raiar novamente a esperança nos discípulos, trouxeram-lhes tam­bém alguma insegurança quanto ao porvir. No caso particular de Pedro, suas perspectivas apostólicas, ainda incertas, se misturavam ao amargo sentimen­to de culpa não resolvido. Afinal, nas duas vezes em que o Cristo ressurreto Se mostrou aos discípulos em Jerusalém, embora a todos tenha censurado pela incredulidade (Mc 16.14), nada disse particularmente a Pedro com res­peito ao seu comportamento na noite da traição. Para o discípulo, a tradução daquele silêncio sobre sua negação ainda não estava muito clara. Haveria perdão para aquele que por três vezes mentiu contra o Filho do Homem? Em caso positivo, qual a certeza que ele dispunha de que voltaria a ser o mesmo destacado líder dos doze discípulos?
Sufocado por esse e outros questionamentos e incomodado por uma expectação cujo peso aumentava dia a dia, Pedro decide retomar suas atividades profissionais no Mar da Galiléia. Sua atitude estimula outros discípulos que também se achavam desorientados quanto ao destino que os aguardava naque­les dias de espera (Jo 21.1-3). A decisão de Pedro juntam-se, Tomé, Natanael (Bartolomeu), Tiago Maior, João e outros dois discípulos.
A primeira noite de retorno ao ofício havia sido frustrante. Fatigados, os pescadores dirigiram-se de volta à praia, onde interromperiam a exaustiva e infrutífera jornada, até que armazenassem forças suficientes para uma nova tentativa. O desânimo de Pedro e seus parceiros foi interrompido por um homem não identificado que da praia sugeria uma solução simples demais para ser producente (Jo 21.6a).

"disse-lhes ele: lançai a rede à direita do barco, e achareis."

Para Pedro, embora estranho, o palpite daquele desconhecido trouxe à me­mória o maravilhoso ocorrido que marcou o início de seu discipulado cristão, ali mesmo nas águas do Mar da Galiléia. Assim, ao puxar as redes da banda da direita, Pedro e os demais são surpreendidos pelo peso de mais de uma centena e meia de polpudos peixes, pelos quais em vão procuraram durante toda a noite (Jo 21.6,11). Aqueles segundos de perplexidade nos quais Pedro imergira foram interrompidos pelo jovem João que, adiantando-se aos demais, atestou jubilosamente: Eo Senhor!'(Jo 21.7). O filho de Zebedeu roubou de Pedro as palavras que já emergiam de seu Coração e que, invariavelmente, eclodiriam nos segundos subseqüentes àquele milagre! Tomado, então, por um entusias­mo irresistível, Pedro veste-se e se lança às águas em direção à praia para encon­trar novamente Aquele a quem amava e de quem tanto necessitava ouvir o perdão que lhe resgatasse a esperança para sua caminhada.
Ainda sem saber ao certo como proceder ou o que dizer naquele instante, Pedro apressa-se em atender a solicitação do Mestre por peixes, voltando prontamente ao barco, já abandonado pelos demais nas areias da praia (Jo 21.9-11). Aquela farta refeição se dava sob um silêncio que debalde tentava represar o gozo daqueles homens em rever o Mestre. Mas, antes que Pedro expressasse a aflição que o perseguia desde a noite da traição, Cristo surpreende-o com três perguntas semelhantes, cujo conteúdo, mais do que conceder o almejado perdão divino, visavam confrontar o discípulo com o tipo de sentimento com que vinha servindo o Mestre (Jo 21.15-17).

"Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta os meus cordeiros.
Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas.
Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as cousas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas."

Para penetrarmos com mais profundidade naquilo que o que o Mestre tentava mostrar a Simão Pedro naquele momento, é necessário atentarmos para os termos presentes no grego bíblico, os quais lançam luz sobre essa importante narrativa de João.
Dois verbos gregos distintos são traduzidos nas Escrituras por amar. agapao e phileo (correspondentes dos respectivos substantivos agapecphilos). O primeiro diz respeito a um sentimento mais profundo e que, por isso, deve ser distinguido do segundo. Agapao manifesta, por exemplo, a inten­sidade do amor de Deus para com seu Filho (Jo 17.26) e para com o ho­mem (Jo 3.16). De modo geral, agapao denota a própria essência da natureza divina, como revelado em 1 Jo 4.8. Embora também traduza - se bem que em raras passagens - o amor do Pai para com Seu Filho (Jo 3.35; 5-20) e para com os homens (Jo 14.21; 16.27) phileo, antes, representa uma forte amizade ou uma carinhosa afeição. Exceto por 1 Co 16.22, phileo nunca e usado nas Escrituras para expressar o sentimento que o homem deve nutrir para com seu Deus. Agapao é a perfeita tradução desse sentimento como vemos em Mt 22.37, Lc 10.27, Rm 8.28, 1 Co 8.3, 1 Pe 1.8 e 1 Jo 4.21.
Posto isto, voltemo-nos à conversa de Pedro com seu Mestre. Ê interes­sante notarmos que Jesus emprega o termo agapao para descrever suas duas primeiras perguntas dirigidas a Pedro. Na terceira, entretanto, o verbo utili­zado é phileo. Pedro responde a todas as três positivamente, porém sempre com o termo phileo\ Assim, é como se Jesus estivesse perguntando, nas duas primeiras vezes: Pedro, tu me amas incondicionalmente? c o discípulo tivesse respondido: Sim, Senhor, tu sabes que eu gosto de ti! A tristeza de Pedro diante da derradeira pergunta de Jesus — feita com o verbo phileo (v. 17) — talvez se explique pelo fato de ela revelar ao discípulo o tipo de sentimento que vinha nutrindo para com o Mestre até então. Muito mais do que Seu perdão, Jesus mostrou a Pedro naquele encontro que a imensa responsabili­dade que o futuro lhe traria como um dos principais apóstolos do Evange­lho, demandava uma devoção assaz mais profunda que a volubilidade característica de sua postura de discípulo. Doravante, não haveria mais es­paço para debilidades, instabilidades e dúvidas na entrega daquele que viria a dar a própria vida pelo testemunho de sua fé, como Jesus mesmo vatici-nou naquela manhã (Jo 21.18).

"Em verdade, em verdade te digo que quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, esten-derás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres."

Como veremos mais adiante, este versículo tornou-se o sustentáculo bí­blico para diversas tradições ligadas ao martírio do apóstolo em questão, embora o texto não forneça subsídios que apoiem a veracidade dessa ou daquela lenda sobre o assunto.
A preocupação de Pedro com o destino João, manifesta ao fim daquele encontro (Jo 21.20-21), corrobora aquilo que veremos a seguir em nossa análise de Pedro segundo o texto de Atos dos Apóstolos: estes discípulos eram, ao que parece, amigos muito próximos.
Após o ministério de quarenta dias nos quais apareceu ressurreto a seus discípulos e, em especial, a Pedro, Jesus reuniu-os no Monte das Oliveiras, em Jerusalém (At 1.12), para as instruções finais e para testemunharem Sua gloriosa partida.
Pedro e seus amigos, ainda extasiados pelo esplendor da ascensão de Cristo aos céus, desceram rumo a Jerusalém tomados por grande júbilo e certos de que algo especial os aguardava nos dias subseqüentes (Lc 24.51-53), embora ainda não pudessem vislumbrar a dimensão, tampouco as con­seqüências daquilo que estava prestes a acontecer.
Ao investigarmos, a seguir, o perfil petrino sob a perspectiva de Atos, veremos que uma diferença substancial marca o comportamento do ex-pes­cador em relação ao que conhecemos dele nos Evangelhos.

A ousadia de Pedro em Atos dos Apóstolos
Se os Evangelhos deixam alguma dúvida acerca do senso de liderança apos­tólica de Pedro, o mesmo não se pode dizer do texto de Atos. Ali, desde os primeiros versículos, Pedro emerge como um dos campeões da causa cristã, destacando-se dos demais líderes da Igreja primitiva, ainda predominante­mente judaica. Longe de suas constantes e prejudiciais variações emocionais, o discípulo retratado em Atos apresenta-se, basicamente, como um líder cristão seguro em suas decisões ministeriais, teologicamente bem fundamentado e freqüentemente disposto a sofrer os danos mais penosos pela causa do Evan­gelho de Cristo (como de fato sofreu desde o início de sua atuação apostóli­ca). William Coleman, autor de Doze Cristãos Intrépidos, comenta a nova fase do discípulo (p. 61-62).

"Sejam quais forem os problemas que Pedro tenha enfrentado como dis­cípulo, ele brilha como couraça nova no livro de Atos. No decorrer dos doze primeiros capítulos ele é, indiscutivelmente, o personagem principal na Igreja cristã. Como parteira que atendeu ao nascimento da Igreja, Pedro é responsável pelo parto seguro do cristianismo, pelo aroma saudável e pelas vestes quentes. Ela chegou com faces robustas e um grito tranqüilizador. O pescador encarregou-se dessa parte."

Após reunir aproximadamente cento e vinte pessoas no cenáculo em Jerusalém, Pedro toma a palavra e, citando o Livro de Salmos, interpreta a recente desgraça vivida por Judas à luz das Escrituras Sagradas, concedendo aos circunstantes um entendimento claro acerca do episódio que, na con­cepção de muitos deles, não poderia sequer constar dos anais da história messiânica (At 1.15 a-16).

"Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos irmãos (...), e disse: Ir­mãos: convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam a Jesus."

A seguir, Pedro sente-se dirigido a admoestar os presentes sobre a neces­sidade da reposição da décima segunda dignidade apostólica (At 1.21-26), deixada vaga pelo traidor. O discípulo, apresentando os três critérios bási­cos para a escolha, lembrou que semelhante posto exigia alguém que hou­vesse acompanhado Jesus desde o batismo de João até a ascensão, que fosse testemunha de Sua ressurreição e que contasse com a aprovação do próprio Senhor. Como dois dos presentes preenchiam os requisitos apresentados por Pedro, os discípulos lançaram sortes e obtiveram do Senhor o resultado que apontava para Matias.
Torna-se necessário lembrarmos que, embora Pedro tenha suscitado a questão da substituição de Judas — culminada com a eleição de Matias — não há nenhum traço em suas palavras que sugira a perpetuação do apostolado dos doze por meio de sucessores, como acabou se verificando, mais tarde, nos sistemas hierárquicos erigidos na Igreja ao longo dos séculos. Basta ver que não se encontra nas Escrituras semelhante providência sendo tomada após o martírio do apóstolo Tiago Maior, em 44 A.D. O dispositivo da Sucessão Apostólica, que visava a defesa da ortodoxia da fé, face aos ataques heréticos que se multiplicavam na Igreja primitiva, em nada pode ser associ­ado a esse expediente verificado no cenáculo.
A contagiante descida do Espírito Santo no Pentecostes, superou em gló­ria a expectativa dos discípulos e demais presentes no cenáculo. Era a pro­messa do Pai (At 1.4) que se havia cumprido. Os desdobramentos sobrenaturais verificados com a manifestação do Espírito divino fizeram com que aquela assembléia chamasse a atenção de um grande número de transe­untes — em grande parte peregrinos de distantes regiões do mundo antigo — presentes em Jerusalém para a festividade religiosa (At 2.6-13). Alguns des­ses espectadores, não podendo compreender aquelas manifestações espiritu­ais, desdenharam os fiéis ali reunidos.
Nesse momento, vemos Pedro mais uma vez empunhar a espada da pala­vra e partir em defesa de sua fé. Numa linguagem estritamente judaica, o apóstolo, nessa ousada homilia, dirigiu-se a uma grande e atenta multidão, estabelecendo o tema da crucificação de Cristo como centro em torno do qual fez orbitar as demais citações que compuseram seu sermão. Em sua obra O Livro de Atos, Frank Stagg opina sobre a audácia de Pedro em enfatizar o estigma da cruz naquele primeiro sermão evangelístico (p.63):

"A primeira e maior tarefa da pregação apostólica era ocupar-se do 'escân­dalo da cruz'.(...) A crucificação de Jesus era um escândalo para os judeus e, enquanto não fosse compreendida, ela os impediria de aceitar a Jesus como Cristo. Os judeus haviam sofrido muito sob o jugo estrangeiro, tanto dos assírios, como dos babilônios e dos persas (embora estes lhes fossem um jugo suave), dos egípcios, dos sírios e dos romanos. Alguns dos seus próprios chefes haviam feito aumentar seu sofrimento. Assim, aguardavam ansiosamente a vinda do Messias, que os libertaria e que restauraria o reino davídico. Tinham já experimentado suficiente sofrimento e muita humilha­ção, e agora esperavam a reivindicação e a recompensa. Um Messias sofre­dor, portanto, naquele tempo era coisa inconcebível e indesejável."

Contrariando as expectativas judaicas citadas por Stagg, Pedro começa sua exposição da palavra demonstrando a impropriedade das críticas sarcásti­cas sofridas por aqueles cristãos (At 2.14b-15):

"...Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimen­to disto e atentais nas minhas palavras. Estes homens não estão embriaga­dos, como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia."

Os judeus não comiam antes da quarta hora da manhã, contada a partir do nascer do Sol. Nos dias de sábado, só ingeriam alimentos após o meio-dia. Este costume, por si só, tornava ridícula a acusação sofrida pelos fiéis no cenáculo.
Mas uma coisa é indiscutível quanto à célebre homilia de Pedro no Pente-costes: sua espontaneidade. Aquele certamente não foi um sermão estrategi­camente elaborado, tampouco ornado do ponto de vista da homilética ou da retórica. Foi, antes de mais nada, uma atitude espontânea em resposta a uma situação específica e que demandava uma urgente apologia.
Cheio do Espírito Santo, Pedro abre sua mensagem evangelística trazendo à memória dos curiosos espectadores as palavras de joel 2.28-32, sustentando pelas Escrituras — procedimento fundamental diante de uma platéia judaica — o que acabara de se suceder em meio àquela pequena comunidade cristã.
Num segundo momento, ainda sob uma perspectiva profética, o apósto­lo focaliza os aspectos relativos à morte e ressurreição de Cristo. Donald Guthrie em sua obra The Apostles (p. 29), comenta esses detalhes.

"A crucificação não foi vista meramente como um ato criminoso das auto­ridades judaicas, mas antes como parte do propósito divino. E notável que, em apenas poucas semanas, o profundo choque causado pela cruci­ficação sobre os discípulos tenha sido por eles digerido como parte defini­tiva dos intentos de Deus.
Na abordagem petrina há uma importante conexão entre o Jesus histórico, cujos poderosos feitos eram conhecidos da audiência, e o Cristo exaltado. O apóstolo insiste que foi Deus quem o levantou dentre os mortos, susten­tando sua afirmação a partir do testemunho de Davi, no Salmo 16.8-11. Para Pedro, portanto, a ressurreição de Cristo era a figura central da fé cristã.
Um outro Salmo (110.1) vem a mente do apóstolo quando afirma que Deus fez Senhor e Messias Àquele a quem os espectadores haviam cruci­ficado. A objetividade de sua expressão é provocativa. Pedro não faz dis­tinção entre o público judeu e seus líderes. De fato, ele insiste que o povo como um todo deve assumir a responsabilidade por aquilo que pra­ticaram seus líderes. Este ponto é particularmente impressionante, consi­derando-se que muitos dos que o ouviam provavelmente não estavam presentes quando do episódio da crucificação."

O primeiro sermão apostólico, levado a cabo por Pedro naquele Pente-costes, deixou marcas importantes para a posteridade por sua abordagem cristológíca. Nela, o apóstolo estabeleceu uma clara perspectiva tanto histó­rica quanto teológica sobre a figura de Jesus. Sua objetividade e ênfase sobre os títulos de "Senhor" e "Cristo", atribuídos a Jesus resumiram aquilo que a Igreja estabeleceu e anunciou acerca da natureza do Salvador, como podemos constatar, por exemplo, na teologia paulina.
Mas o impacto da mensagem de Pedro deve ser lembrada, sobretudo, pelo resultado provocado na multidão. Lucas é claro ao expor a reação da audiência ante a responsabilidade espiritual trazida à tona por Pedro e com­partilhada por quase toda a multidão presente:

"E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?"

Como conseqüência da profunda comoção causada pela palavra do apósto­lo quase três mil almas renderam-se ao Evangelho, obedecendo imediatamente às orientações soteriológicas do próprio Pedro. A preocupação da platéia ex­pressada na pergunta "que faremos, irmãos?" traduz a tendência humana de alcançar a salvação por méritos ou obras. A resposta do apóstolo, entretanto, deixa claro aos circunstantes que a fé cristã, a qual abraçavam, estava primeira­mente pautada numa atitude de mudança interior ou arrependimento. Portan­to, eles deveriam antes de tudo se arrepender (atitude interior), a fim de que posteriormente fossem batizados (atitude exterior).
Se esse primeiro sermão, com seus indiscutíveis resultados, já transportara nosso apóstolo do anonimato para a proeminência, a miraculosa cura do coxo mendicante às portas do templo (At 3.1-10) ajudou a projetá-lo ainda mais no panorama religioso da cidade. O milagre, que, por sua notoriedade atraiu rapidamente grande número de curiosos, proporcionou-lhe mais um ensejo para a proclamação pública da salvação em Cristo Jesus (At 3.11-26).
Assim como no Pentecostes, Pedro estriba sua mensagem na autoridade das Sagradas Escrituras, primeiramente para explicar a origem daquele fei­to e, em seguida, para enfatizar a idéia de solidariedade da nação de Israel na responsabilidade sobre a morte de Jesus, a quem o apóstolo apresenta como "Justo", "Santo" e "Autor da Vida". A palavra dos profetas é também usada por Pedro como alicerce para a convocação geral ao arrependimento e como esperança escatológica de melhores dias para Israel.
O resultado da combinação entre aquele milagre e a mensagem evangelística que se seguiu a ele foram o crescimento para cinco mil decisões por Cristo (At 4.4). Para os príncipes dos sacerdotes, tratava-se não mais de um bando de galileus indoutos arrebanhando alguns vacilantes aqui e acolá. Sinais e prodígi­os incontestáveis começavam a se repetir ante os olhos da população e a autori­dade teológica da mensagem dos apóstolos tornava-se cada vez mais clara.
Tal situação mostrava-se embaraçosa para a hierarquia religiosa que ma­quinara a execução de Cristo. Os discípulos, ao contrário de se dispersarem em função da morte de seu Mestre, encontraram nela grande motivação para a divulgação de sua mensagem. Ante o impacto da proclamação da ressurreição, os falsos testemunhos dos líderes judeus, segundo os quais tudo não passava de uma fraude elaborada pelos discípulos, já não mais surtiam efeito. Tornara-se preciso agir com energia na repressão daquele crescente movimento, antes que escapasse definitivamente do controle.
Assim, sem que pudessem alongar se em sua palavra, Pedro e João foram levados pela guarda do templo e aprisionados a mando dos enciumados saduceus. Estava lançada a primeira perseguição à Igreja, e Pedro era um de seus alvos principais.
Com efeito, o apóstolo, ao ensinar o povo como se fora um rabi, susci­tou a ira dessa aristocrática classe sacerdotal, dirigente do templo, em cujos limites Pedro ousadamente desenvolvia sua pregação.
A ênfase do apóstolo sobre a ressurreição e o reino vindouro e sua exposição de Cristo como soberano deflagraram a perseguição dos sacerdotes. Para os saduceus, profundamente interessados na manutenção de seu status quo, seme­lhante mensagem poderia ser interpretada pelos romanos - com quem manti­nham boas relações — como propaganda revolucionária. Pior ainda, o fato de Pedro estar valendo-se dos pátios do templo para anunciá-la poderia sugerir alguma ligação entre essa aristocracia sacerdotal e o discípulo de Cristo. Uma suspeita como essa seria, por certo, desastrosa para a categoria dos saduceus, vivamente interessada em manter sua hegemonia sobre a nação e sobre seu símbolo mais sagrado, o templo. Na verdade, os sacerdotes esforçavam-se ao máximo para agradar aos romanos, mantendo a ordem entre os judeus, uma vez que a insubordinação dos povos dominados era tida por Roma como um crime imperdoável, como explica Frank Stagg {op. cit., p.77).

"Roma era quem nomeava o sumo sacerdote. Até as roupagens do sumo sacerdote eram guardadas por um oficial romano e entregues àquele só quando necessárias para os cultos rituais. Todo aquele grupo aristocrático dependia diariamente de Roma. A menor aparência ou vislumbre de sedição atraía logo a ira de Roma, e os saduceus eram logo apontados como responsáveis pelo barulho."

Detidos, então, pela guarda do templo, Pedro e João são lançados na prisão até o dia seguinte, quando são convocados a comparecer diante da mais excelsa corporação judaica, o Sinédrio (At 4.3). Para os apóstolos, aquele era um momento especial, em que se cumpria fielmente um das profecias de Jesus acerca das tribulaçÕes do discipulado (Mc 13.9). Certo de que o Espírito Santo concederia tudo o que fosse necessário ser dito naquela ocasião (Mc 13.11), Pedro mais uma vez toma a palavra e, com autoridade, expõe o testemunho do Evangelho. Quis a sabedoria divina que aquele rude galileu, que por três vezes negara o Mestre na casa de uma daquelas autoridades, fosse o escolhido para dirigir a elas a acusação de terem incitado a população a pedira crucificação do Ungido de Israel (Mt 27.12,20; At 4.10).
Tudo o que os saduceus e demais membros do Sinédrio queriam, naquele momento, era saber com que autoridade, ou em nome de quem, Pedro e seu condiscípulo haviam realizado o sinal que alvoroçara a população nas cerca­nias do templo, já que ambos não dispunham de atribuições religiosas ofici­ais. A polêmica acerca da autoridade espiritual, freqüentemente levantada por esses anciões para garantir seu poder religioso, era algo que Pedro já vira se suceder com seu Mestre (Mt 21.23). Mas, na ocasião, a atenção do após­tolo estava voltada basicamente para a oportunidade de testificar do Evange­lho. Como a pergunta levantada pelas autoridades aludisse ao poder de Cristo, Pedro responde a ela de maneira arrojada, trazendo à luz a mesma acusação que enfatizara em seus dois primeiros sermões: a responsabilidade de Israel pela execução de Cristo.
Indiferente às reservas teológicas dos saduceus quanto à ressurreição, Pedro ressalta que embora aqueles líderes tenham efetivamente crucificado o Nazareno, Deus o ressuscitou dentre os mortos! Igual impacto causou sua menção da metáfora veterotestamentária da pedra principal rejeitada pelos edificadores (SI 118.22-23), bem conhecida dos doutores da Lei e dos sacer­dotes. Com ela Jesus os havia advertido enfaticamente e, por conseguinte, >      atraído para si a ira mortal desses religiosos (Mt 21.42-46). Esta figura I      messiânica do Velho Testamento parece ter encontrado um lugar de destaque I      no coração do apóstolo, pois o vemos enfatizá-la novamente em sua primei­ra epístola (1 Pe 2.7).
Se a exposição de Pedro já escandalizara os membros do Sinédrio por lançar-lhes em rosto — com o devido embasamento — a culpa pela morte de
Jesus, aquelas autoridades não puderam se conter em seus assentos ao ouvi­rem a mais contundente afirmação do galileu (At 4.12):

"E não há salvação em nenhum outro, porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo importa que sejamos salvos."

