quinta-feira, 30 de junho de 2011

História do Apóstolo João (doze Homens e uma missão)

Imagem cedida por: http://jcsorg.blogspot.com/2009/07/licao-1-primeira-carta-de-joao.html


JOÃO

"Disse-lhe João: Mestre, vimos um homem que em teu nome expelia demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibi­mos, porque não seguia conosco."
Mc 9.38

Se o contexto do Novo Testamento não nos lega informações sufi­cientes para perfilarmos, de forma satisfatória, a maioria dos discí­pulos de Cristo, o mesmo não se pode dizer com respeito ao apósto­lo João, cuja personalidade tornou-se uma das mais destacadas dentre os doze. Seu ministério pós-bíblico, alvo constante de escritores primitivos e medievais, transformou-o num dos grandes vultos do cristianismo em todos os tempos.
Com efeito, essa fartura de subsídios históricos disponíveis sobre o apósto­lo apresenta duas faces. A primeira positiva, pois seguramente se constitui num auxílio ao pesquisador em sua investigação sobre os rumos seguidos pelo mi­nistério joanino nos dias não cobertos pela narrativa bíblica. A segunda, preocupante, pelo que amplia o desafio ao exercício do discernimento sobre os limites entre lenda e história, entre imaginário e real, entre aquilo que o apósto­lo verdadeiramente realizou e aquilo que seus biógrafos gostariam que tivesse feito.
Para melhor nos posicionarmos em relação ao início da carreira de João, importa que os enfoques da história cristã cedam a primazia aos elementos neotestamentários sobre o apóstolo, os quais se acham distribuídos pelas páginas dos evangelhos, do livro de Atos, de suas próprias epístolas pastorais e do Apocalipse. Através desses textos bíblicos estabeleceremos o perfil inici­al do chamado apóstolo amado.
O nome João significa Jeová é Gracioso. Ao contrário da maior parte de seus companheiros de discipulado, João provinha de um lar que conheceu certa abastança. Seu pai, Zebedeu, fez crescer seu empreendimento a ponto de contratar trabalhadores para auxiliá-lo em seu ofício de pescador (Mc 1.20), do qual João participava ao lado de seus sócios e futuros condiscípulos, Pedro e André (Lc 5.8-10). Essa prosperidade, de alguma for­ma, tornou o apóstolo conhecido de algumas autoridades de Israel (Jo 18.15), como sugere McBirnie (op. cit., p.109).

"(João) Estava presente na corte, durante o julgamento de Jesus, devido ao fato de ser conhecido da família do Sumo Sacerdote. Ele provavel­mente exercera negócios em Jerusalém na área de representações da indústria pesqueira de seu pai, tornando-se, assim, conhecido de gente proeminente daquela cidade."

Sua mãe, Salomé, é mencionada nomi­nalmente apenas duas vezes nas Escrituras, em Mc 15.40 e 16.1. A partir dessas cita­ções, e de Mt 20.20 e Mt 27.56, presumi­mos também sua presença na passagem de Jo 19.26.
Salomé foi uma das mulheres piedosas que seguiam fielmente o ministério de Jesus des­de a Galiléia, servindo-O com seus bens (Mt 27.55-56). Sua ousadia durante o episó­dio onde roga que seus filhos se assentem um à direita e outro à esquerda do Mestre em sua glória, aliada ao fato de Jesus ter, no Calvário, entregue Maria, Sua mãe, aos cuidados de João, tem feito alguns estudiosos suspeitarem de alguma relação de parentesco entre essas duas personagens neotestamentárias. Salomé seria, como sugerem, a irmã de Maria citada em Jo 19.25, cujo nome teria sido humilde­mente omitido pelo evangelista, seu filho, que testemunhara o fato. Se assim for, segue-se que Jesus era primo dos filhos de Zebedeu, João e Tiago. Isso poderia explicar, em parte, a inti­midade existente entre eles, claramente de­monstrada pelos evangelhos.