Se a idéia da salvação através da simples fé em um Nome atingia em cheio o sistema religioso judaico - que exaltava o esforço humano no cumprimento da Lei - o que dizer se esse Nome apontasse para alguém tido como impostor e que houvesse sofrido a mais vil de todas as punições capitais?
Basicamente, três coisas impressionaram os anciões do Sinédrio com respei­to a Pedro e João: primeiramente, a incômoda certeza de que ambos faziam parte daquele movimento que em vão tentaram sufocar ao crucificar Jesus. Em segundo lugar, a farta sabedoria que demonstravam na interpretação das Escri­turas, e que não era procedente de suas escolas rabínicas. E, por último, os inegáveis milagres que se seguiam a sua pregação (At 4.13-14).
Assim, sem poderem tolerar qualquer palavra adicional à mensagem de Pedro, os líderes judeus, isolando ambos apóstolos, tomaram conselho en­tre si para buscarem uma solução que pusesse fim àquela doutrina que se tornara definitivamente ameaçadora, quer por seus apelos escriturísticos, quer pelos incontestáveis prodígios que vinham produzindo.
Se, para os líderes religiosos, não era possível desmentir os milagres dos apóstolos, restava-lhes apenas constrangê-los a se calarem, sob pena de fu­turas punições (4.17,18,21). A resposta de Pedro às autoridades reflete cla­ramente todo o destemor que o marcou até o fim sua carreira ministerial (At 4.19-20).

"Julgai vós se é justo, diante de Deus, obedecer antes a vós do que a Deus? Pois não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido."

Imediatamente à sua soltura, Pedro e João testemunham a alguns fiéis acer­ca de seu aprisionamento e da pregação do Evangelho aos maiorais do povo. Carregadas de emoção e temor, as palavras dos apóstolos imprimiram grande júbilo naqueles que atentamente os ouviam (At 4.23-31), os quais, inspirados pela experiência dos apóstolos, derramam-se diante de Deus em oração, supli" cando por semelhante arrojo e determinação na pregação do Evangelho.

"Agora, Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios, por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus."

A partir de At 4.32-5.16, vemos que a Igreja de Jerusalém-impulsiona­da pelo destemor de Pedro e João - experimentou, meio a seu rápido cres­cimento, uma espécie de "comunismo espontâneo", originário do amor fraternal e da ardente necessidade de se comungar a nova fé. Aquela experi­ência nada mais era do que a expressão social da espiritualidade que marca­va aqueles primeiros cristãos. Para Stagg, o "comunismo" dos judeus-cristãos de Jerusalém, ao contrário do sistema teorizado por Karl Marx, era sobretu­do voluntário e admitia a posse de propriedades. A partilha da renda, fruto da venda de tais propriedades, visava o socorro das necessidades da comu­nidade e não o nivelamento socioeconômico de seus fiéis.
Abruptamente tomados pela guarda sacerdotal e confinados na prisão, para uma audiência no Sinédrio pela manhã, Pedro e seus amigos foram, antes da alvorada, divinamente livres do cárcere e enviados pelo anjo de volta ao pátio do templo, visando finalizarem a mensagem que fora interrompida no dia anterior (5.17-21). Atônitos diante do ocorrido, os saduceus foram informa­dos de que os discípulos de Jesus, liderados por Pedro, novamente ocupavam os limites sagrados do templo para difundir a palavra do Nazareno. Desta vez, amparados pela simpatia do povo, os apóstolos foram levados pacificamente ao encontro dos sacerdotes para uma nova audiência.
O senso de liderança de Pedro fica mais uma vez claro quando, diante de seus inquisidores, adianta-se aos demais apóstolos na defesa do ministério que ousadamente exerciam. Sua resposta àqueles líderes diante da acusação de desobediência civil constituiu um verdadeiro desafio ao sumo sacerdote, cuja casta, embora corrompida por longos conluios políticos, ainda era con­siderada a portadora da voz divina em Israel. Aqui, tanto quanto nas ocasiões anteriores, Pedro sustenta seu testemunho sobre quatro pilares teológicos, que se firmaram como verdades inseparáveis da fé cristã: a solidariedade da nação israelita na morte do Messias, Sua posterior ressurreição dentre os mortos, Sua condição de soberano divinamente exaltado e o perdão dos pe­cados mediante Seu sacrifício.
Como diz a narrativa lucana, Pedro desempenhou um papel importante na administração dessa comunidade peculiar, cujo crescimento permanecia em curva ascendente já que seus membros eram vistos com grande simpa­tia pela população de Jerusalém, que a eles recorria em suas diversas neces­sidades físicas e espirituais. Foi precisamente na direção dessa comunidade que Pedro aparece como instrumento de uma das mais severas punições de que se tem conhecimento no Novo Testamento, o caso de Ananias e Safira
(At 5.1-11). A sentença contra o casal, acusado de "mentir contra o Espírito Santo", tem suscitado ainda hoje complexas discussões e diversas propostas exegéticas que justifiquem seu impressionante desfecho, como a apresentada por Stagg (op. cit., p.84-85).

"O caso acusativo, e não o dativo usual, segue ao verbo no infinitivo comumente traduzido por 'mentir'. É possível traduzir então assim: 'Ananias, como é que Satanás encheu teu coração para falsificar o Espírito Santo?' A acusação consistia não só em ter mentido ao Espírito Santo, mas em ter falsificado o Espírito, buscando representar a sua fraudulenta ação como de certa forma inspirada pelo Espírito. Assim, procurara ele fazer com que o Espírito Santo participasse de seu nefando crime."

William Coleman propõe outra alternativa para o trágico desfecho que envolveu o casal cristão {op. cit., p.67-68).

"De algum modo, Pedro soube de imediato o que havia acontecido. Em sua mente não podia haver concessões aqui. Não se poderia permitir que a Igreja começasse baseada em premissas enganosas como esta.
Pedro confrontou Ananias e certificou-se de que todos entendessem a situação. Ninguém tinha de dar sua propriedade (At 5.4) - competia a eles guardar ou dar. Mas não tinham o direito de enganar. Procuravam mentir a seus companheiros. Em realidade, haviam mentido a Deus.(...)
Possivelmente a cena toda pareça cruel e destituída de amor, mas para Pedro a questão era crucial. Ele não podia permitir que a Igreja emergente crescesse em corrupção. Se o permitisse, ela estaria em pé de igualdade com as religiões pagas locais."

Operando sinais e divulgando a mensagem do Evangelho nas proximi­dades do pórtico de Salomão (15.12), na área do templo, Pedro volta a se inserir perigosamente nos limites guardados pelos saduceus. Lucas não dei­xa explícito (At 5-15) se os muitos enfermos deixados pela multidão sob a sombra de Pedro, eram efetivamente curados de suas doenças ou se tudo não passava de mais uma superstição popular. Em todo caso, o quadro narra­do pelo autor nos dá uma idéia da alta estima com que Pedro estava sendo acolhido pela população de Jerusalém.
O grande alvoroço causado pela presença dos apóstolos, com todo carisma que exerciam sobre a multidão, detonou mais uma represália da parte dos sacerdotes (At 5.17-18). Esta, que se tornou a segunda perseguição contra a Igreja, envolveu não apenas Pedro e João, mas também outros fiéis, cujos nomes não são explicitados por Lucas.
Obviamente, qualquer dos pontos enfatizados por Pedro em seu sermão afetava sensivelmente a autoridade e o interesse dos anciões do Sinédrio. Malogrados os esforços iniciais de calar os discípulos de Jesus, aqueles ma­gistrados decidem, a partir de então, liquidar não só a Pedro, como a todos os demais envolvidos na divulgação do Evangelho. A decisão parecia consensual, não fosse a sábia intervenção de Gamaliel, um dos sete maiores rabis de Israel, que, mediante discurso fundamentado em exemplos históri­cos, apelou para a circunspecção, naquele momento de impasse (At 5.34-39).
Se a retórica de Gamaliel poupou ávida de Pedro e dos demais discípulos da fúria dos anciões do povo, não pode livrá-los da dolorosa — mas gratifi-cante - experiência das trinta e nove chibatadas com que glorificaram o nome de Cristo. Anos mais tarde, exortando seus fiéis em sua primeira epístola, Pedro notoriamente enfatiza a honra de sofrer por amor do Evangelho (1 Pc2.19,21;3.13-I7;4.12-16).
Embora não produzissem arrefecimento no zelo evangelístico dos após­tolos — que continuaram a usar o templo para suas exposições — as persegui­ções contra a Igreja cresciam, enquanto esta ganhava adeptos cada vez mais fervorosos e capacitados. Várias conversões entre os membros do sacerdó­cio judaico - talvez resultado da pregação de Pedro no Sinédrio - e os milagres do judeu grego Estevão começavam a respingar agora nos ardoro­sos fariseus, que não tardaram em levantar oposição ao trabalho missioná­rio dos apóstolos.
Com a execução, pelo Sinédrio, do piedoso Estevão (At 7.54-60) ficou claro para aqueles primeiros cristãos que a tormenta da perseguição se apro­ximava, cada vez mais ameaçadora. Essa perspectiva fez com que grande parte dos crentes que habitavam Jerusalém se dispersassem, levando consi­go a semente do Evangelho às regiões circunvizinhas, como a Samaria (At 8.1,5) e, mais tarde, às terras distantes da Síria, da Fenícia e das ilhas mediterrâneas (At 11.19).
Pedro, João e outros dentre os doze, conquanto seriamente ameaçados pela intolerância que permeava Jerusalém, relutavam em alargar seu minis­tério para muito além daquela cidade (At 8.1). Como já frisamos antes, urna concepção messiânica ainda restrita por fortes valores nacionalistas (At 10.28; At 11.1-3) aliada à estreita ligação com o sistema de culto ju­daico (At 3.1; At 5.42), representado pelo templo e pela própria cidade ^ueo abrigava, colaboraram para a insistente permanência dos apóstolos cni Jerusalém.
Contudo, as notícias de numerosas conversões nas regiões adjacentes -atingidas com o Evangelho pelos que se dispersaram (At 8.4) — exigiam dos apóstolos uma posição mais dinâmica, que endossasse o fluxo que a Palavra começava a encontrar naqueles lugares. Essa demanda por um envolvimento mais íntimo dos líderes de Jerusalém com o que se sucedia fora da cidade sagrada foi verificada especialmente no ministério do diácono Filipe, em Samaria. De fato, foi naquela discriminada região, durante a confirmação do trabalho de Filipe, que Pedro e João — para lá enviados pela Igreja de Jerusalém — começaram a perceber que seu apostolado tornara-se incompa­tível com alguns de seus velhos valores culturais.
Ciente de que o momento era de ruptura com concepções estranhas ao Evangelho que pregavam, Pedro supera o tradicional desprezo pelos samaritanos e, impondo as mãos, intercede em favor daqueles novos fiéis, para que recebessem o dom do Espírito.
A ministração petrina em Samaria, embora enfatizasse a graça e a mise­ricórdia de Cristo, conheceu também momentos de ação enérgica, como durante a repreensão sobre um certo Simão Mago. Esse personagem, que teólogos como Bengt Hagglund consideram um dos pioneiros do gnosticismo judaico, era um líder esotérico, cuja suposta conversão torna­ra-se um trunfo à pregação do Evangelho na Samaria. Perscrutando a alma do manifesto impostor — que externara sua torpeza ao tentar comprar dos apóstolos o poder do Espírito que neles abundava — Pedro, após amaldiçoar o intento de Simão, assegura-lhe que não poderia exercer o ministério que desejava, visto que seu coração estava distante da retidão e sua alma imersa em fel de amargura e iniqüidade.
Após anunciar a Palavra em várias cidades samaritanas, Pedro retorna a Jerusalém, mas ali já não se detém ali como antes. Lucas nos informa em At 9.31-32 que as comunidades cristãs espalhadas pela Judéia, Samaria e Galiléia se fortaleciam numa atmosfera tranqüila. Como crescessem sobre­modo, demandavam norteamento apostólico. A paz que reinava nas igrejas da região devia-se ao fato de os líderes judeus terem desviado sua atenção para a perseguição que seus compatriotas sofriam em Alexandria, no Egito (38 A.D.) e para os distúrbios causados pelo insensato Calígula que exigia sua estátua no templo de Jerusalém (39 A.D.).
Envolvido na assistência às igrejas da região da Judéia, Pedro opera um milagre em Lida, curando o paralítico Enéias e fazendo o Evangelho triunfar na cidade, bem como na vizinha Sarona (At 9.32-35). Dali, parte em direção a jope (atual Yaffa), distante dezoito quilômetros, na costa mediterrânea, em atenção à solicitação dos irmãos, que há pouco haviam perdido uma de suas mais piedosas companheiras, Tabita. Lucas não nos deixa claro se o insistente pedido dos cristãos de Jope para o comparecimento de Pedro visava uma operação miraculosa sobre a falecida, ou apenas a mera participação do apóstolo no funeral. De qualquer modo, ao ser usado pelo Espírito Santo na ressurreição de Tabita, Pedro torna-se conhecido na cidade e estende sua permanência ali por tempo indeterminado.
Num dado dia, enquanto ainda exercia seu ministério em Jope, hospeda­do por um certo Simão curtidor, Pedro é arrebatado por uma visão que, a princípio, não compreendera (At 10.9-17). Na verdade, o êxtase do apóstoIo em Jope era parte de uma intervenção do Espírito que visava romper suas densas barreiras sectárias, como mais tarde ele próprio reconhece (At 10.34-35)- Assim, devidamente alertado pelo Espírito, Pedro não se opôs a seguir com os três desconhecidos que, vieram a seu encontro desde Cesaréia, a pedi­do do centurião romano Cornélio, que muito desejava vê-lo (At 10.23).
Várias cidades da Palestina certamente estavam nos planos evangelísticos do célebre apóstolo, mas não a "pequena Roma", como era conhecida a pomposa Cesaréia. Construída por Herodes, o Grande, a partir de 25 a.O, a cidade, cujo nome honrava a César Augusto, tor­nou-se, desde 12 a.C, a capital romana da Palestina e residência oficial do procurador para lá destinado. Por seu estilo de vida gentílico, Cesaréia, embora próspera, não era bem vista pelos judeus palestinos mais devo­tados, como Pedro. Acerca do conflito interior vivido pelo apóstolo nessa que se tornou sua primeira missão aos gentios, Frank Stagg co­menta (op. cit., p. 116).

"O profeta Jonas fugira para Jope, buscando escapar da missão para Nínive, cuja destruição ele desejava. Ele não tomou nenhuma iniciativa no sentido de pregar aos gentios, mas foi forçado a fazê-lo. Pedro se achou em Jope quase na mesma situação. Pela atividade missionária de outros e por causa do progresso do movimento cristão, viu-se forçado a dar atenção aos gentios.
(...)
Foi dito a Pedro que 'parasse de chamar de comum' (esta é a força do original grego) aquilo que Deus purificara (At  10.15). Embora a visão se repetisse por três vezes, Pedro ainda ficou perplexo quanto ao que ela podia significar. Havia tido grandes oportunidades como seguidor de Jesus e conhecia a obra pioneira de homens como Estevão e Filipe. Não obstante, Pedro só se deu por vencido e somente cedeu à luz depois de fortemente premido. Seu progresso foi penosamente vagaroso e lento."

Embora soe um pouco severo em sua análise, Stagg pode estar próximo daquilo que se passou no íntimo do apóstolo naquele momento inusitado
A medida que a bela silhueta de Cesaréia se desenhava no horizonte, Pedro tornava-se ainda mais inquieto, diante da perspectiva de "manchar-se" em função do contato com os gentios que ali viviam. Mais preocupante ainda era o fato de aquele que o solicitara ser um oficial integrante das odiadas forças de ocupação romanas. Contudo, para Pedro, o desenrolar dos aconte­cimentos dos últimos dois dias não deixava dúvidas de que a visão que tivera em Jope era, de fato, da parte de Deus, assim com a revelação do tal centurião que o mandara buscar. Essa certeza tornava-se tanto mais inquietante quanto mais confrontava os austeros valores que Pedro, como judeu, aprendera des­de menino.
Ao chegarem à residência de Cornélio, o constrangimento do apóstolo ao ver-se compartilhando o mesmo teto com vários gentios aos quais fora envi­ado, é observado por Stagg (ibidem, p.l 18).

"A ansiedade de Cornélio e a relutância de Pedro são aqui contrastadas de modo assaz chocante. Cornélio teve sua visão cerca da hora nona (três da tarde) e enviou logo seus mensageiros. Viajaram de Cesaréia a Jope (cerca de trinta milhas) até o meio-dia do dia seguinte. Cornélio deixou de parte todos os outros negócios e por quatro dias esperou a chegada de Pedro (At 10.30). Estava tão interessado que reuniu em sua casa seus parentes e amigos íntimos (At 10.24). Ao contrário, Pedro parecia movimentar-se como que empurrado por um dever. A demora inicial até o dia seguinte pode ser justificada, pois os enviados de Cornélio necessitavam repousar e Pedro precisava aprontar-se para a viagem do dia seguinte. Mas levava quase dois dias a viagem de Jope a Cesaréia. Enquanto Cornélio ansiosamente buscava congregar outras pessoas para ouvir o Evangelho, Pedro ocupava-se em arranjar testemunhas de defesa, a fim de proteger sua reputação, levando-as consigo a Cesaréia e mais tarde a Jerusalém."

Após deter-se em justificações que denunciavam seu embaraço (At 10.2/-29) e, tomando ciência daquilo que se sucedera dias atrás a Cornélio (At 10.30-33), Pedro expõe o Evangelho a sua platéia gentia, sob os olhares observadores dos seis cristãos judeus que o seguiram.
Antes que pudesse concluir sua preleção, o apóstolo e os da circuncisa que o acompanhavam, foram tomados de grande espanto ao constatarem que o dom de Deus se manifestara poderosamente naqueles desprezados gentios. Se Deus não os recusou Seu Espírito, como poderia Pedro recusar-lhes a água, com a qual deveriam ser batizados?
Reconhecendo a direção divina no sucedido, Pedro cedeu ao convite da­queles novos irmãos para que permanecesse em Cesaréia por alguns dias. A essa altura, não é difícil imaginarmos que uma notória mudança se iniciava na visão do apóstolo em relação aos gentios. Afinal, Pedro passara dias ali mantendo íntima comunhão com homens incircuncisos; essa atitude, inimaginável a um judeu, exigiria sérias explicações do apóstolo aos anciões da Igreja em Jerusalém, ainda zelosos das tradições judaicas. De fato, Lucas dedica mais da metade do capítulo onze de Atos na descrição desse interro­gatório enfrentado mais adiante pelo apóstolo.
O testemunho de Pedro acerca do ocorrido em Jope e Cesaréia abalou as estruturas da enclausurada Igreja de Jerusalém, e revelou àqueles líderes judaizantes uma dimensão do Evangelho que até então não conheciam. Doravante, não mais caberia uma concepção messiânica que adotasse Israel por limite. Afinal, todos ali, concordemente, reconheceram que até aos gen­tios Deus concedeu o arrependimento para a vida (At 11.18).
Decorria o ano 44 quando o inominável Herodes Agripa decidiu lan­çar-se contra a liderança da Igreja em Jerusalém, visando amenizar a anti­patia que sua origem iduméia suscitava na cúpula religiosa judaica. Segundo Stagg, a oportunidade de Agripa fortalecer-se junto aos judeus aconteceu com a aprovação dos líderes cristãos à conduta de Pedro em Cesaréia, já que os apóstolos haviam escapado às perseguições judaicas dos dias de Estevão justamente por permanecerem fiéis à observância da Lei. Assim, a deferên-cia — pela Igreja de Jerusalém — do precedente aberto por Pedro com os gentios tornara-se uma postura imperdoável para os líderes judaicos. O impasse gerou a ocasião que Agripa esperava para adular as lideranças rabínicas que, a princípio, não o toleravam. Após passar ao fio da espada Tiago Maior, irmão de João, o tirano — sentindo a boa repercussão entre os religiosos de Israel — encarcerou Pedro que, como se vê, ainda mantinha seu ministério estabelecido em Jerusalém, após todos esses anos (At 12.1-3).
Repleta de peregrinos vindos de vários cantos do mundo antigo, Jerusa­lém respirava, então, ameaças contra a Igreja. A violenta ação de Agripa tor­nara-se conhecida das multidões que lotavam as ruas da cidade. Para autores como Donald Guthrie, o encarceramento de Pedro — ao contrário da execu­ção sumária de Tiago Maior — se explicaria pelos desígnios politiqueiros de erodes Agripa de apresentá-lo à multidão durante a Páscoa, antes de executa-lo, à semelhança do que ocorrera com Jesus. Ciente da inexplicável libertação de Pedro durante seu encarceramento pelos saduceus (At 5.17-20), Agripa) além de destacar uma guarda mais competente e numerosa, prende o apósto­lo em duas correntes, como garantia de que nenhuma surpresa se faria dessa vez (At 12.4-7).
Demonstrando grande confiança nos propósitos de Deus, Pedro entregou-se a um sono repousante na noite que precedia sua planejada execução. En­quanto a Igreja incessantemente intercedia por ele, o anjo do Senhor, pondo-se no interior da cela, despertou-o do pesado sono e, rompendo as algemas que o prendiam, fê-lo passar despercebido pelas sentinelas e, por fim, pelo portão de ferro que faceava a rua. Coleman comenta a cena (op. cit., p.71):

"Neste incidente da prisão, Pedro dormia tão profundamente que a luz brilhante do anjo nem chegou a despertá-lo. O anjo teve de cutucá-lo. Pedro dormia em paz, muito embora Herodes pudesse tê-lo executado."

E interessante citarmos que a sombria tradição medieval fez brotar a vene­ração das algemas de Pedro, aqui citadas por Lucas. Abençoados pelo contato com o corpo do santo prisioneiro, aqueles artefatos teriam sido achados, guardados e passados sucessivamente pelos cristãos primitivos que — segundo a crendice — viam neles propriedades terapêuticas que podiam libertar os cativos dos mais diversos males. A tradição bizantina afirma que, séculos depois, as supostas correntes de Pedro foram levadas a Constantinopla por reis piedosos e expostas à veneração pública.
De volta à narrativa de Lucas, vemos que aquela intervenção tão extraordi­nária fora aos olhos de Pedro que custou alguns minutos para que ele — mesmo acostumado aos milagres divinos — se certificasse de que tudo não se tratava de um delírio, mas de uma ação real de Deus em seu socorro (At 12.9).
Cheio de júbilo, Pedro decide dirigir-se a uma das congregações cristãs de Jerusalém, a casa da mãe de Marcos, a fim de testemunhar sobre como Deus operou graciosamente em seu favor. Como era de se esperar, a súbita presen­ça do apóstolo ali causou um misto de espanto e alegria entre os irmãos que por ele intercediam naquela madrugada.
Misteriosamente, Lucas relata que, após o encontro com aqueles fieis, Pedro decide partir para outro lugar (At 12.17). Doravante, a atenção do autor de Atos volta-se para as missões de Paulo e seus companheiros, em seu crescente avanço missionário entre os gentios. Pedro sai de cena, tornando a ser mencionado apenas no capítulo 15, quando de seu testemunho no Con­cilio de Jerusalém. A partir daí não mais é citado no Livro de Atos. Esse silêncio de Lucas sobre os feitos posteriores de Pedro é tanto mais relevante quanto maiores foram os clamores da tradição medieval com respeito a sua primazia na Igreja, como veremos mais adiante, ao tratarmos do tema.
Qual seria, pois, esse outro lugar para onde Pedro se dirigiu após aquela miraculosa libertação? Teria o apóstolo, naquele momento de intervenção divina, recebido instruções acerca de alguma missão fora de Jerusalém (ou de Israel)? Por onde teria andado Pedro entre o lapso que separou sua liber­tação das mãos de Agripa e o Concilio de Jerusalém, ou seja, entre 44 e 50 A-D-? Na tentativa de responder a questões como estas, relevantes para a investigação do ministério do apóstolo, estaremos a seguir nos detendo em alguns relatos tradicionais que enfocam as missões de Pedro posteriores àquelas descritas por Lucas em Atos. Com efeito, a porção da história ecle­siástica sobre as narrativas pós-bíblicas de Pedro, embora permeada pela fantasia em alguns momentos, tem muito a esclarecer sobre seu longo mi­nistério fora de Israel.


As missões de Pedro no mundo gentílico
A tradição católica enfatizou o ministério petrino em Roma, para onde diz ter o apóstolo transferido sua autoridade espiritual, e de onde teria diri­gido a Igreja primitiva, após cumprir seu tempo em terras palestinas. A impropriedade tanto histórica como teológica desse argumento será trata­da, com a devida acuidade, mais adiante.
A julgar pelas citações dos Pais da Igreja, não há dúvidas de que Pedro real­mente viveu e exerceu ministério em Roma. Entretanto, a questão mais rele­vante aqui é saber por onde andou o apóstolo entre sua partida de Jerusalém e sua chegada a Roma, já que alguns anos devem ter separado uma da outra.
A tradição, tanto primitiva como medieval, propõe diversas possibilida­des para o episcopado pós-bíblico do apóstolo, como constataremos a se­guir. Talvez um bom começo para o rastreamento de seus passos após sua obscura partida da Palestina, seria considerarmos as adjacências da Ásia Menor, para cujos crentes Pedro endereça sua primeira epístola, escrita — segundo alguns-em Roma, por volta de 64 A. D. (1 Pe 1.1).

"Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Disper­são, no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia."

Têm-se dito que a referência do apóstolo a essas províncias — que hoje compõem o norte da Turquia — seria um indício seguro de sua passagem por ali. De sua passagem talvez, mas de um ministério prolongado, é pouco provável. Por que, então, Pedro as citaria de forma tão destacada em sua epístola? Esta é uma questão difícil de ser resolvida, já que a tradição posteri­or nada acrescenta sobre um suposto ministério petrino naquelas regiões Certo é que esses territórios romanos ficavam a meio caminho entre Antioquia da Síria e cidades como Corinto e Roma, locais onde Pedro esteve mais demoradamente. Eram também regiões prósperas, de cultura predomi­nantemente grega, cheias de cidades populosas e muito bem servidas por estradas e portos. Foram, ademais, abrigo de numerosas colônias de judeus da Dispersão, alvo dos missionários que priorizavam seus patrícios nas evangelizações, como parece ter sido o caso de Pedro (Gl 2.8,9).
A  Ásia Menor e sua circunvizinhança, com todos seus atrativos, hospedou diversos vultos do cristianismo primitivo. Já citamos anteriormente os casos de João, Filipe, Bartolomeu, Paulo, Papias, Irineu, Poltcarpo e outros. Foi, por isso, uma das regiões do Império onde a fé cristã se desenvolveu com maior rapidez. Com tudo isso, não há razões para se descrer da passagem do velho apóstolo por ali. No entanto, se tomarmos apenas sua primeira epístola como base para imaginarmos um longo ministério em alguma daquelas províncias, devemos ser cuidadosos. Isto porque logo adiante no texto, o apóstolo lembra seus destinatários acerca daqueles "que vos preparam o Evangelho" sem propria­mente se identificar com eles. Deve-se considerar também que a notoriedade que Pedro alcançara na Igreja decerto permitia que dirigisse cartas semelhantes a comunidades onde nunca havia estado. Este é presumivelmente o caso das regiões citadas em 1 Pe 1.1. De qualquer modo, deve-se ter em mente que, se Pedro alguma vez rumou por terra ao ocidente, teria estado invariavelmente em algumas daquelas províncias.
Outra boa razão para cremos numa passagem - ainda que breve - de Pedro pela Ásia Menor são as tradições que ligam seu ministério a uma cidade próxima dali, se bem que do outro lado do Mar Egeu: Corinto. A pujante capital da província romana da Acaia está entre os mais prováveis campos de trabalho pastoral de Pedro antes de sua chegada a Roma.
Maior e mais próspero porto comercial da Grécia romana, Corinto era uma bela cidade de quase quinhentos mil habitantes — também notabiliza­da por sua licenciosidade - logo transformada num ponto estratégico para as missões cristãs da época. Floyd Filson, em sua obra Opening the Neu> Testament, descreve as características culturais de Corinto, quando da chega­da dos primeiros missionários cristãos (p.l 12).

"Neste ativo centro encontravam-se não apenas gregos, mas também visitan­tes de muitos países e raças diferentes. Alguns se estabeleciam ali, enquanto outros permaneciam apenas por pouco tempo. Os mercadores itinerantes, os caçadores de emoção e os nativos ávidos por dinheiro desempenharam, todos, importante papel no rebaixamento moral da cidade."

A forte presença judaica em Corinto - confirmada pela arqueologia mo­derna - constituiu outro fator que a transformou num alvo atraente para aqueles missionários judeus-cristãos. Paulo foi um dos que viram na locali­dade excelentes perspectivas para uma promissora expansão do Evangelho na região da Acaia. Ali chegando em cerca de 52 A.D., o apóstolo - ao lado de Aquila, Priscila, Timóteo e Silas - permaneceu na cidade por dezoito meses ministrando para judeus e gentios (At 18.1-11) e ganhando para Cristo até mesmo alguns de seus magistrados como Erastus, o tesoureiro da cidade (Rm 16.23), que escavações recentes descobriram ser também comissário e administrador local.
Em sua primeira carta aos coríhtios, escrita em Éfeso por volta de 56 A.D., Paulo nos fornece algumas pistas que li­gam o ministério de Pedro à grande cidade de Corinto. Como vemos no texto paulino, com o passar do tempo, alguns cristãos penderam excessiva­mente para as orientações dos vários pregadores que ali esti­veram, a ponto de produzirem grande dissidência na Igreja da cidade. Pedro, como pode-se deduzir a partir de 1 Co 1.12 e 3.22, estava entre aqueles que ali ministraram. Mais ainda, o fato de Pedro fazer-se acom­panhar de sua família em Corinto - como lembra Paulo em 1 Co 9.5 — sugere que a presença do apóstolo ali não se limitou a uma breve visita pastoral, mas a um ministério mais prolongado.
Os escassos fragmentos de uma certa Epístola aos Romanos, escrita em fim do segundo século por Dionísio, bispo de Corinto (c. 170 A.D.), embora sem acrescentar muitos detalhes, confirma o ministério petrino naquele lu­gar [in: Eusébio, História Eclesiástica, II, XXVII).

"Portanto, vós também, por semelhante admoestação, estais ligados em estreita união às igrejas plantadas por Pedro e Paulo, como a dos romanos e dos coríntios. Porquanto ambos vieram a nossa Corinto e nos ensinaram da mesma forma que vos ensinaram quando estavam na Itália."

A tradição da Igreja, infelizmente, não conservou documentos que per­mitissem à posteridade elucidar os detalhes da permanência de Pedro em Corinto. Assim, não sabemos exatamente quando o apóstolo chegou ali, tampouco quanto tempo se demorou na cidade. Entretanto, tomando-se como referência a partida de Paulo dali e o posterior envio de sua primeira epístola aos coríntios — onde Pedro é citado — é provável que o ex-pescador tenha permanecido em Corinto por um dado tempo entre 53 e 57 A.D.
Ora, se Pedro desembarcou em solo coríntio para dar prosseguimento ao trabalho de cristianização iniciado por Paulo — como fizera, por exemplo, com o trabalho de Filipe na Samaria (At 8.14-25) - é certo que já se demonstrava aberto, àquela altura, para o envolvimento pastoral com uma congregação he­terogênea como a coríntia, como podemos deduzir de seu próprio testemunho no concilio de Jerusalém, pouco antes, em 50 A.D. (At 15.7-9).

"Havendo grande debate, Pedro tomou a palavra e lhes disse: Irmãos, vós sabeis que desde há muito tempo Deus me escolheu dentre vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios a palavra do Evangelho e cressem. Ora, Deus que conhece os corações, lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a eles, como também a nós nos concedera. E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé os corações."

Porém, mais significativo ainda do que o trabalho missionário de Pedro em Corinto, foi aquele que provavelmente o precedeu, isto é, sua estada na importante cidade de Antioquia da Síria.
Nenhum centro gentílico manteve vínculos tão estreitos com a historia da Igreja, em suas primeiras décadas, como Antioquia. Fundada três século antes de Cristo pelos rei gregos da Síria, Antioquia foi, desde o princip10' muito povoada por judeus, os quais gozavam ali de ampla liberdade e ü° mesmos direitos dos cidadãos gregos. No período apostólico, a cidade — Já ampliada e adornada pelos romanos com aquedutos, termas, pontes e um fiteatro — abrigava cerca de duzentos mil habitantes, tendo se tornado um fios cinco maiores centros urbanos do império e a residência oficial do gover­nador romano na Síria.
Esse conjunto de fatores, adicionado a sua proximidade com Israel, fez de Antioquia uma cidade extremamente importante nas primeiras campanhas missionárias para o mundo gentílico. Sua posição estratégica transformou-a na "Igreja mãe" da evangelização da Ásia Menor e da Europa.
Lucas narra, em At 11.19-30, detalhes importantes que envolvem o surgimento e o desenvolvimento da congregação cristã de Antioquia. Fun­dada por judeus cristãos foragidos das primeiras perseguições em Jerusa­lém, aquela recém implantada Igreja viu o número de seus fiéis florescer vertiginosamente, em parte, porque a evangelização daquele lugar não se restringiu à população judaica. Tal foi a rapidez com que o Evangelho se .espalhou entre judeus e gentios antiocanos que, em pouco tempo, esses , crentes foram identificados, pela primeira vez na história, pelo nome que os distinguiria para sempre: cristãos.
Com as notícias da expansão da fé em Antioquia, a liderança da Igreja em Jerusalém decide enviar para lá homens que, por sua maior experiência ministerial, auxiliariam o desenvolvimento da jovem congregação. O piedo­so Barnabé foi o primeiro deles, seguido mais tarde por Paulo e alguns pro­fetas de Jerusalém, entre os quais Agabo, que previu a fome que em alguns anos afetaria toda aquela região.
A intimidade que se estabeleceu, desde o princípio, entre as comunidades de Antioquia e Jerusalém, acabou imprimindo um traço particular na teolo­gia da Igreja síria, que a acompanhou ao longo de toda sua longa história. A wfluência do pensamento judaico-cristão pautado na historicidade do ho­mem Jesus e na relevância das escrituras veterotestamentárias fez de Antioquia üm notável centro de defesa da ortodoxia do Evangelho, nos muitos mo­mentos em que novas e perigosas correntes doutrinárias pipocavam pela Igreja.
Segundo alguns autores de biografia apostólica, Pedro esteve entre as autoridades que cuidaram do treinamento e do desenvolvimento da Igreja de Antioquia em seus primórdios. Sobre esse tema, a figura de Inácio, bispo de Antioquia, assume grande importância, já que esse famoso autor e mártir patristico foi contemporâneo dos apóstolos.
Profundamente envolvido com a Igreja antiocana, Inácio fora seu bispo ao longo de quase toda a segunda metade do primeiro século. Sob sua dire­ção, aquela congregação — um dos celeiros do cristianismo primitivo no mundo gentílico — perseverou fielmente nos momentos mais difíceis, corno nos dias da perseguição de Domitianus em 95 A.D. Seu pastorado na cida­de só foi interrompido no início do segundo século, após seu aprisiona-mento durante o reinado de Trajano, que mandou executá-lo por volta de 107 A.D., entregando-o às feras durante os saturnais em Roma. Escreven­do acerca do ministério de Inácio em Antioquia, o historiador Eusébio de Cesaréia acabou acrescentando algo interessante sobre a passagem de Pedro na cidade síria (op. cit., p.120).

"Por este tempo floresceu Policarpo na Ásia, um íntimo discípulo dos após­tolos, que recebeu das mãos de testemunhas e servos do Senhor o epis-copado da Igreja que está em Esmirna. Na mesma época, Papias foi reconhecido como bispo da Igreja de Hierápolis; homem deveras capaci­tado em todo conhecimento e muito familiarizado com as Escrituras. Da mesma sorte, Inácio, que é celebrado por muitos até o presente dia como sucessor de Pedro em Antioquia, tornou-se o segundo a exercer o ofício episcopal naquele lugar."

Se o historiador patrístico estiver correto, Pedro foi o primeiro bispo de Antioquia, tendo legado sua primazia para Inácio, que conduziu a congrega­ção até o início do segundo século (embora outros autores primitivos men­cionem um certo Evodrius como o verdadeiro sucessor petrino). Essa possibilidade histórica que - se confirmada - traria ainda maiores embaraços à doutrina romana da sucessão apostólica, encontra no historiador Jean Danielou outro defensor (The Christian Centuries, p.50).

"Permanece verdadeiro o fato de que, se a Igreja de Antioquia não é real­mente petrina, tem muitos laços com este apóstolo. Sabemos que ele lá esteve numa data muito remota. Os escritos apócrifos petrinos eram muito populares em Antioquia, como informam Teófilo e Serápion. A 'Ascensão de Isaías' é o primeiro trabalho a mencionar o martírio de Pedro. Portanto, o cristianismo judaico de Antioquia aparece sempre representando a posição petrina. Percebemos igualmente os vínculos dessa comunidade com o setor fenício da Igreja, que era particularmente dependente de Pedro. Os mesmos laços foram encontrados em outras regiões que vieram a estar sob a influência do apóstolo, as quais estavam em comunicação com Antioquia.
Eusébio nos conta que a região do Ponto, e as vizinhas Bitínia, Capadóciae Calácia dependiam diretamente de Pedro. Outros fatos confirmam esta posição. A primeira epístola de Pedro foi endereçada aos cristãos dessa região.(...) O Ponto e a Capadócia constituíam extensões geográficas do norte da Síria, e foi exatamente nessa direção que a província se expandiu.”

Eruditos católicos, como Hugo Hoever, em seu livro Lives ofthe Saints, "ambém atestam o ministério do apóstolo Pedro em Antioquia (p. 82):

"Historiadores cristãos afirmam positivamente que São Pedro fundou a Sé de Antioquia, antes de dirigir-se a Roma. Antioquia era, então, a capital do Oriente. São Gregório, o Grande, atesta que o príncipe dos apóstolos foi bispo daquela cidade por sete anos."

A mesma posição é defendida por historiadores da Igreja copta, como ziz Atyia {A History ofEastern Christianity, p.172):

"Ademais, Eusébio confirma que a Igreja de Antioquia foi fundada por São Pedro, o qual se tornou seu primeiro bispo, antes de sua transferência para a sé romana. De acordo com a tradição, ele presidiu ali por sete anos, de 33 a 40 A.D., quando nomeou São Evódio como seu vigário antes de partir em direção oeste. Enquanto o círculo da pregação do Evan­gelho se expandia no sentido leste para Edessa, Nisibis e para a distante Malabar, com os apóstolos Tomé e Mar Addai (São Tadeu), a queda de Jerusalém em 70 A.D., apenas contribuiu para o aumentado número de cristãos que se dirigiam para Antioquia."

Certamente as datas apresentadas por Aziz Atyia para a presença de Pedro em Antioquia não podem ser consideradas dignas de crédito, já que Lucas deixa bem claro, ao longo dos doze primeiros capítulos de Atos, que Pedro permaneceu ministrando a Palavra nas imediações da Judéia e Samaria até a perseguição infligida por Agripa em 44 A.D., após a qual - e só então - deixou a Palestina visando outras regiões (At 12.17). Além do que, a origem da Igreja antiocana, tratada pelo evangelista em At 11.19-30, é por ele atribuída aos judeus dispersos pela perseguição suscitada por causa de Estevão, entre os quais Pedro não se encontrava. Nenhuma menção ao ministério de Pedro em Antioquia antes que lá chegassem Barnabé, Paulo e outros profetas de Jerusalém é, portanto, digna de crédito.
Mesmo que perdida na penumbra da história, a ocasião precisa do estabe--cimento de Pedro em Antioquia deve ter se dado ainda no princípio de seu mistério fora de Israel, portanto, a partir de 44 A.D. Paulo, que lá chegou s primeiros anos daquela congregação (At 11.25-26), escrevendo aos gaiatas, idencia não apenas o ministério de Pedro naquela cidade, como também a nstrangedora — porém necessária — repreensão que teve então de exercer bre o apóstolo (Gl 2.11-14).

"Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram afastou-se e, por fim, veio a apartar-se temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, ao ponto de o próprio Barnabé ter se deixa­do levar pela dissimulação deles. Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas na presença de todos: Se, sendo tu judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?"

Levando-se em consideração a possibilidade da Epístola aos Galatas ter sido escrita pouco antes do Concilio de Jerusalém (49-50 A.D.), podemos sugerir uma data para a presença de Pedro na sé antiocana entre os anos 44 e 50 A.D. Comentando acerca do deslize de Pedro em Antioquia, Everett Harisson completa (pp. cit., Vol.5, p.147).

"Esta é a terceira ocasião na qual Paulo entrou em contato com Pedro. A primeira vez ele simplesmente ficou conhecendo Pedro; na outra ele des­cobriu a unidade e igualdade que havia entre eles; desta vez ele foi leva­do a discordar dele e repreendê-lo.(...) Pedro afastou-se (dos irmãos gentios) gradualmente, conforme sugere o original, talvez se ausentando em uma refeição do dia, em duas no outro, e finalmente excluindo-se inteiramente.
O exemplo de Pedro influenciava os outros. O verbo dissimularam (dis­farçaram), geralmente traduzido para hipocrisia, significa uma falta de correspondência entre os atos externos ou o comportamento e o estado do coração.(...) No caso de Pedro, suas convicções internas eram perfei­tas, pois ele endossava a igualdade dos judeus na Igreja, mas sua conduta não correspondia às suas convicções."

Pode-se questionar as tradições acerca da fundação da Igreja antiocana por Pedro, ou ainda de ter sido ele o primeiro bispo ali, como antecessor de Inácio. Contudo, devemos ter como certa a influente presença do apóstolo naquela comunidade, ainda em seus primórdios. Experiências vividas por Pedro naquela Igreja — como a referida oposição de Paulo — possivelmente resultaram no maior amadurecimento de sua posição quanto ao trato com os gentios, influenciando positivamente suas posteriores missões entre eles.
Outra importante tradição relativa à vida pós-bíblica de Pedro diz res­peito a sua campanha missionária a Babilônia, na Mesopotâmia. A breve menção à cidade aparece no encerramento de sua primeira epístola, nas saudações finais a seus destinatários (1 Pe 5.13).
A controvérsia acerca da viagem de Pedro a Babilônia, onde o apóstolo teria pregado especialmente entre os judeus, merece uma abordagem m^1 cuidadosa. Muitos eruditos têm asseverado que o termo Babilônia present na epístola não passa de uma figura de linguagem usada pelo apóstolo para referir-se à cidade de Roma, já que a capital imperial ficou assim conhecida entre os cristãos primitivos. Os que pensam assim, citam como confirma­ção as menções posteriores de João também atribuídas a Roma, em Apocalipse 14.8;16.19;17.5;18.2,10. Em oposição a esse raciocínio, outros têm dito que João, como prisioneiro romano durante a escrita do Apocalipse, tinha razões para elaborar sua mensagem de maneira figurada, a fim de que esta passasse despercebida da censura romana. Os defensores do ministério petrino em Babilônia, sustentam que, como esse não era o caso de Pedro em Roma durante a composição da epístola, não haveria razões para o au­tor referir-se figuradamente ao local de origem de sua epístola.
O fato de Babilônia ter se tornado atraente aos apóstolos, por abrigar uma considerável colônia judaica desde 36 A.D., é questionado por aqueles que destacam a intervenção de Calígula em cerca de 41 A.D., quando teri­am sido dispersos os judeus babilônios, após hediondo massacre. Como até essa data Pedro provavelmente não havia deixado a Palestina, argumenta-se que Babilônia teria perdido sua atratividade como alvo evangelístico por ter sua colônia judaica aniquilada. Por outro lado, a não ser que saibamos qual a amplitude da repressão infligida por Calígula em Babilônia ou até que ponto os judeus dispersos não mais retornaram para lá após a morte do dés­pota (que se deu no mesmo ano), não podemos afirmar que a colônia judai­ca da cidade tenha realmente sido abolida naquela ocasião.
Outros ainda argumentam que Pedro poderia estar se referindo à comu­nidade de Babilônia no Egito, uma antiga colônia de refugiados assírios loca­lizada onde se encontra atualmente a grande metrópole do Cairo. Contra essa possibilidade, entretanto, está o fato de que tal localidade, em tempos apostólicos, havia sido reduzida a um pequeno posto militar. Ademais, não há qualquer apoio na tradição cristã de que Pedro algum dia tenha realiza­do campanhas missionárias por aquela região.
Talvez o mais forte argumento contra a presença de Pedro em Babilônia seja o próprio teor de sua primeira carta. São muitas as referências do autor às vicissitudes em função das perseguições contra os cristãos. E certo que a situação referida pelo apóstolo não diz respeito aos levantes que os judeus suscitaram contra a Igreja, mas às primeiras perseguições do estado romano, que começava a ver no cristianismo uma ameaça aos seus interesses. Como as datas da segunda perseguição, sob Domitianus e da terceira, sob Trajanus — respectivamente em 96 e 111 A.D. — são incompatíveis com a autoria da epístola, resta-nos a oposição suscitada pelo doentio Nero, em 64 A.D. O problema que temos nesse caso é que o autor dirige seu consolo e encorajamento às comunidades cristãs espalhadas pelas regiões da Ásia Me­nor, Ponto, Capadócia, Bitínia e Galácia (1 Pe 1.1), onde a perseguição de Nero — pelo menos oficialmente — não se fez sentir.
Existe ainda a hipótese de Pedro estar se referindo a algum possível levan­te localizado e de menor porte — sobre o qual a história silenciou — que teria atribulado os cristãos nessas partes do império, anteriormente à perseguição de Nero em Roma. Nesse caso, a presença de Pedro em Babilônia, quando da composição desta carta, não seria de todo improvável. De qualquer modo, a tradição das igrejas orientais não deixa dúvidas quanto à presença ministeri­al do apóstolo em Babilônia sobre o Eufrates.
Embora incomparavelmente mais humilde do que a suntuosa cidade dos dias de Nabucodonosor (séc. VII a.C), a Babilônia dos tempos apostólicos permanecia como um grande centro urbano e um importante entreposto nas rotas comerciais para o oriente. A Babilônia era uma das grandes cidades localizadas imediatamente ao oriente de Antioquia, perfeitamente acessível àqueles que seguiam pela rota comercial romana. Esse é um detalhe impor­tante, na medida em que Antioquia da Síria pode ter sido a cidade a partir da qual Pedro rumou no sentido leste.
Mesmo que a colônia judaica de Babilônia - suposto alvo de Pedro - tenha sido reduzida durante o massacre de Calígula, esse quadro pode ter sido facilmen­te revertido, já que outras regiões próximas da cidade, como Elão, Partia e Média - com as quais a Babilônia mantinha laços comerciais - também possuíam signi­ficativa presença de judeus e de prosélitos seus (At 2.9), o que poderia facilitar o repovoamento judaico da cidade. E digno de nota o fato de que ainda hoje existem colônias primitivas de judeus no Iraque, onde se situava a antiga Babilônia.
Portanto, se Pedro orientou seu apostolado para alcançar primeiramente os da circuncisão (Gl 2.9) e as regiões a leste da Palestina estavam povoadas de colônias judaicas, é aceitável que o apóstolo tenha exercido, por algum tempo, ministério em Babilônia e de lá tenha dirigido sua epístola aos cris­tãos da Ásia Menor e adjacências. Não seria seguro tentar definir datas para o suposto ministério petrino em Babilônia. Entretanto, as menções que o au­tor faz às perseguições em sua primeira epístola, nos sugerem um período próximo de sua partida para Roma, ou seja, algo em torno de 50-60 A-D-
Antes de focalizarmos o extenso trabalho de Pedro em Roma, devemos considerar, ainda, outro lendário paradeiro do apóstolo em suas jornadas evangelísticas: a Britânia, ou Inglaterra.
Quando tratarmos da biografia de Simão Zelote, comentamos as condi-es vigentes na Britânia dos tempos apostólicos. Embora a narrativa de úlio César tenha pintado um quadro primitivo dos povos daquela região, jabemos hoje que essa não era senão a visão tendenciosa de seus conquista­dores. Afinal, como um povo tão selvagem poderia oferecer a mais longa e tenaz resistência jamais encontrada pelos romanos? Alguns afirmam que as femotas civilizações britânicas já existiam desde os tempos dos fenícios, com os quais, segundo se crê, mantiveram intercâmbio comercial.
Já devidamente colonizada pelos romanos nos dias apostólicos, o sul da Britânia era, sem dúvida, uma região que poderia ter despertado interesse por parte de muitos missionários cristãos, entre os quais os próprios após­tolos. Os muitos relatos tradicionais sobre as missões de Simão Zelote e José de Arimatéia são prova disso.
George Jowett, em sua obra The Drama ofthe Lost Disciples, sugere que Pedro encontrava-se em Roma durante o edito de Cláudio que expulsou os judeus da capital imperial em 50 A.D. Como outros conterrâneos seus que de lá foram banidos, Pedro teria se refugiado, por algum tempo na distante Britânia, onde estabelecera seu apostolado. Isso explicaria — segundo Jowett - a omissão de Paulo ao nome do apóstolo em sua Epístola aos Romanos, escrita em mais ou menos 56 A.D.
Para Jowett, Pedro teria evangelizado a Britânia durante o turbulento pe­ríodo das guerras de resistência contra Roma, chefiadas pelo rei bretão Caratacus. Com a derrota para o general romano Ostorius Scapula, em 51 v.D., Caratacus tentou debalde refugiar-se entre os nativos do norte do Ipaís, os quais acabaram por entregá-lo aos romanos, por ordem da rainha -artimandua, aliada dos conquistadores.
Segundo o historiador Tacitus, após sua captura, Caratacus foi conduzido corno prisioneiro a Roma, onde acabou atraindo a simpatia do imperador Claudius, que lhe concedeu clemência e lhe permitiu terminar em paz seus dias na capital imperial.
Lembrando a tradição, Jowett afirma que o apóstolo, durante seu suposto período de exílio na Britânia, teria se aproximado da família real de Caratacus. Anos depois, ao retornar a Roma teria tido, então, livre acesso ao Palatium Britannicum, onde a nobre família britânica dos Pudens terminou seus dias. Segundo as mesmas fontes citadas pelo autor, os filhos de Cláudia e Rufus Pudens foram criados aos pés de Pedro e Paulo em Roma, nos anteriores à execução dos apóstolos sob Nero.
Uma possível prova arqueológica da estada de Pedro na Britânia pode ser a pequena lápide de pedra bruta descoberta em Whithom, que traz a inscrição Locvs Sancti Petri Apvstoli, ou seja, o local de São Pedro, o apóstolo. Para comen­taristas petrinos como Dean Stanley, a lápide teria sido produzida em alusão ao sítio onde o apóstolo teria sido divinamente avisado sobre seu iminente martí­rio, conforme 2 Pe 1.14. A citada revelação teria ocorrido — segundo Stanley -durante a última visita de Pedro à Britânia, pouco antes de seu retorno a Roma no local onde mais tarde foi erigida a antiga Igreja de Lambedr.
De fato, as lendas falam de igrejas britânicas dedicadas ao apóstolo quase tão antigas quanto o próprio cristianismo. Diz-se que o primeiro rei bretão a consagrar a Pedro uma Igreja foi Lucius, descendente de Arviragus (identifi­cado por alguns com Caratacus), que também teria decretado o cristianismo como religião oficial da região de Winchester em 156 A.D. O santuário teria sido terminado em 176 A.D.
Em suas viagens com destino à Britânia, Pedro, segundo outras lendas, teria também ministrado na antiga Gália (atual França), que se situava a meio cami­nho. Conta-nos Jowett que, naquela região, Pedro pregou o Evangelho no templo rochoso dos druidas gauleses, conhecido como Le Grotte des Druides, sobre o qual foi construída posteriormente a mais antiga catedral da França.
Mas não são apenas os autores mais recentes que relacionam o apostolado de Pedro às regiões da Britânia e da Gália. O conteúdo da O Ensino dos Apósto­los nos mostra que essa tradição já era cultivada em fins do segundo século.

"A cidade de Roma, assim como toda a Itália, a Espanha, a Britânia e a Gália e todos os demais termos ao redor delas, receberam a ordenação apostólica do sacerdócio de Simão Cefas, que para lá se dirigiu desde Antioquia, sendo o líder e guia da Igreja que fundou naquelas regiões."

Conquanto as versões sobre o apostolado pós-bíblico de Pedro na Gália e na Britânia careçam de maior historicidade, não há - como vimos - razoes suficientemente fortes para duvidarmos da presença de algum dos apóstolos como Simão Pedro, Simão Zelote e Filipe nessas localidades, sobretudo em função dos vínculos comerciais e culturais que elas mantinham com o res­tante do império durante os primórdios da era cristã.

O ministério e a execução de Pedro em Roma
Não há dúvida quanto a permanência de Pedro na capital imperial, du­rante os últimos anos de sua vida. Embora o Novo Testamento não deixe qualquer indício que prove essa possibilidade, muitos autores da chamada era patrística registram que o apóstolo não apenas passou ali a derradeira etapa de seu ministério, como também ali entregou sua vida em testemu­nho de sua fé.
Estes são alguns exemplos dos testemunhos históricos que atestam a pre­sença do apóstolo em Roma.

"Mateus, pois, lançou entre os hebreus um Evangelho escrito em sua própria língua, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma, estabe­lecendo os fundamentos da Igreja."
Irineu de Lyon (189A.D.), Contra Heresias 3,1-1

"Está registrado que Paulo foi decapitado na própria Roma e Pedro, da mesma sorte, foi crucificado durante o reino [do imperador Nero]. A nar­rativa é confirmada pela presença dos nomes de Pedro e Paulo nos cemi­térios daquele lugar, os quais permanecem até os dias de hoje. E também confirmada pelo intrépido Gaius, que viveu nos dias de Zefirinus, bispo de Roma."
Eusébio de Cesaréia (312 A.D.), História Eclesiástica 2.25.5

"As circunstâncias que ocasionaram... [a escrita] do Evangelho de Marcos são estas: Quando Pedro pregou, pelo Espírito, o Evangelho publicamente em Roma, muitos dos presentes requisitaram que Marcos, que havia sido por muito tempo seu seguidor e que se recordava de seus dizeres, escre­vesse tudo aquilo que o apóstolo havia proclamado."
Clemente de Alexandria (200 A. D. - citado em História Eclesiástica 6,14.1)

"Pedro, o primeiro escolhido dentre os apóstolos, tendo sido freqüente­mente arrestado, lançado em prisões e tratado com ignomínia, foi, por fim, crucificado em Roma."
Pedro de Alexandria (306 A.D.), Penitências, Cânon 9

Poderíamos, ainda, acrescentar a esses relatos nomes como os deTertuliano de Cartago, Cirilo de Jerusalém, Epifânio de Salamina, Ambrósio de Milão, Jerônimo de Belém, Agostinho de Hipona e outros tantos vultos do cristia­nismo primitivo. Mas apenas seria uma longa e cansativa lista de citações.
Se os textos resultantes desses autores patrísticos não respondem a muitas erguntas ligadas ao estabelecimento do episcopado de Pedro em Roma, eixam-nos, ao menos, a certeza de que a presença do apóstolo na capital constituía um ponto pacífico entre os teólogos mais expressivos do período pós-apostólico.
Por outro lado, atribuir a Pedro o pioneirismo na evangelização daqUe] cidade, como fizeram alguns desses Pais da Igreja (dentre os quais Irineu d Lyon) é uma afirmação assaz improvável, tanto histórica como biblicarnen te. Isso porque é impossível precisarmos como e quando o Evangelho atin­giu Roma. Sabemos apenas que o fez ainda muito cedo no período apostólico quando muitos dos doze ainda permaneciam na Judéia.
Como capital e maior centro urbano daquela época, para Roma fluíam miríades de viajantes e mercadores vindos das mais distantes regiões do impé­rio, entre as quais a própria Palestina. Em At 2.10 somos informados que forasteiros romanos estavam entre aqueles que presenciaram as maravilhas do derramamento do Espírito sobre os apóstolos durante o Pentecostes. Muitos deles certamente se contavam entre os milhares que receberam a Cristo nas pregações de Pedro e dos demais apóstolos em Jerusalém naquele momento. Não é, portanto, crível que vários desses judeus habitantes de Roma, presentes em Jerusalém no Pentecostes, tenham levado consigo a semente do Evangelho ao retornarem à capital, tendo lá imediatamente disseminado a Palavra da Fé?
Caius Suetonius nos informa que, em cerca de 50 A.D., o imperador Claudius promulgou um édito que bania os judeus da capital do império. A causa era — segundo o historiador — os crescentes distúrbios entre eles, em fun­ção de alguns proclamarem a doutrina de um certo Chrestos. Os judeus-cristãos Áquila e Priscila, banidos de Roma nessa data e que se associaram a Paulo em Corinto (At 18.1-2), são uma evidência de que o historiador se referia não a Chrestos, mas sim a Christus, e tratava de algum possível tumulto causado pela reação dos judeus tradicionais à pregação de seus conterrâneos cristãos. Pela magnitude da providência tomada pelo imperador é presumível que o tumulto tenha sido de grande proporção, daí crermos na existência de um bom número de judeus cristãos na cidade já em 50 A.D.
Eusébio de Cesaréia escreveu em sua História Eclesiástica (11,14,61) que Pedro esteve em Roma entre 44 e 50 A.D., antes da expulsão decretada por Claudius. A data coincide com o silêncio de Atos sobre o apóstolo, após a morte de Tiago Maior em Jerusalém. Entretanto, é pouco provável que Lucas omitisse, em sua narrativa de Atos, a missão petrina na maior cidade do mundo, se ela realmente tivesse ocorrido naquele momento da Igreja. Alem disso, como explicar o silêncio de Paulo no tocante a Pedro, em sua epístola aos romanos escrita por volta de 57 A.D.?
A tentativa feita por Eusébio de ligar o nome de Pedro à fundação da se romana é, para historiadores como Justo Gonzaléz, fruto da capitulação desse erudito - tido por muitos como débil - diante da pompa imperial de Constantino, chamado por ele de bispo dos bispos. A conversão do imperador de quem Eusébio era amigo — foi para o escritor um milagre semelhante aos do Livro de Êxodo. Portanto, não é de se admirar que o historiador tenha sido tendencioso em sua análise das origens do bispado romano.
Para McBirnie, os anos entre a saída de Pedro de Jerusalém (44 A.D.) e a expulsão dos judeus de Roma (50 A.D.) são a única data provável para o trabalho do apóstolo em Babilônia, se é que ele chegou a acontecer. Deve­mos considerar ainda esse período de tempo para encaixarmos seu episcopa-do em Antioquia que, pela proximidade com a Palestina, deve ter sido o ,'primeiro do apóstolo em suas missões fora de Israel. Seria mais razoável, portanto, considerarmos uma data posterior para a chegada de Pedro à capi­tal do império. Talvez algo próximo de 60 A.D. fosse uma boa sugestão. Essa data, pelo menos, deixaria um espaço de tempo razoável para muitas das tradições ligando o apóstolo a lugares distantes como Antioquia, Babilônia, Corinto, Gália e Britânia.
William Smith, em seu. A Dictionary ofthe Bible (p.504) sugere que Pedro não chegou a Roma senão no último ano de sua vida, ou seja, entre 65 e 67 A.D. Doug Goins por sua vez, propõe em seu artigo Salvation and Suffering que o velho apóstolo teria atingido a capital imperial em cerca de 63 A.D., vindo da Ásia Menor. A esses cristãos da Ásia ele, anos depois, dirigiria de Roma sua primeira epístola. A data sugerida por Goins coloca Pedro atingindo Roma praticamente às vésperas da perseguição infligida por Nero.
Não é difícil entender porque Roma foi alvo das missões de Pedro. Como dissemos, a cidade era a capital do mundo ocidental. Segundo William Smith, sua população nos tempos apostólicos passava de um milhão de habitantes, dos quais quase a metade formada por escravos. Parte da outra metade era formada por miseráveis que habitavam os arredores do centro, onde se concen­trava a elite local, conhecida por seus hábitos extravagantes e libertinos.
A população judaica de Roma já estava presente na cidade pelo menos desde os tempos da conquista da Palestina por Pompeu em 63 a.C., quando Muitos judeus foram para lá levados como escravos. Pouco depois Júlio César, ;tium rompante de misericórdia, tornou livres muitos deles. Semelhante be­nevolência foi também apresentada pelos imperadores Augusto e Tibério, este especialmente no final de seu reinado.
A tolerância para com os judeus favoreceu o rápido crescimento dessa colônia na cidade. Ao tempo dos apóstolos, a presença judaica na capital imperial já somava cerca de cinqüenta mil pessoas, além de um grande núme ro de prosélitos dentre os gentios. Isso tornava a cidade atraente para Pedro uma vez que seu apostolado é apresentado no Novo Testamento como orien tado particularmente aos da circuncisão (Gl 2.8-9). Da mesma sorte, talvez a maciça presença judaica em Roma explique porque naquela congregação, a princípio, predominava o uso da língua grega e não latina, como mostra a literatura da Igreja romana primitiva.

Roma nos tempos apostólicos.

Não se sabe muito sobre o ministério de Pedro em Roma, exceto algumas I lendas, muitas das quais fantasiosas. Dentre as mais curiosas, sem dúvida está a |que narra a oposição do apóstolo aos encantos de Simão Mago (At 8.9,13,18-f 24) que, de acordo com o relato, teria partido da Samaria para a capital impeirial, onde lograra com seus feitiços a graça dos imperadores Claudius e Nero. i Segundo o relato, Pedro seguiu seu rastro até Roma, onde —junto de Paulo — confrontou o místico em vários desafios públicos diante do imperador. Como I última tentativa para reconquistar a graça do soberano, o feiticeiro propôs lan­çar-se ao espaço e voar diante dos olhos de uma grande multidão. O bruxo teria conseguido levar adiante seu prodígio, até o momento em que Pedro teria caído de joelhos e clamado pelo fim daquele engodo satânico. Respondida, a súplica do apóstolo fez com que o mágico fosse precipitado desde as alturas, esfacelando-se diante da estupefata multidão.
Os relatos de uma suposta viagem de Simão, o Mago, a Roma encon­tram-se também registrados nos escritos de vultos do cristianismo primitivo como Justino Mártir, cuja competência não pode ser questionada. O autor patrístico, escrevendo ao imperador Antoninus Pius, assim comenta a passa­gem do feiticeiro pela capital do império {Primeira Apologia, XXVI):

"(...) após a ascensão de Cristo aos céus, os demônios enviaram alguns homens que se chamavam a si mesmos deuses. Os tais eram não apenas disputados entre vós, como também tidos como dignos de toda honra. Havia um samaritano, Simão, nativo da aldeia de Citto, o qual durante o reino de Claudius César, em vossa cidade real de Roma, realizou sinais poderosos de magia, pela virtude da arte demoníaca que nele operava. Foi considerado um deus e como tal foi honrado entre vós com uma estátua, erigida sobre o rio Tibre, entre as duas pontes, e que trazia a seguinte inscrição na língua romana: 'Simoni Deo Sancto'."

O testemunho de Justino sobre a presença de Simão Mago em Roma pode ser um indício de que as lendas posteriores que relatam as disputas entre Pedro e o mago na cidade são apenas distorções de um episódio ver­dadeiro que envolveu ambos personagens bíblicos.
Alguns textos antigos revelam outra possível atividade de Pedro durante seu pastorado em Roma: a preparação e o envio de missionários. Segundo alguns desses relatos, o velho apóstolo exerceu esse importante ministério durante seus últimos anos de vida na capital romana, de onde teria efetivamente enviado discípulos a várias regiões do império, no intuito de dissemi­nar a mensagem do Evangelho.
Numa dessas narrativas encontramos a interessante história de três jovens cristãos — Eucarius, Valerius e Maternus — pupilos de Pedro em Roma, de onde foram enviados em missão evangelística à Germânia (atual Alemanha). Segun­do a lenda, Eucarius foi sagrado bispo, enquanto Valerius e Maternus seus assistentes. A nota mais curiosa desse relato é o fato de Maternus ser apresenta­do como o filho único da viúva de Naim na Galiléia (Lc 7.11-17), que fora ressuscitado por Cristo. Ele teria se convertido e, mais tarde, seguido para Roma onde amadurecera aos pés do velho apóstolo. A lenda é bem clara ao frisar que, embora tenha tido tão destacada experiência com o Senhor, Maternus (como o mancebo era chamado em latim) não gozava de qualquer privilégio dentre os outros missionários enviados por Pedro àquela região. Os nomes desses santos são ligados ao surgimento das igrejas de Treverorum Augusta (Trier) e Colônia Claudia Ara Agrippinensium (Colônia), na antiga Germânia, região conquista­da por Roma cinco décadas antes de Cristo. Segundo a lenda, Maternus deci­diu embrenhar-se sozinho território adentro, levando o Evangelho até a distante região deTongern, ao norte da Germânia.
Conquanto enobreça a causa apostólica, a tradição sobre os três enviados de Pedro à Germânia merece uma abordagem mais cuidadosa. Isso porque em 313 A.D. os anais da história eclesiástica registram que um bispo de nome Maternus foi enviado pelo imperador Constantino às mesmas cidades germânicas, com o propósito de fundar ali congregações cristãs e combater a idolatria local.
Mas, se por um lado, a lenda que associa o nome do missionário Maternus a Pedro pode representar a corrupção de um evento evangelístico só ocorrido duzentos e cinqüenta anos após o período apostólico, sob Constantino, e também difícil imaginarmos que o cristianismo tenha sido tão lento em atingir aquela importante região do império. Colônia, por exemplo, já exis­tia como cidade — embora muito pequena — desde pelo menos 38 a.O, quando fora conquistada aos ubiers e rebatizada Opidum Ubiorum. Por in­fluência de Agripina, esposa de Claudius César - que ali nascera - a cidade passou a se chamar Colônia Claudia Ara Agrippinensium em 50 A.D. Dezenove anos depois, Colônia tornou-se o centro administrativo das províncias im­periais da Germânia, Gália, Hispânia e Britânia, permanecendo assim por quase duzentos anos. Treverorum Augusta (Trier), por sua vez, também se destacou, desde os tempos apostólicos, como centro estratégico setentrional do império. Residência oficial do praefectuspretorio, a cidade abrigava vários oficiais da corte imperial, com suas respectivas famílias. Em 326 A.D., Constantino mandou construir ali um complexo santuário cristão, sobre o qual mais tarde foi erigida a catedral gótica de Nossa Senhora (Liebfrauenkirche). Trier, com sua importante escola teológica imperial, foi o berço do grande líder eclesiástico Ambrósio de Milão e o local onde se refugiaram, por algum tempo, grandes vultos da era patrística como Ataná-sio de Alexandria e Jerônimo de Belém.
Ambas cidades, como importantes centros culturais do império, acaba­ram celebrizando-se também pela idolatria e pelo culto pagão, tradicionais aos romanos. E pouco provável, portanto, que os apóstolos — ou seus discí­pulos imediatos — tenham negligenciado, em suas campanhas evangelísticas, uma região de tamanho peso estratégico para o cristianismo. Ademais, sabe-se que a fé cristã — embora proscrita — alcançou grande número de legioná-rios ainda no primeiro século. Esses soldados serviam em diversas regiões do império, por onde - quais missionários infiltrados no exército romano -espalhavam a semente da fé, muitas vezes sob pena da própria vida. Havia legiões estacionadas na Germânia, da qual Colônia tornara-se o principal posto militar. Por tudo isso, soa um tanto tardio o ano de 210 A.D. — proposto por alguns historiadores — como data da fundação da primeira con­gregação cristã em Colônia. Talvez o relato sobre o envio, por Pedro, do missionário Maternus à Germânia não passe de mera ficção, como insistem alguns. Mesmo assim, é possível que essa lenda represente a corruptela de algum evento envolvendo outros missionários para lá enviados pelo após­tolo, cujos nomes se perderam na História.
Segundo a tradição primitiva, o ministério de Pedro em Roma destacou-se também por sua colaboração literária. Além de suas duas epístolas gerais (a segunda das quais de autoria questionada pelos estudiosos), Pedro pode ter sido também o mentor do Evangelho de Marcos. O argumento mais signi­ficativo sobre essa possibilidade vem de Papias, bispo de Hierápolis (c. 130 A.D.). Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica (3-39.15), registra o comentário do autor patrístico quanto a origem do Evangelho de Marcos.

"E o presbítero (João) costumava dizer isto: 'Marcos tornou-se intérprete de Pedro e escreveu com exatidão tudo aquilo de que se lembrava sobre as coisas ditas ou feitas pelo Senhor, embora não de modo ordenado. Pois ele não tinha ouvido o Senhor nem o havia seguido. Porém, mais tarde -como eu disse - seguiu a Pedro, que costumava ensinar os pronuncia­mentos do Senhor, conforme se tornava necessário. Assim, Marcos nada fez de errado ao colocar por escrito esses fatos isolados à medida que lembrava deles. De uma coisa ele cuidou: não deixar de fora nada do que ouvira e não fazer nenhuma afirmação falsa'."

O registro de Papias assume maior relevância na medida em que o apóstolo João é citado como fonte do relato. Irineu de Lyon, por sua vez, afirma que Marcos escreveu seu Evangelho logo após o martírio de Pedro em Roma, entre 67 e 69 A.D. Os autores alexandrinos Clemente e Orígenes, entretanto, dizem que o evangelista produziu o texto enquanto Pedro ainda vivia e com a devida ratificação do apóstolo, talvez entre 64 e 68 A.D. E possível que ambas as narrativas sejam complementares, ou seja, Marcos poderia ter começado seu texto enquanto Pedro ainda vivia e tê-lo terminado após a morte do apóstolo em Roma. Mas, é difícil crer que o escrito seja posterior a 70 A.D., já que não encontramos nele qualquer indício sobre a destruição de Jerusalém, ocorrida naquele ano. De qualquer modo, faz sentido pensarmos no jovem Marcos, um cristão romano, servindo como tradutor para os sermões de Pedro em Roma, pois o apóstolo — ao contrário de Paulo — não devia dominar o latim, necessário para uma efetiva comunicação do Evangelho na cidade.
Outros autores patrísticos também atestam a participação de Pedro na elaboração do Evangelho de Marcos. É o caso de Pseudo-Barnabé, Hermas, Justino Mártir, Tertuliano de Cartago, Cirilo de Jerusalém, Jerônimo de Belém e Agostinho de Hipona. Assim também comentaristas modernos como Ashbury Smith, que enfatiza o teor petrino do Evangelho de Marcos (The Ttuelve Christ Chose, p.21,22).

"Crê-se que Marcos serviu como tradutor de Pedro quando este pregou em Roma. Enquanto Pedro repetidamente pregava acerca de suas experi­ências com Jesus, Marcos interpretava-o, vez após vez, para vários grupos de cristãos. Essa freqüente repetição conferiu a Marcos uma memória literal das reminiscências de Pedro. Após a morte do apóstolo, Marcos, conscientizando-se do valor dos relatos colhidos de Pedro, registrou tudo de que se lembrava, no documento que se tornou conhecido como o primeiro dos Evangelhos. Mateus e Lucas obviamente serviram-se do Evan­gelho de Marcos em seus escritos sobre a vida de Jesus. Destarte, Pedro é a fonte de nosso mais antigo Evangelho, tendo largamente suprido o pri­meiro registro escrito de nosso Senhor. Se essa reconstrução de eventos estiver certa, então o Evangelho de Marcos pode ser considerado a lem­brança pessoal de Pedro sobre sua vida com Jesus e, como tal, seria uma das maiores contribuições de Pedro à Igreja."

Mas o que nos garante que o autor do primeiro Evangelho, que Papias diz ser o intérprete (gr. hermeneutes) de Pedro é o mesmo João Marcos de Atos
(At 12.12-25, 13.5,13, 15.37) e das epístolas (Cl 4.10, 2 Tm 4.11, Fm 24, lPe 5.13)? Bem, de fato, esse é um tema que suscita outro exaustivo debate histórico, que desviaria nossa atenção do tema principal. De qualquer modo, é importante lembrarmos que, se a autoria da obra se devesse a qualquer outro escritor homônimo de Marcos, sua menção na abertura do Evangelho não ocorreria sem uma identificação mais detalhada. Além disso, Pedro, ao encerrar sua primeira epístola, também menciona o personagem neotestamentário, chamando-o de filho, o que poderia sugerir inclusive a participação do apóstolo na conversão de Marcos.
Por fim, D. A. Carson em sua Introdução ao Novo Testamento (p.106), apresenta alguns vestígios literários que poderiam consolidar a suspeita so­bre a influência petrina no texto de Marcos.

"Por outro lado, existem fatores que apontam para o relacionamento de Pedro com o Evangelho [de Marcos]. Afirma-se que as descrições intensas e detalhadas do segundo Evangelho são indícios de uma testemunha ocular. Outro aspecto particular desse Evangelho é a forma especialmente crítica como os Doze são apresentados. Embora seja encontrada em todos os quatro Evangelhos, a descrição dos discípulos como covardes, espiritual­mente cegos e duros de coração é particularmente vivida em Marcos. Sus­tenta-se que isso indique um ponto de vista eminentemente apostólico, pois apenas um apóstolo teria autoridade para criticar tão duramente os doze. Dois outros fatores sugerem que esse testemunho tenha sido de Pedro. Em primeiro lugar, Pedro aparece com destaque em Marcos e a maneira mais natural de explicar algumas dessas referências é creditá-las ao próprio Pedro (e.g., as referências a Pedro 'lembrar-se' [Mc 11.21 ;14.72]). Em segundo lugar, C. H. Dodd assinala que o Evangelho de Marcos segue um esquema muito parecido com o encontrado no querigma apresentado por Pedro, que recordava os acontecimentos principais da vida de Jesus para fins evangelísticos, encontrado em At 10.36-41."

Não se sabe com clareza quanto tempo Pedro esteve ministrando em Roma. Mas, como vimos, é pouco provável que sua chegada ali tenha se dado antes de 55 A.D. Isto provavelmente o situaria na cidade durante o caos que se instaurou nos últimos anos do reinado de Nero. A tradição sugere fortemente que, em Roma, o apóstolo foi vítima de dura perseguição por parte das autoridades locais, durante o regime daquele imperador. Essa perse­guição teria se dado, primeiramente, com seu aprisionamento e, algum tem­po depois, com sua crucificação, como veremos mais adiante. McBirnie reconhece a procedência da tradição que vê Roma como o local do martírio de Pedro (op. cit., p.64).

"Por fim, é importante registrar que em toda a narrativa da antiga literatura cristã há um completo silêncio acerca da morte de Pedro. Certamente não dispomos de qualquer referência que aponte outro lugar além de Roma que pudesse ser considerado como palco de sua morte. A favor dessa cidade, existem importantes tradições que afirmam que o apóstolo realmente expirou ali. Nos séculos dois e três, quando algumas igrejas começaram sua rivalidade com Roma, nunca ocorreu a qualquer uma delas contestar o clamor romano de ter sido o palco do martírio de Pedro."

Durante o período de 64 a 68 A.D., Roma tornou-se um local particular­mente difícil para se expressar a fé cristã. Ali, sob as ordens de Nero, estourou a primeira perseguição do estado romano contra o cristianismo, justamente aquela que, segundo a tradição, ceifaria a vida de Pedro.
Nascido em Antiumem 37A.D., Lucius Domitius Nero Claudius subiu ao trono em 54 A.D., sucedendo a Claudius César. Filho de Domitius Ahenobarbus e Agripina (irmã de Calígula), Nero foi adotado pelo impera­dor Claudius quando este casou-se com Agripina, sua sobrinha, após elimi­nar Messalina, sua terceira esposa.
Como outros imperadores, o inteligente e bem instruído Nero marcou seus primeiros anos de reinado com sábias medidas. Reconhecidamente bom administrador, o jovem César tornou-se popular por algumas decisões humanitárias, como as que suavizaram a sorte dos escravos e introduziram mais justiça aos libertos e devedores. No entanto, poucos anos foram ne­cessários para que seus maus instintos — favorecidos por uma personalidade complexa e por um incontrolável sentimento de onipotência — aflorassem na mais abjeta crueldade. Sua extensa lista de assassínios começa já em 55 A.D., quando o déspota, preocupado com os direitos de seu meio-irmão Britanicus, envenena-o. Em 59 A.D., farto das intrigas de sua mãe, Agripina II, manda executá-la, sendo por isso felicitado pelo débil senado. Burrus, o chefe da guarda pretoriana, é morto em 62 A.D., mesmo ano em que Nero manda executar sua primeira esposa Otávia, filha de Claudius. Seus assassi­natos são incrementados a partir de 65 A.D., quando um complô contra seu governo é desbaratado. Nero elimina, induzindo ao suicídio, vários senado­res e figuras públicas como o general Gnaeus Corbulo e seu antigo tutor, o pensador Sêneca. A insanidade, que começava a minar seu prestígio, parecia se apoderar definitivamente do jovem monarca e os cristãos e judeus de Roma, em breve, pagariam um alto preço por isso.
Em 18 de julho de 64 A.D., a capital do Império arde em chamas. O incêndio prolongou-se por quase uma semana, voltando a se acender em alguns pontos da cidade durante três outros dias. Dos quatorze bairros de Roma, dez foram devastados pelo fogo. Aparentemente, o imperador se en­contrava em sua residência em Antium, no momento em que a tragédia se principiou. Porém, nem mesmo essa evidência foi suficiente para aplacar a desconfiança da população romana, que via em seu soberano alguém há muito desprovido da sanidade mental. Diante desse quadro, surgiram rumores de que, enquanto a cidade se consumia, Nero encontrava-se no cimo do Monte Palatino, entoando com sua lira o hino da destruição de Tróia. Tal testemu­nho evoluiu rapidamente para a suspeita de que o próprio imperador engen­drara o incêndio, numa louca tentativa de buscar inspiração para suas medíocres poesias ou, ainda, para a execução de seus planos de reconstrução da área central de Roma, cuja arquitetura considerava artisticamente pobre.
A fim de apaziguar a fúria de uma população que clamava por justiça, Nero astutamente fez recair a culpa da tragédia sobre cristãos e judeus que, curiosa­mente, habitavam dois dos quatro bairros não atingidos pelas chamas. A calú­nia de Nero contra os cristãos, somada aos rumores maliciosos que já havia contra eles, compuseram a atmosfera perfeita para a deflagração de um período de terror para a numerosa Igreja da capital romana. É compreensível o fato de cristãos e judeus serem associados em situações como essa. Até aquele momen­to da história, a maior parte dos pagãos ainda considerava o cristianismo apenas uma variante do judaísmo e não uma religião em separado.
O historiador romano Tacitus, que parecia crer no caráter acidental do incêndio e que provavelmente estava em Roma durante o sinistro, comenta a fama dos cristãos e o desenrolar daquela terrível perseguição encabeçada por Nero (Anais 15.44).

"(...) Nero fez aparecer como culpados os cristãos, uma gente odiada por todos por suas abominações, e os castigou com mui refinada crueldade. Cristo, de quem tomam o nome, foi executado por Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério. Detida por um instante, essa superstição daninha apareceu de novo, não somente najudéia, onde estava a raiz do mal, mas também em Roma, esse lugar onde se narra e encontram seguidores de todas as coisas atrozes e abomináveis que chegam de todos os rincões do mundo. Portanto, primeiro foram presos os que confessavam [ser cristãos] e, com base nas provas que eles deram, foi condenada uma grande mul­tidão, ainda que não os condenaram tanto pelo incêndio, mas sim pelo seu ódio à raça humana.(...) Além de matá-los, fê-los servir de diversão para o público. Vestiu-os em peles de animais para que os cachorros os matassem a dentadas. Outros foram crucificados. E a outros acendeu-lhes fogo ao cair da noite, para que a iluminassem."

É possível, contudo, que Nero não tenha concebido sozinho o plano de supliciar os numerosos cristãos da capital. O professor de direito e historiador Emanuel de Moraes conta-nos sobre a suposta influência que a segunda espo­sa do monarca, Popéia Sabina, teria tido nessa decisão que tanto fez sofrer a Igreja romana (A Origem e as Transformações do Estado, livro 2, p. 194):

"Como se sabe, Nero repudiou-a [Otávia] sob pretexto de esterilidade, insuflado por Popéia Sabina, a quem - com o apoio do historiador judeu Flavius Josefo, que freqüentou a corte nessa época - alguns apontam como uma prosélita do judaísmo, (sendo também anotado, como um dos prováveis motivos da perseguição que sofriam os cristãos [de Roma], o ódio que Popéia Sabina manifestava por S. Paulo.)"

A possibilidade da persuasão de Popéia sobre Nero no que tange à persegui­ção aos cristãos de Roma não deve ser desconsiderada, dado tanto o caráter pusilânime do jovem César como a forte influência que ela demonstrava ter sobre ele desde o tempo em que era apenas sua amante. Se Popéia de fato convertera-se ao judaísmo (o que pode ser questionado pela dissolução em que, supostamente, permane­ceu até sua morte em 66 A.D.), tinha razões sufici­entes para desgostar do crescimento vertiginoso que o Evangelho alcança­va em Roma, fomentado em especial pela pregação de homens como Pedro e Paulo.
Mas deixemos de lado as raízes da perse­guição à Igreja romana e voltemos ao martírio de Pedro. Por razões que desconhecemos, o após­tolo parece não ter sofri­do execução sumária como muitos outros fi­éis, sobre cuja aflição es­creveu Tacitus.      Ao contrário, várias tradi ções dão conta de que o apóstolo foi aprisionado por algum tempo na terrí­vel masmorra de Mamertina, um das mais abjetas construções concebidas pela bestialidade de Roma. Ali, segundo historiadores, centenas de prisionei­ros perderam suas vidas sob as mais desumanas e execráveis condições já ima­ginadas.

A prisão de Mamertina é descrita como uma cela composta de duas câ­maras superpostas, cortadas na rocha maciça, nas quais só se podia entrar através de uma abertura no teto. A câmara inferior era chamada "a câmara da morte", por ser absolutamente fétida e imersa na mais intensa escuridão. Diz-se que os gases oriundos dos detritos ali acumulados eram fatais à maior parte dos prisioneiros. Os poucos que a eles resistiam normalmente pereci­am ante o frio atroz que reinava no calabouço. As profundezas aterradoras de Mamertina não puderam ser suportadas nem mesmo por seus mais valentes prisioneiros, como o chefe gauiês Vercingetorix e o africano Jugurta. Conta a lenda que, nesse poço mortal, onde inúmeros cristãos conheceram o martí­rio, Pedro sobreviveu miraculosamente por cerca de nove meses. George Jowett acrescenta (op. cit., p. 176):

"Como Pedro pode sobreviver àqueles nove longos e terríveis meses, é algo que vai além da imaginação humana. Durante todo seu encarceramento, ele esteve algemado em posição vertical e acorrentado a uma coluna, o que o tornava incapaz de deitar-se para repousar. Ainda assim, esse espírito magnífico permaneceu intrépido e cheio de fervor imortal na proclamação da glória de Deus em Seu Filho Jesus Cristo. A história nos conta que, a despeito de todo sofrimento ao qual estava sujei­to, Pedro converteu ali seus carcereiros Processus e Martinianus, além de outros quarenta e sete prisioneiros."

Escrevendo sua primeira epístola aos Coríntios (cap. V), em fins do pri­meiro século, Clemente de Roma, ao citar o martírio de Pedro, endossa a idéia de que o velho apóstolo foi submetido a um período de sofrimento, anteriormente a sua tradicional execução por crucificação.

"Retenhamos os exemplos fornecidos em nossa própria geração. Em fun­ção da inveja e do ciúme, os maiores e mais justos pilares [da Igreja] foram perseguidos e sentenciados à morte. (...) Pedro, vítima da inveja iníqua, padeceu não apenas uma ou duas, senão numerosas aflições antes de ser, por fim, martirizado, partindo para o glorioso lugar para ele preparado."

Dentre as mais curiosas lendas sobre seu martírio na capital imperial, es­tão as que narram a visão que o apóstolo teria tido ao partir da cidade, duran­te o princípio do terror contra os cristãos empreendido por Nero. Pedro, na pressa de fugir da perseguição, teria se encontrado com Jesus, a quem surpreso, perguntara: Quo vadis, Domine? ("Onde vais, Senhor?"). Ante a enfática resposta de Jesus, Venio Romam iterum crucifigi ("Vou a Roma para ser nova­mente crucificado") o apóstolo compreendeu que chegara a hora de pagar com seu sangue o testemunho da fé que intrepidamente e por tantos anos proclamara. Retornou, então, à cidade, foi capturado e, posteriormente, cru­cificado conforme nos conta a tradição. O sítio dessa lendária aparição foi eternizado com um pequeno templo em cujo piso se encontra aquilo que a tradição diz serem as marcas dos pés do Senhor.
Uma vez capturado e, possivelmente após o sofrimento em Mamertina, o apóstolo teve um fim não menos doloroso que o de outros tantos mártires cristãos que, naqueles dias trabalhosos, preferiram entregar-se ao martírio a negar o senhorio dAquele que os resgatou. Eusébio de Cesaréia retratou assim o martírio de Pedro em Roma, sob a crueldade de Nero (op. cit, p.80):

"Assim, Nero, publicamente apresentando-se como principal inimigo de Deus, prosseguiu em sua fúria para massacrar os apóstolos. Paulo é citado como tendo sido decapitado em Roma, e Pedro crucificado próximo dele. Este relato é confirmado pelo fato de os nomes de Pedro e Paulo perma­necerem no cemitério daquela cidade até os dias de hoje."

Algumas das mais antigas tradições rezam que Pedro foi conduzido ao alto da colina do Vaticano onde, a seu pedido, os executores inverteram a cruz em que estava preso, deixando-o lentamente expirar de cabeça para baixo, por não ser — como ele mesmo teria frisado — digno de morrer como seu mestre. Esse relato é corroborado por Jerônimo de Belém (Vidas de Homens Ilustres, I).

"Pedro foi levado a Roma durante o segundo ano (do reinado) de Cláudio para destronar Simão Mago, e ocupar ali a cadeira sacerdotal por vinte e cinco anos, até o décimo quarto ano de Nero. Das mãos deste ele rece­beu a coroa do martírio, tendo sido cravado numa cruz com sua cabeça virada para a terra e seus pés levantados para o alto, ao afirmar que era indigno de ser crucificado semelhantemente ao seu Senhor."

Este relato, embora tradicional, encontra eco histórico no testemunho do escritor Sêneca, tutor e conselheiro de Nero. Sêneca alega, em uma de suas cartas, ter visto muitos criminosos serem crucificados de cabeça para baixo, durante um período de tempo próximo ao da morte de Pedro. Certamente, a maioria dos tais criminosos referidos pelo célebre erudito, era composta por cristãos, posto que essa era a exata perspectiva com que o pagão romano os via. Diz-se que durante as ocasiões onde se registraram grande número de execuções por crucificação (como na revolta de Espartacus, na guerra dos judeus e nas perseguições aos cristãos), os soldados romanos procuravam escapar da monotonia daquela execução divertindo-se ao variar as posições com que os condenados eram cravados à cruz. A atitude de escárnio dos executores romanos para com o condenado à crucificação não constitui no­vidade, como vemos no próprio caso de Cristo.
Conquanto a maior parte das tradições atribua a execução de Pedro ao inominável Nero, encontramos no apócrifo Atos de Pedro uma descrição alter­nativa do seu martírio. Segundo esse texto, Pedro, difundindo prosperamente a fé cristã em Roma, teria alcançado com o Evangelho quatro influentes mu­lheres da corte imperial: Agripina, Nicária, Eufêmiae Doris, todas concubinas do prefeito Agripa. A mensagem do apóstolo, norteada pela pureza e castidade teria lhes causado — em face dos pecados que até então cometiam — tamanha contrição que, conjuntamente, decidiram não mais se corromper com Agripa. O magistrado, descobrindo através de enviados secretos, a origem daquele com­portamento, irou-se profundamente contra o apóstolo e contra suas quatro mulheres, as quais mandou castigar com grande furor. O ódio incontido de Agripa juntou-se ao de outro magistrado, AJbinus, um certo amigo de César, cuja mulher, Xantipa, também fora influenciada a uma vida de santidade. To­mando conselho entre si, Agripa e AJbinus decidiram matar Pedro, a fim de reconquistarem a normalidade de suas vidas conjugais.
Tomando ciência da mancomunação contra Pedro, Xantipa alerta os ir­mãos que, vendo o iminente perigo que corria o ancião, suplicaram-lhe que deixasse imediatamente a cidade, a fim de que escapasse daquela investida. Convencido, o apóstolo teria mudado sua aparência e partido sozinho de Roma em direção a algum lugar seguro. Conta a lenda que, em sua jornada de fuga, Pedro havia encontrado com Jesus e, em função do testemunho dEste, desistido de sua idéia inicial (aqui, a narrativa dos Atos de Pedro asse­melha-se a já citada lenda Quo Vadis?).
De volta a Roma, Pedro apresenta-se a sua congregação e testemunha acerca da visão divina que mudara sua decisão. Enquanto ainda falava aos irmãos, quatro soldados irromperam com truculência, lançando mão do ancião e conduzindo-o até a presença do inexorável Agripa. A lenda termi­na narrando que numerosa multidão de fiéis seguiu a Pedro, na expectativa de acompanhar o que se sucederia ao velho apóstolo. Mesmo suplicando com grande insistência, aqueles numerosos cristãos não conseguiram con­quistar a clemência do magistrado que, sob a acusação de ateísmo, manda crucificar a Pedro. Diante do sofrimento que se aproximava, o apóstolo teria serenamente exclamado {cap. XXXVII).

cruz, tu que és mistério oculto! Ó graça inefável que é pronunciada em o nome da cruz! O natureza humana, que não pode permanecer separada de Deus! O doce comunhão, indizível e inseparável, que não pode ser manifestada por lábios impuros! Apodero-me de ti, agora que estou ao fim de minha jornada. Declararei aquilo que tu és, e não mante­rei silêncio diante do mistério da cruz, o qual desde muito foi coberto e oculto da minh'alma.
Não permitais, ó vós que esperais em Cristo, que a cruz vos seja aquilo que parece. Pelo que, é algo distinto daquilo que aparenta ser; ela é a própria paixão conforme experimentada por Cristo."

Por fim, a obra apócrifa afirma que Nero, ao contrário do que dizem as demais tradições, não comandou a execução do apóstolo, vindo por isso a indispor-se grandemente com o prefeito Agripa (cap. XLI).

"Mas Nero, sabendo que Pedro havia partido dessa vida, culpou o prefeito Agripa, por tê-lo feito expirar sem seu consentimento. Pois o soberano ansi­ava punir o apóstolo com mais severidade e com maior tormento. Isso por­que Pedro fizera discípulos a alguns daqueles que serviam o soberano, impelindo-os a deixarem sua companhia. Em função disto, Nero irou-se pro­fundamente e, por um longo período não dirigiu a palavra a Agripa. Pelo que, buscava destruir todos aqueles que tornaram-se discípulos de Pedro."

O teor gnóstico e fantasioso de grande parte do apócrifo Atos de Pedro é facilmente perceptível. Contudo, a menção da participação dopraefectus Agripa na morte do apóstolo pode ser o indício de que o ministério petrino em Roma despertou a animosidade de outros magistrados além do próprio imperador. Ademais, a possibilidade de Pedro ter convertido muitas mulheres da alta soci­edade romana - e com isso ter despertado a oposição de seus maridos pagãos -também não é nem um pouco remota. Algumas lendas envolvendo outros nomes apostólicos também narram fatos semelhantes. Lembremos, por exem­plo, do caso de Filipe, em Hierápolis, na Frígia, condenado à crucificação pela conversão da esposa do procônsul local. Na Britânia, pouco antes ou talvez durante a presença do apóstolo Simão Zelote na ilha, houve grande agitação pela suposta conversão da esposa do general romano Aulus Plautius ao cristia­nismo. A reação enérgica dos pagãos — especialmente daqueles ligados a cargos públicos — cujas mulheres se convertiam à fé cristã é compreensível pelo caráter proscrito imposto ao cristianismo. Muitos boatos difamatórios relacionavam os cristãos a várias práticas execráveis e ao ateísmo. Para um membro do gover­no romano, ter uma esposa suspeita de associar-se aos cristãos era algo que poderia gerar terríveis conseqüências. Em Roma, onde Pedro acabou seus dias, sabemos pelos escritos de Paulo que, durante os tempos de sua prisão na cida­de, já havia convertidos entre os da corte imperial (Fl 4.22):

"Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César."

Há razões para crermos que Pedro teve, de fato, acesso aos escalões mais altos da sociedade romana, onde - segundo as lendas - teria conquistado muitos seguidores para Cristo. O fato de ser um remanescente dos discípu­los do Senhor fazia de Pedro alvo da curiosidade de todo aquele que se interessasse pelo cristianismo na cidade, fosse um simples escravo ou um nobre da corte. Uma vez que - segundo Paulo - havia convertidos na casa de César, é provável que muitos deles buscaram o contato com Pedro, a fim de ouvirem a experiente ministração do apóstolo.
Como já vimos, o nome de Pedro — assim como o de Paulo — está tradi­cionalmente ligado à evangelização da família de Cláudia e Rufus Pudens no Palatium Brittanicum, onde esses bretões descendentes da família real de Arviragus viveram tranqüilamente seus dias em Roma, após a clemência do imperador Claudius.
Lembremos também que as lendas sobre o confronto de Pedro com o mago Simão em Roma colocam o apóstolo em contato direto com a nobre­za da cidade. Diz-se que ali, diante do olhar atônito de muitas autoridades e ilustres cidadãos, o velho apóstolo teria desmascarado as imposturas de Si­mão, adorado pelos romanos como mais um de seus vários deuses.
Jean Danielou, em seu livro The Christian Centuries, registra um detalhe que confirma a suspeita de que Pedro teve acesso ao topo da pirâmide social romana (p.166).

"Um certo Paron colocou à disposição de São Pedro sua casa, assim como seus jardins internos, que podiam abrigar quinhentas pessoas."

Ademais, a tradição católica, baseada em autores patrísticos como Irineu, Hipólito e Eusébio, afirma que o sucessor de Pedro na direção da Igreja roma­na - se é que o apóstolo algum dia exerceu este ofício - foi um nobre de nome Linus, possivelmente o mesmo citado por Paulo em 2Tm4.21. Filho de Herculanus, Linus era oriundo da região de Toscana e de ascendência etrusca, marca comum a muitos nobres romanos. Não se sabe ao certo se esse ilustre cristão, cujo episcopado diz-se ter durado doze anos e meio, é fruto direto da pregação de Pedro. De qualquer forma, sua amizade com o velho pescador torna evidente o acesso do apóstolo à nobreza romana. Linus é, portanto, mais um exemplo de como a pregação apostólica atingiu os altos escalões da estratificada sociedade romana ainda na primeira metade do século I.

Petronila, a lendária filha de Pedro
Sabemos, por dedução bíblica, que Pedro era casado (Mt 8.14-15, 1 Co 9-5), embora não haja nas Escrituras qualquer menção sobre sua es­posa ou seus possíveis descendentes. A tradição, entretanto, fala acerca da mulher de Pedro e de sua fidelidade na obra missionária, ao lado do apósto­lo. Edgar Goodspeed lembra o relato que encerra seu martírio em compa­nhia do marido (The Twelve, p.157).

"As palavras finais de Pedro a sua mulher, quando esta estava sendo conduzida ao martírio foram registradas por Clemente de Alexandria em sua obra 'Miscelâneas' e repetidas por Eusébio na 'História Eclesiástica': 'Diz-se que, quando o bendito Pedro viu sua própria esposa sendo conduzida para a morte, regozijou-se por aquela convocação que a cha­mava de volta ao lar. Pedro, chamando-a pelo nome, dirigiu-lhe estas palavras de encorajamento e conforto: O, tu, lembra-te do Senhor!'."

Mais numerosas e significativas do que as tradições sobre a esposa de Pedro são aquelas que enfocam sua filha, sobre a qual o texto bíblico silencia. De fato, muitas lendas primitivas dão conta de que o apóstolo teve uma filha, Petronila, que teria seguido ainda jovem para Roma, em companhia de seus pais. É curioso notarmos que a maior parte das tradições acerca de Petronila relatam que a jovem sofria de algum tipo de problema físico. Anna Jamerson resume as narrativas acerca da personagem (op. cit., p.215):


"O apóstolo Pedro teve uma filha nascida de núpcias lícitas, que o acom­panhou em suas jornadas para o Oeste. Estando em Roma junto a ele, foi acometida de aflitiva enfermidade, que a privou do uso de seus mem­bros. E sucedeu-se que, estando os discípulos com Pedro à mesa, um deles interpelou-o: 'Mestre, como é isto, que tu, que curas as enfermida­des de outros, não curas tua própria filha Petronila? E respondeu-lhe São Pedro: 'E proveitoso para ela permanecer enferma'. Mas, para que pudes­sem atestar o poder da Palavra de Deus, Pedro ordenou à menina que se levantasse e que os servisse à mesa, e ela assim o fez. Após ter assim procedido, Petronila voltou a jazer, impotente como dantes.
Muitos anos depois, tendo sido aperfeiçoada por seu sofrimento e orando com grande fervor, foi curada. Petronila tornou-se maravilhosamente bela, de sorte que Valerius Flacus, um nobre romano, pagão, enamorou-se de sua formosura, desejando-a por esposa. Sendo ele muito poderoso, Petronila temeu recusá-lo. Pedindo, entretanto, que o jovem retornasse em três dias, ela prometeu-lhe que a levaria para sua casa. Porém, Petronila orou fervorosamente a fim de ser liberta desse perigo e, quando Flacus retornou após os três dias, com grande pompa para celebrar o casamento, encon­trou-a morta. A companhia de nobres que o seguiam carregou o corpo até o sepulcro no qual a depositaram, coroada por rosas. Assim, Flacus le­vantou grande lamentação.
A lenda data o falecimento de Petronila no ano 98, ou seja 34 anos após a morte de São Pedro."

Grande parte das lendas sobre a personagem estão conectadas com o fragmento copta do apócrifo Atos de Pedro, que sugere uma considerável influência gnóstica, especialmente por sua ênfase celibatária. Nessa obra há uma lenda semelhante à registrada por Anna Jamerson (cap. I):

Pedro e Paulo ouvem com serenidade a condenação diante de Nem. A arte paleocristã geralmente retrata Pedro com cabelos espessos e barba curta. Paulo, como uma figura de testa grande, rosto alongado e barba pontuda.

"Pedro, eis que em nossa presença tu tens feito muitos cegos verem, muitos surdos ouvirem e muitos paralíticos andarem. Tens socorrido os fracos e dado-lhes força. Contudo, como não socorres tua filha, a virgem, que formosamente cresceu e tem crido no nome de Deus? Pelo que, um de seus lados permanece completamente paralisado e, eis que ela, impotentemente, jaz estendida num canto. Eis que vemos aqueles aos quais tu curaste, entretanto tua própria filha tu tens negligenciado.
Pedro, entretanto, sorrindo disse-lhe: Meu filho, cabe apenas a Deus a razão por que seu corpo não foi tornado são. Sabe, porém, que Deus não é fraco nem impotente para conceder Seu dom a minha filha. Portanto, para que tua alma se convença e para que aqueles que aqui estão creiam ainda mais (olhando, então, ele para a menina), disse a sua filha: Levanta-te onde tu estás, sem ajuda de ninguém, exceto de Jesus, anda perfeita­mente diante destes e chega-te a mim. E ela levantou-se e veio a ele, e a multidão regozijou-se diante do que se sucedera. Alegraram-se todos ain­da mais e louvaram a Deus. Entretanto, Pedro disse a sua filha: Vai-te para teu lugar, e deita-te novamente em tua enfermidade, pois assim é neces­sário para mim e para ti. E a virgem foi-se e se recostou como antes. A multidão, entretanto, chorou e suplicou a Pedro que a curasse. O apósto­lo, porém, disse-lhes: Assim como vive o Senhor, tal é necessário para ela e para mim. Pelo que, no dia em que ela me foi dada por filha, tive uma visão na qual o Senhor me disse: 'Pedro, neste dia uma grande provação nasce para ti, porquanto tua filha trará dores a muitas almas se seu corpo permanecer são'. Eu, porém, pensava comigo que aquela visão me ludi­briava. Então, quando a virgem completou seus dez anos, uma pedra de tropeço foi posta diante de muitos por causa dela. Um certo homem, excessivamente rico e de nome Ptolomeu, ao vê-la banhar-se ao lado de sua mãe, mandou buscá-la para tê-la como esposa. Entretanto, sua mãe não o permitiu. Ele porém, freqüentemente mandava-a buscar, pois já não podia mais esperar.'"

A seqüência do sucedido a Petronila é momentaneamente interrompida no texto original pela ausência de alguns de seus fragmentos. Entretanto, Agostinho de Hipona, citando a mesma obra, diz que a virgem foi raptada pelo nobre, diante do que Pedro teria pedido a Deus que a protegesse. A prece do apóstolo - segundo Agostinho - é respondida e metade do corpo da jovem é afetado por uma mirradora paralisia. O texto apócrifo retoma a narrativa mencionando que os servos de Ptolomeu devolveram, então, a vir­gem, deitando-a à porta da casa de seus pais. Pedro e sua esposa, ao verem a menina paralisada, com um de seus lados mirrados, regozijaram-se por ela não ter sido defraudada pelo raptor pagão.
Sem dúvida, a narrativa dos Atos de Pedro apresenta situações — como essas ligadas a Petronila - que dificilmente seriam aceitáveis mesmo para o mais ingênuo leitor. Entretanto, é surpreendente que outras lendas registrem alguns paralelismos com essa obra apócrifa, no que tange à vida de Petronila, como quanto a sua enfermidade e à proposta de casamento que recebeu por parte de um nobre pagão. Não seria possível que relatos fantasiosos como Atos de Pedro fossem o resultado de ampliações e acréscimos posteriores a fatos realmente ocorridos com a filha de Pedro?

Os restos mortais de Pedro
Dorman Newman, em The Lives andDeaths ofthe Holy Apostles (p.20), comenta acerca da tradição segundo a qual, após a execução de Pedro num sítio próximo à colina do Vaticano, seu corpo foi tomado pelo presbítero Marcelinus, um de seus discípulos, que o teria preparado de acordo com rituais judaicos e sepultado na mesma colina, próximo à Via Triunfal, onde erigiu-se mais tarde um pequeno santuário. O próprio Newman esclarece o sucedido ao corpo do apóstolo nos anos seguintes (p.21):

"O corpo de Pedro foi removido para o cemitério da Via Ápia, a duas milhas de Roma, onde descansou na obscuridade até o reinado de Constantino, o qual reconstruiu e alargou o Vaticano, em honra ao apóstolo."

Sabe-se que uma das principais obras eclesiásticas de Constantino foi a construção da Igreja dos Santos Apóstolos em Constantinopla, inaugurada na Páscoa de 337 A.D. Para esse pomposo santuário o imperador — alegadamente convertido ao cristianismo — tentou enviar e depositar tantas relíquias apostólicas quantas pudesse encontrar. Teria ele feito o mesmo com os restos mortais de Pedro? McBirnie esclarece {pp. cit., p. 18).

"Grande empreendimento foi realizado em busca das relíquias dos após­tolos. O imperador Constantino planejou construir em Constantinopla o que ele chamou 'A Igreja dos Santos Apóstolos'. Em suas dependências ele desejava preservar os restos (ossadas ou fragmentos de ossos) dos apóstolos. De fato, ele foi bem sucedido na preservação das relíquias de Santo André, de São Lucas e de São Timóteo (os dois últimos, conquanto não fizessem parte dos doze, eram próximos deles). Aparentemente Constantino sentiu que deveria manter os ossos de São Paulo e São Pedro em Roma, embora tivesse seus próprios planos para os restos de São Pedro. De bom grado, o imperador erigiu a Basílica de São Paulo em Roma. Mas, como se especula, a Igreja romana relutou em permitir a partida dos ossos de Pedro [para Constantinopla]. O imperador aparente­mente não forçou a questão, mandando então construir uma Igreja sobre o local de repouso de São Pedro, esperando talvez que mais tarde pudes­se removê-los para Constantinopla."

A referência de Newman à construção, por Constantino, de um santuário dedicado ao apóstolo na colina do Vaticano, foi confirmada pela arqueologia moderna. Em 1971, a renomada National GeographicMagazine (Vol. 10, n° 6, p. 872), publicou, em sua edição de dezembro, uma extensa reportagem sobre as descobertas arqueológicas relativas aos restos de Pedro, apenas três anos após o anúncio oficial pelo papa Paulo VI. Recentemente, o Dr. John Curran da Queens University de Belfast, comentou em seu artigo The Bonés ofSaint Peter? alguns detalhes importantes de como se processou o achado das relíquias do apóstolo. De acordo com o catedrático irlandês, em 1939, quando, a pedido de Pio XII, fazia-se uma escavação para reestruturar a Gru­ta do Vaticano, onde estava a tumba de Pio XI — e de outros papas — o pontífice se viu forçado a ordenar o aprofundamento das escavações, em face de algumas descobertas relevantes ali realizadas. A menos de um metro abai­xo do piso, encontrou-se algo inesperado: um cercado, cheio de terra, cujo teto havia sido violentamente partido. Intrigados pelo achado, os trabalha­dores cavaram a terra que enchia a construção até a profundidade de uns quatro metros e meio, onde encontraram a porta daquilo que foi identifica­do como um antigo mausoléu romano. As quatro inscrições que marcavam os túmulos sugeriam que os achados pertenciam a uma certa família Caetenii. Mas logo se percebeu que aqueles túmulos não eram solitários. Devidamen­te avisado, o papa Pio XII mudou seus planos originais de construir ali a capela subterrânea e enviou uma equipe de oficiais do Vaticano, composta pelos arqueólogos jesuítas Antônio Ferrua e Engelbert Kirchbaum, pelo ar­quiteto Bruno Apolloni-Ghetti e pelo professor e inspetor das catacumbas Enrico Josi. A equipe responsável pelos trabalhos de escavação estava sob a autoridade do Monsenhor Ludwig Kaas, Administrador da Catedral de São Pedro, que respondia pelo próprio papa. Recomeçados em 1941, os traba­lhos de escavação logo deixaram patente que um grande achado arqueológi­co havia sido alcançado: uma rua de quase dez metros de comprimento repleta de tumbas de ambos os lados. Alguns desses sarcófagos eram simples estru­turas, privadas de qualquer adorno. Outros, entretanto, formavam suntuo­sas construções, decoradas com pinturas e mosaicos ricamente detalhados, muitos dos quais traziam os nomes de seus respectivos proprietários. Através da cuidadosa análise desses nomes descobriu-se que muitos deles pertenciam a libertos romanos e suas famílias, os quais normalmente tomavam empres­tados os nomes de seus antigos senhores. Descobriu-se, a seguir, por algumas inscrições e desenhos nas tumbas que muitos cristãos também haviam sido sepultados naquele lugar.
Segundo Curran, duas coisas intrigaram os escavadores na época. Primei­ramente, a maneira como aquela rua de túmulos havia sido destruída. Os tetos dos mausoléus, que se dispunham no sentido leste do Vaticano, havi­am sido cortados e muitos outros tinham recebido sobre si paredes estrutu­rais, que percorriam o lugar de norte a sul e que encerravam uma vastidão de terra, calculada em aproximadamente um milhão de pés cúbicos. Investiga­ções posteriores mostraram que tais paredes eram, na verdade, a plataforma de um complexo religioso construído por Constantino sobre a colina do Vaticano por volta de 320 A.D. A rua de tumbas que fora por ele destruída para dar lugar à obra, conduzia exatamente ao subsolo daquilo que seria o altar da catedral.
O segundo detalhe que impressionou a equipe de pesquisadores e que os convenceu de estarem diante de uma grande descoberta foi um grafito em carvão encontrado na parede de uma das tumbas e que rezava Petrus roga Christus Iesus pro sanctis hominibus Chrestianis ad corpus tuum sepultis, ou seja, Pedro, rogue a Jesus Cristo pelo santo homem sepultado próximo a você. Alertado sobre a descoberta e ciente de sua importância, Pio XII mudou o escopo das escavações, permitindo que elas penetrassem pela região imedia­tamente abaixo do altar da Basílica de São Pedro, o que, até então, não havia sido autorizado. Após três anos de cuidadosa prospecção os arqueólogos en­contraram um átrio contendo quatro tumbas, cuja construção foi datada da segunda metade do segundo século. Embora esta evidência indicasse uma data excepcionalmente antiga para os túmulos, ainda representava um acha­do de pelo menos três gerações posteriores à data atribuída à morte de Pedro. A equipe do Vaticano decidiu, então, continuar a escavação sob a laje de mármore do átrio, onde descobriram aquilo que passou a ser conhecido como o verdadeiro local do descanso de São Pedro. Trata-se de uma pequena cova de 74 cm de lado por 1,40 m de profundidade, cujas paredes apresentavam sérias avarias. A presença de inúmeras moedas primitivas espalhadas ao redor da laje e oriundas das mais diversas regiões da Europa, indicava que ali havia sido um significativo ponto de peregrinação. Na verdade, as moedas em si não serviam como evidência conclusiva ao achado, já que dentre elas havia algumas cunhadas ao tempo de César Augusto, morto em 14 A.D., quando Pedro era ainda muito jovem. Mas a tumba escavada ao lado da cova, trazia tijolos com data de manufatura da época do reinado de Vespasianus, ou seja, algo entre 69 e 79 A.D. Ao redor daquele local várias ossadas foram encon­tradas, algumas delas pertencentes — segundo cientistas — a um homem robusto entre sessenta e setenta anos. Essas relíquias estavam misturadas a res­tos de um distinto traje púrpura, tecido com fios de ouro.
A ausência do crânio entre os achados não causou espanto entre os arqueó­logos, tampouco desapontou o próprio pontífice, pois todos — como fiéis católicos - criam que a cabeça de Pedro estava devidamente guardada na Cate­dral de São João Latrão, segundo algumas lendas que remontam ao século IX. Estavam, assim, descobertas — segundo John Curran — as relíquias de Pedro, que só viriam a ser oficialmente reveladas ao mundo em 26 de junho de 1968, pelo papa Paulo VI, quase trinta anos após o início das escavações.
Essas importantes descobertas arqueológicas conduzidas pela equipe do Vaticano indicam que o intento do imperador Constantino de conduzir os ossos de Pedro para sua suntuosa Igreja em Constantinopla — como sugere McBirnie — foi trocado pela construção de um santuário dedicado ao após­tolo na Colina do Vaticano em Roma.
A possibilidade dos restos mortais de Pedro terem permanecido na capital ocidental do Império, a despeito dos planos de Constantino, é também defen­dida por John Holland Smith, em seu livro Constantine The Great (p.286).

"Constantino celebrou o trigésimo aniversário de sua ascensão no verão de 335 A.D. Provavelmente as mais significativas cerimônias realizadas em Roma naquele ano foram as que acompanharam o solene traslado dos ossos venerados como relíquias de São Pedro e São Paulo das catacumbas de São Sebastião, onde eram venerados desde 258 A.D., até as basílicas construídas em sua honra no local tradicional de seus martírios, sobre o Vaticano e a Via Óstia."

Não há, portanto, razões históricas para descrermos que a colina do Vaticano tenha sido - como reza a tradição - o lugar do martírio e do sepultamento de Pedro até os dias de hoje. Além dos vários testemunhos contidos nos anais da Igreja antiga, a própria origem do Vaticano corrobora essa possibilidade. O bairro que envolvia a famosa colina ficou assim conhecido - segundo antigos escritores romanos — por abrigar, em tempos remotos, muitos prognosticadores ou vaticinadores (lat. vaticinia), os quais tornaram-se notórios por suas consul­tas espirituais aos moradores de Roma. Mais tarde, com a expansão da cidade, os imperadores Calígula e Nero embelezaram o lugar, transformando-o em esplendorosos jardins. Foi justamente sobre essa colina que Nero, amante dos jogos públicos, mandou construir o Circus Vaticanus, onde, em meio à solene pompa circensis e às várias atividades atléticas que divertiam a população roma­na, inúmeros cristãos cruelmente perderam a vida, entre os quais — como di­zem as lendas — o próprio Pedro.
O biógrafo apostólico Dorman Newman registrou em sua obra TheLives and Deaths ofthe Holy Apostles, de 1685, uma curiosa descrição do retrato do príncipe dos apóstolos, durante o tempo de seu martírio em Roma (p.21).

"A aparência de São Pedro era a seguinte: seu corpo era esbelto, de esta­tura mediana para alta. Sua pela clara ou quase branca. A barba encaraco-lada e espessa, porém curta. Seus olhos eram negros, mas manchados de vermelho pelos freqüentes choros e as sobrancelhas ralas e quase inexistentes."

A controvertida primazia de Pedro e sua suposta relação com o papado
Talvez nenhum outro tema relacionado aos apóstolos seja tão polêmico quanto a questão da primazia de Pedro sobre a Igreja. Arduamente defendi­da por católicos e veementemente repudiada por protestantes, a primazia petrina é um tema que, ao longo dos séculos, vem despertando discussões acaloradas em muitos segmentos do cristianismo.
Uma vez que nosso propósito aqui não é nos embrenharmos nos detalhes teológicos de controvérsias como essa, desejamos traçar apenas algumas con­siderações que tragam esclarecimento sobre o tema e que nos permitam analisá-lo em suas linhas gerais, porém com a imparcialidade que ele merece.
Olhando para os Evangelhos e para o Livro de Atos, não temos dúvidas de que Pedro realmente possuía uma inclinação natural para a liderança, e que essa inclinação foi corroborada pelo próprio Senhor Jesus. Como vimos anterior­mente, seu nome aparece invariavelmente liderando todas as citações que envol­vem a lista dos apóstolos. Muitas vezes o vemos funcionando como uma espécie de porta-voz dos doze. Sua postura no cenáculo nos dias que antecederam o derramar do Espírito e sua ousadia na divulgação da Palavra, logo após o Pente-costes, não deixam dúvidas de que Pedro despontou como um grande líder e um dos que ocuparam a vanguarda do cristianismo em seus primeiros anos.
Entretanto, as mesmas Escrituras que evidenciam sua liderança, mostram também que ela não era absoluta ou universal, como se pretende nos meios teológicos católicos. Após seu primeiro contato evangelístico com gentios em Cesaréia, por exemplo, Pedro teve de explicar-se diante dos anciões da Igreja de Jerusalém, sobre seu relacionamento com incircuncisos (At 11.1-18). O fato de Pedro e João terem sido enviados por esses mesmos anciões em missão à Samaria (At 8.14), para orientar os trabalhos de Filipe, demonstra que ambos apóstolos estavam sujeitos às deliberações desse conselho. Não somente a Bíblia, mas também a tradição eclesiástica sugere que o líder da Igreja de Jerusalém - a primeira a se organizar - foi Tiago, chamado o Justo, meio-irmão de Jesus, e não Pedro. É a esse Tiago que Pedro manda satisfa­ções sobre sua partida de Jerusalém em 44 A. D. (At 12.17). O mesmo Tiago é quem dirige o primeiro concilio da Igreja, em Jerusalém, e dá a palavra final sobre ele (At 15-6-22). Rui Barbosa, em sua versa o da obra de Janus O Papa e o Concilio (p.53-54), comenta o tema:

"Os que buscam vincular a Pedro a soberania do papa começam esque­cendo a primeira manifestação coletiva da Igreja Cristã, o concilio de Jeru­salém, tipo necessário de todos os outros, no qual a preponderância na definição do ponto controvertido coube, não ao apelidado 'príncipe dos apóstolos', mas a Tiago, bispo da cidade, irmão do Senhor.(...)
Essa primeira decisão conciliar da cristandade transmitiu-se às igrejas da Síria, Antioquia e Cilícia em nome dos 'apóstolos, anciões e irmãos (apostoli, sêniores, frates), sem que a individualidade particular de Pedro fosse ao menos mencionada ali."

Ademais, adiante nas Escrituras, vemos que a incoerência da postura de Pedro em relação aos gentios de Antioquia deu-se imediatamente à chegada de alguns da parte de Tiago (Gl 2.12-14), o que sugere que o apóstolo nutria, até então, receios sobre como repercutia sua posição ante os anciões de Jeru­salém, dos quais Tiago era o líder. Além disso, é importante notarmos que, ao comentar sobre o desconcertante episódio de Antioquia, o apóstolo Paulo menciona o nome de Tiago, como coluna da Igreja, anteriormente ao de Pedro e João em Gl 2.9. Para escritores de mente oriental como Paulo, a ordem na menção de nomes geralmente obedece a relação direta do grau de importância ou representatividade de cada um deles.
Outro ponto relevante que não pode ser esquecido na análise da primazia de Pedro é que, em nenhum momento nas Escrituras, vemos a supremacia da autoridade petrina sobre o trabalho de Paulo. Muito pelo contrário, Paulo deixa claro que da mesma fonte donde emana a autoridade apostólica de Pedro, também procede a sua (Gl 2.8).

"Pois aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, também operou eficazmente em mim para com os gentios."

Escrevendo aos crentes coríntios que, àquela altura, encontravam-se imersos em grande divisão, Paulo não faz qualquer alusão diferenciada ao grupo que tomara a posição petrina, em detrimento dos demais, como vemos claramente em 1 Co 10-13- Rui Barbosa acrescenta (op. cit., p.54).

"As epístolas de Paulo testemunham que esse principado (o petrino) nun­ca teve realidade entre os primeiros seguidores de Cristo, e que a fé do apóstolo dos judeus não era menos frágil que a dos outros pregadores da boa nova."

Basicamente, a autoridade bíblica para a doutrina da primazia de Pedro decorre, segundo a teologia romanista, das passagens de Mt 16.13-19 e para­lelas, dentre as quais se destaca o episódio narrado por Mateus, onde após as palavras de Pedro que confessam Jesus como o Cristo, Filho do Deus Vivo, Jesus replicou:

"Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus.
Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que ligares na terra, terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra, terá sido desligado nos céus."

A interpretação católica desse texto insiste que a pedra sobre a qual Jesus edifica Sua Igreja é o próprio Pedro, o que o tornaria o primaz dos apósto­los e, portanto, bispo monárquico de toda a Igreja. Esquecem-se, entretanto, os teólogos romanistas que há aqui um evidente jogo de palavras no grego original. Jesus chama a Simão petros, ou seja, um "pedregulho" ou uma "pedrinha". Porém diz que sobre uma petra, isto é, um "rochedo" ou uma "pe­nha", edificaria Sua Igreja. E mais razoável entendermos, a partir desse texto (e considerando todo o contexto bíblico), que a.petra ou o "rochedo" sobre o qual Cristo constrói Sua Igreja é a fé ou certeza divinamente revelada de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, certeza que, aliás, foi naquele momento revelada ao apóstolo em questão. Em sua primeira epístola Pedro, após cha­mar a suas ovelhas de pedras vivas (2 Pe 2.5), deixa bem claro quem é Aquele sobre o qual o edifício da Igreja está fundamentado.
"Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será de modo algum envergonhado".
Para vós outros, portando, os que credes, é a preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra angular."

A mesma idéia aparece também nos ensinos epistolares de Paulo, como vemos em 1 Co 3.11.

"Pois ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo."

Podemos imaginar, da mesma sorte, que as chaves do reino dos céus prome­tidas por Cristo a Pedro (Mt 16.19) referem-se especificamente ao sinal de poder ou autoridade para "abrir" ou iniciar a propagação da mensagem salvífica entre as nações. Por sinal, vemos o cumprimento desse vaticínio durante o Pentecostes quando Pedro, cheio do Espírito, abriu a porta de ingresso no reino de Deus, ao ministrar com sucesso a Palavra para as multidões que se comprimiam nas ruas de Jerusalém. De fato, após o estabelecimento da Igreja, a honra de ser o primeiro a apregoar a mensagem do Evangelho — abrindo as portas do reino dos céus — coube àquele que, dentre os doze apóstolos, foi o primeiro a reconhecer Jesus como Filho do Deus Vivo.
A primazia de Pedro, como alicerce da estrutura religiosa do papado, re­presenta a personificação do próprio sistema eclesiástico católico e re­monta a tempos imemoriais do cristianismo. Firmada como doutrina pelo Concilio de Florença em 1439, a primazia de Pedro tornou-se artigo de fé durante o Concilio Vaticano I em 1870, vindo a ser confirmada pela segun­da edição do mesmo concilio, em 1964. Embora não expressasse claramente a supremacia petrina, foi o mestre patrístico Cipriano de Cartago (200-258 A.D.) quem primeiro formulou a doutrina da sucessão apostólica, naquilo em que se aplica a primazia do bispo romano.
Embora a primazia petrina seja alvo de muitas tradições (e contradições) da Igreja pós-apostólica, algumas perguntas importantes devem ser consideradas quando se tem em mente uma análise acurada do assunto. Por exemplo: have­ria alguma base bíblica ou histórica realmente sustentável para crer-se que Si-mão Pedro foi o primeiro papa? Teria ele recebido ou reclamado para si o título de bispo universal ou pontificex maximus, exercendo assim a autoridade eclesi­ástica suprema sobre todo o planeta? Ou ainda, teriam os bispos da sé romana — dele sucessores — gozado de autoridade superior aos líderes das demais comu­nidades cristãs espalhadas pelo mundo? E o que dizer da própria Roma, teria sua congregação sido fundada por Pedro, ou ainda, teria o apóstolo para lá transferido seu trono, estabelecendo naquela cidade sua primazia sobre a Igreja universal (ou católica)? Respostas adequadas e desapaixonadas para questões como estas são cruciais para a abordagem equilibrada da controvérsia da prima­zia petrina e sua relação com o papado.
"Petrus Apostoli Potestatem Accipiens", isto é, aquele que recebe autoridade do apóstolo Pedro, é o significado atribuído pelos católicos, ao termo "papa , assim como também Pater Pastor, ou seja, o pai dos pastores. A luz da hermenêutica católica de Mt 16.18-19, ambos significados fazem, realmente, muito sentido. Entretanto, documentos históricos primitivos tornam claro que o termo "papa", inicialmente, não possuía qualquer relação com os signi­ficados acima mencionados. "Papa" (ou "papai") era apenas uma expressão carinhosa e reverente dirigida a diversos bispos da Igreja primitiva — e não apenas ao líder romano — celebrizados por sua piedade, devoção e genialidade. E possível encontrar em alguns escritos antigos o termo "papa" dirigido, por exemplo, a Cipriano, bispo de Cartago, ou a Atanásio de Alexandria. Com o passar do tempo, o termo ganhou exclusividade no ocidente, passando a ser empregado apenas para o líder eclesiástico romano, ao contrário do oriente, onde os bispos de várias comunidades cristãs continuaram, por algum tem­po, a ser chamados por esse afável tratamento. Emanuel de Moraes acrescen­ta com muita procedência {op. cit, p.240):

"Aproximadamente em dez séculos de cristianismo, tomando-se como marco final o concilio de Roma, promovido porGregório VII, em 1081, o título de papa - que não se distinguia do nome de bispo - podia ser empregado com relação a todos os chefes das províncias eclesiásticas; só nesse momento passou a ser de uso exclusivo do pontífice da sé romana, e então adquiriu o significado de bispo universal, politicamente equivalen­te ao do monarca absoluto."

Até a ascensão do imperador Constantino, em 313 A.D., a Igreja primi­tiva era representada por bispos iguais entre si, tanto em autoridade quanto em função. A partir desta data, entretanto, em razão de várias circunstâncias políticas, o bispo (ou papa) de Roma começou a ser considerado o primeiro entre iguais. Com a transferência da capital para Constantinopla em 330 A.D., Roma, que sempre fora o centro da autoridade do império, viu seu líder episcopal crescer não apenas em poder espiritual, mas também em in­fluência temporal. Isto aconteceu particularmente em função das invasões bárbaras que começavam a assolar e enfraquecer a autoridade do imperador do Ocidente, que permanecia na cidade. Justo González comenta um dos primeiros fatos que marcaram o surgimento do bispo romano como impor­tante mediador de assuntos seculares (op. cit.,Vol. III, p.64).

"Porém, enquanto que no Oriente se duvidava de sua autoridade, em Roma e vizinhanças esta autoridade se estendia até além dos assuntos tradicionalmente religiosos. Em 452 os hunos, sob o comando de Atila, invadiram a Itália e tomaram e saquearam Aquilea. Depois desta vitória, o caminho para Roma estava aberto, pois em toda Itália não existia nenhum exército capaz de barrar-lhes o caminho até a velha capital. O imperador do Ocidente era um personagem débil e sem recursos, e o Oriente [Constantinopla] tinha dado a entender que não prestaria nenhum socor­ro. Nestas circunstâncias [o papa] Leão partiu de Roma e foi até o acampamento de Átila, para falar com o chefe bárbaro que todos temiam como 'o flagelo de Deus'. Não sabemos o que Leão disse a Átila. Conta a lenda que quando o papa se aproximou, junto dele apareceram São Pedro e São Paulo, ameaçando Átila com uma espada. Em todo caso, fato é que Átila, depois deste encontro com Leão, abandonou sua intenção de atacar Roma, e rumou com seus exércitos para o norte, onde morreu pouco depois."

O papa Leão I volta a intervir em favor de Roma em 455 A.D., tentando salvar a cidade da invasão vândala. Embora não tenha efetivamente conseguido impedi-la, foi ele que, intercedendo junto ao líder vândalo Genserico, obteve uma considerável amenização da violência na tomada da velha capital. O pre­cedente aberto por Leão I de interferir em assuntos de caráter político foi segui­do por seus sucessores que, freqüentemente, encontravam-se solitários na condução de uma região tomada pelo caos das invasões bárbaras e pela ausência de um poder político forte, como explica González {Ibidem, p.63).

"Quando os bárbaros invadiram o Império, a Igreja do Ocidente começou a seguir um rumo bem diferente da do Oriente. No Oriente o Império conti­nuou existindo, e os patriarcas continuaram subordinados a ele. (...) No Ocidente, entretanto, o Império desapareceu, e a Igreja veio a ser a guardiã do que restava da velha civilização. Por isto o patriarca de Roma, o papa, chegou a ter grande prestígio e autoridade."

Com Leão I (440 A.D.) começava o discurso de supremacia universal do bispo romano. Pare ele, a autoridade absoluta do líder romano não advinha apenas do fato de Roma ser a antiga capital do Império, mas era parte do plano divino para o avanço do Evangelho no mundo. Esse poder com tentá­culos temporais principiado por Leão I foi gradativamente se firmando com seus sucessores, até encontrar no notável Gregório I (590 A.D.) seu apogeu. Gregório I estendeu ainda mais os limites do poder do bispado romano, ao qual enriquecera sensivelmente através de seus hábeis dotes administrativos. Conquanto não reivindicasse explicitamente para si o título de bispo univer­sal, Gregório I deu prosseguimento a expansão do domínio eclesiástico exer­cido por seus antecessores no trono de Roma.
Algumas importantes questões ligadas à plausibilidade da supremacia do bispo de Roma permanecem sem o devido esclarecimento da parte daqueles que o defendem. Primeiramente, se a sé romana era de fato o centro do cristianismo desde os tempos de Pedro, por que não se sabe quase nada sobre ela até fins do primeiro século? Por que, então, a historicidade das sés de Antioquia, Alexandria e até mesmo Cartago suplantam a da velha capital romana? Se Pedro outorgou suas prerrogativas de líder da Igreja a seus suces­sores em Roma, por que as listas dos primeiros bispos locais não são coincidentes ou não tão fidedignas quanto as de outras igrejas contemporâneas suas? Se o bispo romano era realmente o líder absoluto da Igreja desde os primórdios, por que sua opinião não era decisiva nas controvérsias teológi­cas que marcaram o cristianismo a partir do quarto século?

O bispo de Roma e o título de "Pontífice Máximo"
Com efeito, o fortalecimento temporal dos bispos romanos, a partir do quarto século, fê-los arrogarem para si o título de Pontificex Maximus da Igreja. Essa prerrogativa, estranha às Escrituras — tanto quanto o próprio título de papa - não apresenta qualquer relação com a postura ministerial do humilde pescador galileu, mesmo que este tenha exercido — como reza a tradição - o importante bispado de Roma. Embora a Vulgata, a tradução latina de Jerônimo (388 A.D.), tenha tentado "cristianizar" o termo ao empregá-lo, por exemplo, em Hb 9.11 em referência a Cristo, tal título continua associado às suas origens pagas, como reconhece a própria Catholic Encyclopedia (p.549):
'Este termo, emprestado do vocabulário da religião paga romana, ainda cedo encontrou seu caminho no discurso cristão. Lexicógrafos o derivam, ainda que com claras dúvidas, das palavras la­tinas 'pons' (ponte) e 'facere' (fazer, construir). Se esta derivação for aceita, é fácil vê-la como prontamente aplicável àqueles que fazem uma ponte ou um caminho dos homens a Deus. De qualquer modo, o termo designava, para a reli­gião romana, os mem­bros do concilio de sacerdotes, os quais for­mavam o Colégio Pontifício, que era con­siderado a mais alta or­ganização sacerdotal de Roma, e que era presidida pelo   Pontificex Maximus'. "
  
Não se sabe ao certo quando se estabeleceu essa presunçosa aspiração do bispo de Roma. Entretanto, já em 220 A.D., Tertuliano em sua obra De Pudicitia, emprega o termo de maneira sarcástica — como era seu estilo — ao referir-se a vários bispos da Igreja primitiva, com a qual rompera anos antes.
Entretanto, o título de Pontificex Maximus não foi invenção de líderes episcopais sedentos pela ampliação de seu poder. Na verdade, essa era a prerrogativa do chefe da antiga religião paga romana, desde os tempos da velha república. Os pontífices eram os sacerdotes que supervisionavam o culto, fixavam o calendário e interpretavam a vontade dos deuses, através de sua observação dos acontecimentos diários. Dentre eles, destacava-se o Pontificex Maximus, o verdadeiro líder da religião paga romana. Dentre ou­tras funções, o Pontificex Maximus era o responsável pela escolha das virgens vestais, sacerdotisas escolhidas dentre nobres donzelas, filhas de importantes famílias romanas. As vestais eram responsáveis pela importante tarefa de manter constantemente acesa a chama sagrada no templo.
E curioso notarmos que o título de Pontificex Maximus era também mais uma das várias honras oficiais concedidas aos imperadores romanos. Júlio César foi assim declarado em 45 a.C. Sua estátua foi colocada nos templos e passou, então, a ser honrado como um deus, Júpiter Julius. Logo depois, em 27 a.C. seu sobrinho, Caius Otavius (César Augusto) ao iniciar o Império, não se satisfez apenas com as distinções tradicionais dadas pelo senado roma­no; além de Pontificex Maximus, foi também declarado "Augusto", ou seja, uma personalidade divina, inaugurando assim o culto ao imperador, muito comum nos dias apostólicos, especialmente na Ásia Menor.
A ligação entre essa prerrogativa paga herdada pelos imperadores e os fu­turos bispos de Roma aconteceu com a subida ao trono de Flavius Valerius Constantinus, ou apenas Constantino, o Grande. Muitos historiadores pro­testantes crêem que Constantino foi o primeiro a contextualizar o antigo título de Pontificex Maximus, fazendo-se supremo líder, não do decadente paganismo romano, mas da crescente Igreja cristã. Abriu-se, assim, um pre­cedente aos bispos romanos que o sucederam, especialmente quando, mais tarde, o poder do imperador do Ocidente enfraqueceu e o bispo da velha capital ocupou seu lugar nas ações político-administrativas.
Mas vejamos o que a história desse audacioso imperador do séc. IV tem a elucidar sobre a origem do papado.
Dotado de rara visão e grande arrojo político, Constantino viu no cristianismo uma oportunidade de aglutinação do Império, que já demonstrava sérios sinais de decadência no princípio do quarto século. Nascido em Naissus, na atual Iugoslávia, em cerca de 280 A.D., Constantino era filho de Constantius I, que tornara-se César em 293 A.D., na tetrarquia estabelecida pelo imperador Diocleciano, um dos maiores perseguidores do cristianismo em todos os tempos.
Segundo conta a lenda, Constantino converteu-se à fé cristã durante a batalha em que liquidou seu oponente ao trono, Maxêncio, que a si mesmo se fizera César, controlando a África e a Itália. O imperador, dirigindo-se com suas legiões a Roma, teria vislumbrado nos céus uma cruz com os dize-res in hocsignus vinces, ou seja, "sob este signo vencerás". Constantino teria, então, tecido uma cruz com alguns gravetos (o labarum) e colocado em sua armadura. Saiu vencedor da peleja que travara contra seu rival naquele dia 28 de outubro de 312 A.D. na ponte sobre o rio Mílvio, tornando-se César do Ocidente ao lado de Licinius. Com a morte de Galerius, soberano no Orien­te (311 A.D.) e de seu sucessor Maximinus Daza (313 A.D.), Constantino e Licinius viram-se sozinhos no domínio do império. Logo, ambos soberanos travaram nova guerra na tentativa de herdar o totalidade do império. Constantino venceu Licinius em Crisópolis, no ano 324 A.D., numa guerra tida por muitos como a cruzada do cristianismo — ostentado por Constantino — contra o paganismo de Licinius. A partir de então, Constantino, como senhor absoluto do Império, passou a envolver-se mais profundamente com os assuntos ligados à fé cristã — da qual se dizia seguidor — convocando e custeando, já no ano seguinte, o famoso Concilio de Nicéia.
Ao longo da história, muito se tem discutido e questionado acerca da conversão desse controvertido soberano. E interessante observarmos que, enquanto alguns de seus contemporâneos — como o historiador Eusébio de Cesaréia- exaltaram sua experiência cristã, considerando-a o ponto culmi­nante de toda a história da Igreja, outros a limitaram ao plano da mera manobra política. Mesmo que ambas posições reflitam extremos inverídicos, devemos reconhecer que, se o imperador algum dia de fato tornou-se cris­tão, é provável que o tenha feito entendendo muito pouco ou quase nada acerca daquilo que professava crer. Pelo menos é o que sugere o fato de ele nunca ter se submetido a uma doutrinação sistemática na fé cristã ou, ain­da, ter mantido a observância de alguns rituais pagãos.
Numa carta de sua mãe Helena — a qual parece ter realmente se converti­do — vemos que o imperador manteve algumas práticas idolátricas como o culto ao Sol Invicto, mesmo após sua suposta conversão. Outros costumes nada comuns ávida piedosa, porém típicos do paganismo romano, como as sangüinolentas lutas de gladiadores, também foram mantidas pelo impera­dor dito cristão, vindo a ser extintas apenas no século seguinte.
Outra posição de Constantino que dificilmente se adequaria a um cristão autêntico foi sua recusa em se submeter ao batismo. Na verdade, o impera­dor chegou a ser batizado, mas apenas em seu leito de morte, pelas mãos de Eusébio de Nicomédia, um herege ariano, a quem Constantino perseguiu por vários anos. Talvez por sua posição politicamente confortável de não estar "oficialmente" unido à Igreja pelo batismo, Constantino tenha sido visto por muitos crentes da época apenas como um simpatizante do cristia­nismo, de quem não se podia exigir uma postura de maior compromisso com o Evangelho. Assim, seus deslizes éticos podiam ser tolerados — como de fato foram — por muitos dos líderes eclesiásticos de seu tempo, aos quais, aliás, o soberano nunca se submeteu.
Paradoxalmente, se quanto à prática e ao compromisso Constantino de­monstrava não estar muito próximo do cristianismo verdadeiro, quanto ao exercício do poder eclesiástico, o imperador tornou-se um exemplo a ser copiado por muitos futuros líderes episcopais de Roma, já há algum tempo ávidos pela absolutização de sua autoridade.
Constantino, o imperador dito cristão mas não batizado, declarou-se o "bispo dos bispos", ou o Pontificex Maximus da Igreja! Sob esta ousada prerrogativa, convocou e custeou o Concilio de Nicéia, em 325 A.D., a fim de equalizar as posições da Igreja diante da controvérsia suscitada pelo he­rege Ário de Alexandria, que conturbava os meios teológicos da época. Constantino, como Pontificex Maximus, não apenas presidiu aquele en­contro, como também impôs a decisão acerca da cristologia considerada ortodoxa, defendida pelo célebre Atanásio. Pela primeira vez na história, o cristianismo via o poder secular deliberar sobre suas questões internas. Mas, seus líderes episcopais estavam demasiadamente preocupados em agradar ao imperador supostamente convertido, para perceberem as conseqüências negativas que isso mais adiante traria para a fé cristã. Rui Barbosa acrescen­ta (op. cit., p.24).

"Estreou-se aí o sacrifício do cristianismo ao engrandecimento da hierar­quia. O imperador não batizado recebe o título de 'bispo exterior'; julga e depõe bispos; convoca e preside concílios; resolve sobre dogmas. Já não era mais esta, certo, a Igreja dos primeiros cristãos. Estes repeliriam como sacrilégio as monstruosas concessões ao odioso absolutismo dos imperadores, as homenagens ao déspota que se ensangüentou com a morte de dois sobrinhos, do cunhado, do filho e da mulher, e que, enquanto rece­bia reverência nas basílicas cristãs, aceitava adoração como Deus nos tem­plos do paganismo. Adquiriu a Igreja a influência temporal; mas a sua autoridade moral decresceu na mesma proporção; de perseguida tornou-se perseguidora; buscou riquezas, e corrompeu-se; derramou sangue para impor silêncio à heterodoxia."

A noção de um líder universal divinamente levantado para reger a Igreja em todo o mundo contagiou grande parte dos cristãos na época, e encon­trou no sagaz Constantino sua primeira grande expressão. Seu exemplo ins­pirou profundamente os futuros bispos de Roma que, à semelhança do imperador, também declaram-se Pontificex Maximus da Igreja e passaram a ingerir-se cada vez mais no poder temporal.
De fato, a subida de um imperador dito cristão ao trono romano mudou muita coisa nos rumos da Igreja. Um dos primeiros efeitos foi a interrupção das terríveis perseguições que o estado vinha esporadicamente lançando con­tra os cristãos. Agora, sob Constantino, podia-se confessar a fé sem se ter a vida ameaçada por isso. Outra importante conseqüência se fez sentir na pró­pria capital do Império, onde o bispo local teve, em função da importância política — e agora religiosa — da cidade, seu prestígio elevado. Por toda a parte a Igreja começou a se estruturar segundo os padrões estabelecidos pelo estado romano. As cidades que tinham jurisdição política sobre outras, logo come­çaram a ter também jurisdição eclesiástica.
Enquanto a Igreja se romanizava, Constantino colhia os dividendos da reli­gião da qual se fizera líder universal. Como dissemos, o imperador mandou construir em sua nova capital, Constantinopla, a Igreja dos Santos Apóstolos, onde esperava reunir as relíquias dos doze discípulos do Senhor. Vale dizer que esse intento gerou uma busca frenética por restos apostólicos, que estimulou — pelas fantasias que produziu — o misticismo medieval e prejudicou enorme-mente a abordagem científica do paradeiro dos doze discípulos, com a misce-lânea de informações que propagou. Curiosamente, Constantino mandou erigir nessa catedral os túmulos dos doze santos dispostos num semicírculo, ao redor do seu próprio jazigo, num modo soberano de passar para a história como o décimo terceiro apóstolo da cristandade!
Muitas manifestações artísticas da época, como os mosaicos por exem­plo, passaram a celebrizar a obra de Constantino, identificando-a com a labuta de grandes apóstolos, especialmente Pedro, cujo ministério esteve — de algum modo — ligado à velha capital.
Num desses antigos mosaicos, pode-se ver Jesus Cristo entregando as cha­ves do reino a Pedro e o estandarte imperial a Constantino! A relação religiosa entre ambos os personagens foi gradativamente se consolidando. Daí ao esta­belecimento de Pedro como fundador do pontificado de Constantino — já adotado pelos bispos de Roma — seria uma mera questão de tempo.
O título de PontificexMaximus, de fato, adequou-se às pretensões políti-co-eclesiásticas de Constantino e ao desejo de supremacia nutrido pelos bis­pos romanos que lhe seguiram. Contudo estabelecer qualquer relação entre essa dignidade e o ministério exercido por Pedro é ignorar um processo his­tórico irrefutável.
A abordagem sobre o papado, além da análise sobre as conseqüências da ascensão de Constantino, exige ainda outra reflexão histórica importante: a origem da Sucessão Apostólica, uma antiga doutrina que, há muito, é usada para sustentar as aspirações dos bispos romanos.
Para a teologia católica, a sucessão apostólica é a doutrina segundo a qual o apóstolo Pedro, como detentor das chaves do reino e fundador da sé roma­na, passou adiante sua autoridade universal sobre a Igteja para os bispos (ou papas) que o sucederam naquela cidade, já que ali - segundo a tradição — teria findado seus dias, morrendo como testemunha do Evangelho. Entretanto, o desenvolvimento da sucessão apostólica — levado a cabo pelo bispo Cipriano de Cartago (200-258 A.D.) - não corresponde às origens dessa importante prática adotada pela Igreja primitiva. O que exatamente pretendiam os pri­meiros cristãos ao pregarem a sucessão apostólica?
Nos primeiros três séculos as ameaças externas à Igreja, como as persegui­ções infligidas pelo estado, estavam sendo fielmente respondidas pelos cren­tes com o sangue de seus mártires, vertido nas arenas dos estádios romanos. No entanto, as crescentes ameaças internas, especialmente as heresias, eram assaz mais difíceis de serem solucionadas, pois tratava-se de um inimigo su­til, infiltrado nos intestinos das comunidades cristãs. Uma dessas heresias, o gnosticismo, por sua complexidade doutrinária, esteve - segundo alguns his­toriadores - muito próxima de prevalecer sobre a ortodoxia cristã.
Não se sabe precisamente quando o gnosticismo penetrou os meios cris­tãos, entretanto é certo que o tenha feito antes mesmo da entrada do segun­do século. As epístolas de João, Judas e do próprio Pedro (especialmente o segundo capítulo de sua segunda epístola), refletem passagens nitidamente anti-gnósticas, e constituem prova de que ainda cedo a Igreja teve de lidar com essa doutrina sincretista. Ao tratarmos da biografia de João comenta­mos sobre aquilo que pensavam e pregavam os gnósticos. Aqui, importa apenas trazermos à luz o fato de que esses hereges clamavam possuir a gnosis ou o conhecimento espiritual, secretamente passado por Jesus a algum discí­pulo, do qual diziam derivar. Assim, ao se outorgarem o título de verdadei­ros depositários dos segredos de Jesus, os gnósticos questionavam a própria autoridade da Igreja estabelecida. Foi justamente contra essa posição teológi­ca que a sucessão apostólica foi implementada. Através dela procurou-se as­segurar que, se Jesus tinha realmente algum ensinamento secreto, o mais razoável seria crer que o confiaria aos próprios apóstolos, aos quais entregou a direção da Igreja. Os apóstolos, por sua vez, se possuíssem qualquer doutri­na secreta, também entregariam àqueles aos quais treinaram para lhes suceder nas comunidades que iam fundando em suas missões, semelhantemente ao que vemos nos escritos de Paulo a Timóteo (2 Tm 2.1-2).
Para provar a inexistência desses ensinos secretos que os gnósticos clama­vam ter recebido dos apóstolos e desmascará-los em suas pretensões, a lide­rança cristã daquele período tratou de estabelecer uma cadeia sucessória que ligasse seus bispos aos discípulos de Cristo e aos seus sucessores. Isto não foi, de todo, uma tarefa muito difícil, já que várias igrejas primitivas, entre as quais Éfeso, Antioquia e Roma, possuíam suas próprias listas episcopais. Embora muitas delas não fossem historicamente exatas em sua descrição, conseguiam —grosso modo — provar a conexão de seus respectivos bispos com o passado apostólico, conferindo a eles a necessária autoridade para se opo­rem aos arrogas dos gnósticos que, subitamente surgiam trazendo sua novi­dade nas igrejas. Tal foi a origem da chamada sucessão apostólica.
No século III, entretanto, por razões basicamente políticas, esse impor­tante mecanismo de defesa da ortodoxia cristã começou a ser transformado num meio de se garantir a supremacia do bispo romano sobre os demais, através de uma ligação documental deste com o apóstolo Pedro, suposta­mente fundador da Igreja romana e — como diziam — detentor do poder universal sobre a Igreja.
Além de corromper a origem da sucessão apostólica, a teologia romana esquece-se de que mesmo suas listas episcopais — sagradas para a manutenção da sucessão da cátedra petrina — apresentam notórias contradições. Enquanto algumas delas afirmam que Clemente sucedeu a Pedro, outras o apontam como o terceiro da lista, seguindo os nomes dos bispos Linus e Anacletus. Embora isto pareça um detalhe de pouca importância, Justo Gonzaléz acrescenta, de modo pertinente, que isto é tanto mais digno de nota por termos listas relativa­mente fidedignas de outras igrejas (op. cit., Vol.III, p.62). Além de denotar uma séria fissura na doutrina da sucessão petrina, essa contradição pode ainda signi­ficar o indício de que a Igreja de Roma, em seus primórdios, era regida não apenas por um bispo, mas por uma liderança plural ou um colegiado de anci­ões, tal como outras igrejas primitivas. Essa possibilidade nos parece tanto mais convidativa quanto mais atentamente consideramos a população de Roma que, com seus mais de um milhão de habitantes, por certo abrigou desde cedo numerosas congregações.
Outra questão a ser considerada quando avaliamos a sucessão apostólica como base para a supremacia do bispo romano é a fundação da Igreja de Antioquia da Síria, a primeira fora das terras palestinas. Em At 11.19-26, vemos que a congregação cristã daquela cidade foi iniciada por judeus con­vertidos foragidos de Jerusalém, em função da perseguição que martirizou Estevão. Barnabé e Paulo estabeleceram-se em Antioquia ainda cedo e minis­traram ali pelo espaço de um ano. Antioquia tornou-se, se não o principal, um dos principais centros do cristianismo no primeiro século, sendo a cida­de onde os cristãos foram assim denominados pela primeira vez.
Como já vimos, Pedro deve ter partido para lá logo depois de sua saída de Israel, em 44 A.D. Conquanto não haja qualquer prova que garanta a origem petrina dessa comunidade — como querem as igrejas orientais — são muito antigas as tradições que apontam o apóstolo como o primeiro bispo de Antioquia. An­tes de deixar a cidade, Pedro teria — segundo as mesmas lendas — entregue o encargo episcopal ao célebre Inácio de Antioquia. Essa possibilidade nos convida às seguintes perguntas: Por que, então, a cadeira sucessória de Pedro não se estabe­leceu nesse grande pólo do cristianismo primitivo, onde o apóstolo tradicional­mente exerceu seu bispado, anos antes de aportar em Roma? Se Pedro realmente tivesse a autoridade universal sobre a Igreja não deveria a sucessão apostólica valer também para os descendentes de seu episcopado em Antioquia, bem mais antigo que o de Roma? Estas questões tornam-se relevantes na medida em que tanto o ministério petrino de Roma como de Antioquia não podem ser provados bibli-camente, tendo apenas a tradição cristã como base de sustentação.
Se a doutrina da sucessão apostólica que acabamos de ver não credencia os arrogos papais, muito menos o histórico da evangelização de Roma, cujo bispado sagrado pela presença de Pedro teria se tornado preponderante ao das demais cidades. Já vimos as incoerências das tradições que atribuem a Pedro o surgimento da sé romana. Na verdade, ao receber a visita do velho apóstolo - em cerca de 60 A.D. - Roma já contava com uma congregação bem desenvolvida e presumivelmente liderada por um colegiado de anciões, e não por um bispo único. Portanto, o ministério de Pedro na capital impe­rial não diz respeito à fundação de sua sé mas ao seu desenvolvimento e aperfeiçoamento, tal como o apóstolo antes fizera em outras cidades, como Jerusalém, Antioquia e Corinto.
Ademais, quase nada se sabe acerca da Igreja romana até a virada do pri­meiro século, quando Clemente, bispo local, escreveu sua Epístola aos Coríntios. Se a liderança eclesiástica romana fosse, de fato, dotada da tão propalada primazia universal, a história de suas primeiras décadas certamente não seria marcada por tão grande silêncio. Essa relativa indiferença da história eclesiástica com os primórdios da sé romana explica-se pelo fato de que o centro do cristianismo primitivo estava no Oriente, em cidades como Jeru­salém, Antioquia e Alexandria e não na parte ocidental do Império. Mesmo no Ocidente, de fala latina, o bispado de maior importância não era Roma, embora fosse a cidade mais importante do mundo, mas sua rival histórica Cartago, na África.
A estranheza de que o possível martírio de Pedro em Roma tornasse essa cidade — marcadamente paga — o centro do cristianismo no mundo, é co­mentado por Rui Barbosa (op. cit., p.55).

"Roma nem pela Antigüidade, sequer, podia prevalecer sobre as outras sés. Antecedem-na as de Jerusalém, Éfeso, Antioquia e Corinto. O título de apostólica, reservado hoje exclusivamente à daquela cidade, Tertuliano atesta-nos que se aplicava a todas as igrejas, quer instituídas pelos apóstolos, quer ramificações dessas. Pode-se até dizer que chegou a tocar indistintamente a todas as metrópoles episcopais; e, ainda no século IV, os bispos orientais denominavam a Igreja de Jerusalém 'mãe de todas as igrejas'. "

De fato, se a Igreja cristã como um todo, necessitasse de uma capital terrena, seria biblicamente lógico se supor que este título se atribuiria a Jerusalém, onde se cumpriram os oráculos do Senhor e de onde a fé cristã irradiou para todo o mundo, como mostram as Escrituras (Is 2.3b).

"Porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém. "

Rui Barbosa continua sua demolição da tese de que a Igreja de Roma reinava soberana sobre a cristandade, nos primórdios do cristianismo (op. cit., p.55,57).

"Sob a unidade moral de uma adesão comum à fé cristã, cada Igreja nacional vivia e desenvolvia-se com autonomia completa. A par de Roma, floresciam, com uma exuberância de seiva, com uma abundância de personalidades notáveis, com uma influência moral e real incomparavelmen­te maiores, as igrejas do Oriente, a da África, a das Cálias, a de Espanha. Nenhuma tributava preito de vassalagem aos bispos romanos. O título de 'papa', simples honraria então, dirigia-se indiferentemente a todos os diocesanos, como ainda no século III, o endereçou o clero romano mes­mo a São Cipriano, bispo de Cartago.
Nenhuma preeminência, portanto, de jurisdição, quanto mais de doutri­na, lograva a capital da Itália; porque todos os distritos eclesiásticos eram membros independentes e iguais de uma comunhão superior, onde todos os chefes espirituais desvaneciam-se de 'vigários de Cristo'.(...)
Não só Roma não exercia então superioridade alguma, como, em mais de um sucesso, a vemos em manifesta inferioridade para com outras igrejas, nomeadamente a de África. Haja vista a escandalosa competência entre Cornélio e Novaciano, em meados do século III. Nessa luta, que dividiu o mundo cristão entre dous rivais, ambos pontífices em Roma, a resolução do sínodo romano, que deliberara em favor de Cornélio, excomungando o outro, não teve aceitação definitiva na cristandade, enquanto o sínodo cartaginês, mediante demorado exame e audiência dos bispos africanos testemunhas e co-participantes na eleição do papa, a não apurou e termi-nantemente admitiu. Pela mesma época, mais ou menos 253, os dous bispos espanhóis de Mérida e Leão, Marcial e Basilídio, depostos por um sínodo provincial, sob a imputação de haverem traído a fé durante a per­seguição de Gallo, tinham sido reintegrados pelo papa Estevão, para quem apelaram. Mas um sínodo, reunido por Cipriano na metrópole de África, anulou o ato de Estevão, confirmando o sínodo espanhol."

Como se vê, claro está que a alegada primazia de Pedro e a conseqüente preeminência do episcopado de Roma nada tem de genuinamente históri­co e muito menos de apostólico. Trata-se de uma aspiração estranha aos princípios neotestamentários, e que acabou por perpetuar a ânsia de domi­nação universal dos césares romanos, agora sob uma roupagem cristã. Com efeito, a doutrina da supremacia petrina, com as circunstâncias propiciadas pela ascensão de Constantino, tornou-se um trunfo nas mãos de uma cú­pula religiosa que, favorecida por sua localização geopolítica, tomou em­prestado o nome de um dos mais importantes apóstolos da cristandade para chancelar seus planos temporais de hegemonia.

Pedro, o príncipe dos apóstolos
E necessário ressaltar que a impropriedade histórica da primazia de Pedro — e de seus sucessores em Roma — em nada diminuiu o mérito deste galileu que foi, sem dúvida alguma, o mais destacado dos doze apóstolos.
Talvez Pedro não tivesse o preparo intelectual do contabilista Mateus, nem o ímpeto revolucionário do valente Simão Zelote; é provável que lhe faltasse também a capacidade reflexiva de João Zebedeu, o arrojo de Tiago Maior e a perspicácia de Tomé. Mas, por certo, sobejava-lhe um desejo incontido de investir sua vida na causa de Cristo, ainda que isso custasse seu próprio sangue. Como, de fato, custou.
Pedro não foi, nem jamais pretendeu ser, o Pontificex Maximus da Igre­ja; mas se pode dizer seguramente que ele foi o primeiro dentre os apósto­los. Ninguém que tenha diante de si as páginas do Novo Testamento pode negar isso, pois os Evangelhos e Atos estão repletos da presença desse ex-pescador, assim como de suas afirmações, suas contradições, seu entusias­mo e sua paixão pelo Senhor.
Por vezes, encontramos nele o perfil de alguém forte, inspirado, um visi­onário sensível à voz de Deus. Diante do milagre da multiplicação dos pei­xes, nenhum dos presentes foi tão tocado pelo senso de majestade e santidade de Cristo, senão aquele que, prostrado diante do Mestre, confessou "Senhor, retira-te de mim, porque que sou pecador" (Lc 5.8). Quando, após duro ser­mão, muitos se escandalizaram e se afastaram de Jesus, Pedro foi quem tra­duziu em palavras o sentimento dos remanescentes: " Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna' (Jo 6.68). Qual dos doze, senão Pedro, reuniria coragem e fé suficientes para propor àquele que se aproximava cami­nhando sobre o mar tempestuoso: "Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas" (Mt 14.28)? Quando, certa vez, os doze foram inquiridos sobre o que pensavam de seu Mestre, foi a Pedro que o Pai revelou aquilo que a mente humana não pode alcançar: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo" (Mt 16.16). Haveria dentre os discípulos alguém mais auto-confiante e im­pulsivo que aquele que garantiu: "...Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão, como para a morte" (Lc 22.33)? Quem, senão o rude galileu, seria o primeiro a romper com o medo e o silêncio de várias semanas e bradar aos judeus durante a celebração do Pentecostes: "Arrependei-vos..." (At 2.38)? Como não nos impressionarmos com o destemor com que ele retrucou às autoridades religiosas que, pouco antes, levaram seu Mestre à cruz: "...Antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29)?
Mas, qualquer perfil que tentemos traçar de Pedro, por certo, não estaria completo sem considerarmos suas fraquezas e suas contradições. Pouco de­pois da maravilhosa confissão em Cesaréia de Filipe, lá estava ele recebendo do Mestre dura reprimenda por deixar-se ser usado pelo diabo (Mt 16.23).
No jardim do Getsêmani, tomado pelo sono, não consegue sequer compar­tilhar os momentos de aflição com Aquele por quem garantia seguir até a morte (Mt 26.40). Por fim, lançado em grande vitupério por sua própria fraqueza, nega repetidamente seu Senhor diante de várias testemunhas (Mt 26.74).
Quantos contrastes estão presentes em Pedro! Em nenhum outro perso­nagem neotestamentário há tanto o que se admirar e, ao mesmo tempo, tanto o que se repudiar. Nenhum outro reúne tantas virtudes e tantos de­feitos, tanta valentia e tanto temor; a nenhum deles Cristo dirigiu tantos louvores, nem tantas palavras de repreensão.
Talvez a razão maior de nossa atração por esse ex-pescador não seja tanto sua inegável capacidade de liderança e sua iniciativa, atestadas nos Evange­lhos. Tampouco seus feitos e conquistas para a Igreja, também registradas na tradição posterior. Tudo isso é, obviamente, assaz admirável em Pedro. Mas, talvez o que mais nos apaixone nele seja o fato de sua personalidade ambígua, contrastante e — por vezes — chocante retratar fielmente as oscilações da natureza humana. Cada um de nós encontra muito de si mesmo em Simão Pedro. Às vezes — é verdade — nos assemelhamos ao Pedro das águas tempestu­osas; ante o menor sinal do Mestre, aceitamos desafiar até mesmo o impossível pelo reino de Deus! Outras vezes, submetidos por nossas faltas e nossos peca­dos, somos como o medroso e perjuro galileu nos átrios de Caifás. Pedro é, pois, antes de tudo, um retrato fiel de todo cristão.
Há, por certo, muito o que se aprender com a experiência desse apóstolo. Poder-se-ia escrever muitos livros sobre ela sem jamais esgotá-la, tal a sua rique­za e profundidade. Contudo, três de seus aspectos vale a pena ser destacar, ao concluirmos a abordagem desse campeão da cristandade. Primeiramente, ve­mos em Pedro como Deus realmente "...escolheu as coisas loucas do mundo para envergonha os sábios; e (...) as coisas fracas do mundo para envergonhar os fortes" (1 Co 1.27). Pois, quem jamais pensaria que este rude pescador seria um dos principais ministros de uma fé que nem a poderosa Roma conteria? Quem imaginaria que seus feitos e seus ensinos ecoariam por todo o mundo, transfor­mando mentes e corações quase dois milênios após sua morte?
Em segundo lugar, ávida do discípulo Pedro nos ensina o quanto erramos quando nos estribamos em nossa própria virtude ou coragem ao tentarmos servir o Senhor. Os altos e baixos de sua vida discipular são prova disso. Por mais virtuosos que sejamos ou por mais dispostos e sinceros que estejamos em nossa devoção, não iremos muito longe sem a unção celestial, sem a capacitação que vem do alto. Quando, após a ressurreição de Cristo, o velho apóstolo certificou-se dessa realidade, tornou-se irresistível na obra do Senhor!
Mas, acima de tudo, Pedro nos ensina sobre as riquezas da misericórdia de Deus para conosco e sobre a possibilidade de sermos plenamente restaura­dos, quando arrependidos de nossas falhas. As lágrimas amargas que derra­mou após a tríplice negação de seu Mestre na casa de Caifás expressaram justamente seu desespero por temer jamais ser recuperado para o serviço de Cristo. Afinal, qual é a diferença essencial entre o delator e o perjuro? Pedro sabia sobre o fim de Judas e temia que semelhante amargura o vencesse. Mas ele estava enganado, afinal "...se o nosso coração nos acusar, certamente Deus é maior do que o nosso coração, e conhece todas as cousas'' (1 Jo 3.20). A imensurável clemência de Deus encontrou no coração despedaçado de Pedro aquilo não encontrara em Judas Iscariotes.
Um dos aspectos que marcaram o ministério do apóstolo foi, sem dúvi­da, a questão dos convertidos dentre os gentios. Essa era uma controvérsia muito séria para um judeu como Pedro. Pode-se ver sinais desse conflito interior tanto em Atos como nas epístolas paulinas. Coleman explica a di­mensão do problema para o velho apóstolo (op. cit., p.71-72).

"Pedro, longe de ser um cristão inconstante, sofreu grandes tormentos de consciência. No decorrer da vida ele meditou continuamente no proble­ma dos convertidos gentios. Perante o concilio de Jerusalém (At 15) o apóstolo defendeu o pleno direito deles. Mas, outras vezes ele tinha pen­samentos diferentes que o faziam sofrer.
As faces sorridentes dos cristãos gentios faziam-no disposto a aceitá-los. Por certo a visão que recebeu de Deus o impulsionava (At 10.9-16). Não obstante, seus fortes escrúpulos continuavam a remorder.
Em algum ponto ao longo do ministério de Pedro, ele e Paulo desavieram-se por causa do problema. O pescador havia regressado e agora rejeitava a aceitação plena dos gentios. Paulo diz-nos que lhe resistiu face a face em virtude do problema (Cl 2.11-14)."

A despeito desse conflito, Pedro prosseguiu vigoroso em toda sua vida como mensageiro do Evangelho, exercendo uma das lideranças mais pu-jantes da história da Igreja. Os relatos que a tradição preservou de suas jornadas missionárias por certo não refletem senão uma ínfima parcela de seus empreendimentos pelo reino de Deus. Provavelmente nunca sabere­mos se Pedro, de fato, realizou a tradicional missão à Britânia, se evangelizou os judeus da Babilônia ou se enviou missionários à Germânia. Talvez nunca cheguemos a conhecer a extensão de seu trabalho em Antioquia e Corinto ou se participou da evangelização da Ásia Menor, onde outros apóstolos já tra­balhavam. Teve ele, realmente, acesso às autoridades romanas durante seu ministério na capital imperial? Ou, ainda, teria o apóstolo alcançado outras regiões mais distantes, ignoradas pela tradição? Talvez os esforços arqueológi­cos venham, um dia, responder algumas desses perguntas. Enquanto isso, nos confortamos em saber — quer pelas Escrituras, quer pela tradição crista — que este pescador tornou-se certamente um dos maiores exemplos a serem seguidos por aqueles que professam o nome de Cristo.
A Deus — e somente a Ele — seja toda a glória!
FONTE: Doze homens e uma missão / Aramis C. DeBarros. - Curitiba : Editora Luz e Vida, 1999.

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