A influência de João Batista
O discípulo anônimo do profeta João Batista que, ao lado de André, é apresentado ao Cordeiro de Deus em Jo 1.35-40, parece tratar-se do próprio evangelista. Assim, nosso apóstolo — mesmo não sendo primo de Jesus — pode ter tido contato com o Mestre antes de sua vocação discipular narrada em Mt 4.21,22. Supõe-se que a influência de uma personalidade, por um lado simples e devotada, por outro, ardente e destemida, como a do profeta João Batista, tenha gerado a atmosfera propícia para o aprofundamento espiritual do renomado líder eclesiástico que João viria a se tornar.
Ao lado do rude profeta, nosso apóstolo aprendeu os segredos de uma espiritualidade bucólica, em que se buscava ouvir a voz do Senhor Deus na solitude e na contemplação da natureza, obra de Suas mãos. Entretanto, em João Batista, essa devoção ascética convivia harmoniosamente com um dina­mismo que o tornava semelhante a um caniço agitado pelo vento do Espíri­to (Mt 11.7)! Nesse varão de hábitos rústicos, acostumado às privações de uma vida despendida nas regiões desérticas da Judéia e Peréia, João reconhe­ceu alguém verdadeiramente enviado por Deus (Jo 1.6). Seus sermões estre­meceram a cúpula religiosa de Israel, comparada pelo profeta às medonhas serpentes do deserto, com as quais se familiarizara em sua vida retirada (Mt 3.7-10). Seu vigoroso zelo pela santidade não permitiu que se calasse diante do adultério de um dos mais temidos homens públicos de sua época, o tetrarca Herodes Antipas, mesmo que essa denúncia viesse a lhe custar a própria vida, como de fato ocorreu (Mt 14.3-11).
Por fim, esse homem de hábitos simples, que personificou a esperança messiânica de Israel e que gozava do respeito até mesmo de seus mais cruéis inimigos (Mt 14.5), demonstrou-se alguém capaz de associar a consagração de uma vida rigorosamente ascética, para a qual fora separado, com uma espiritualidade traduzida em ensinamentos práticos, que tangem a questões do cotidiano como, por exemplo, ética no trabalho e justiça social (Lc 3.10-14). Foi a partir dos referenciais e das experiências passadas ao lado desse valoroso profeta que João, o futuro evangelista, começou a delinear seu perfil espiritual, se preparando para a maior de todas as vocações: seguir a Jesus.

João, discípulo de Cristo
Algumas passagens encontradas em seu evangelho e sua própria carreira ao lado de João Batista deixam transparecer em nosso apóstolo um coração ardentemente judaico, em plena sintonia com as especulações messiânicas de sua nação, muito populares naqueles dias. Esse anelo pela revelação do
Ungido fez com que João atendesse prontamente a chamada do, até então, pouco conhecido ho­mem de Nazaré, a quem já fora apresentado por seu antigo mestre e que já arrebanhara, àquela al­tura, dois de seus velhos amigos e parceiros de tra­balho, Simão Pedro e André. A vocação defini­tiva de João acontece mais adiante, nos arredo­res do Mar da Galiléia, quando Jesus principia seu ministério, pregando o arrependimento de pe­cados e a iminência do reino de Deus (Mc 1.16-20).
Devemos exclusivamente ao testemunho de João o registro sobre como Jesus principiou seu ministério, durante uma festa de casamento, em Cana (Jo 2.1-11). Na verdade, não fosse esse detalhe em seu evangelho, não saberí­amos sequer da existência desse povoado da Galiléia, hoje identificado com a pequenina Kofr Kenna, um vilarejo de população predominantemente árabe.
Muito se tem especulado acerca do perfil psicológico do apóstolo João. A arte cristã, ao longo dos séculos, deu sua parcela de contribuição retratando-o como uma personalidade singela, terna, quase feminina. Essa imagem, embora satisfaça as exigências estéticas do artista medieval, contrasta, na verdade, com a silhueta que as Escrituras traçam do apóstolo. Como já comentamos anterior­mente, a tradição eclesiástica, no ardor de legar para a posteridade os feitos memoráveis dos discípulos, ao descrevê-los acabou exacerbando algumas de suas características, tornando-os figuras caricatas. Como produto dessa influên­cia, tem-se por exemplo a idéia de um Tomé constantemente incrédulo e de cerviz endurecida, de um Simão Pedro sempre impulsivo e impetuoso e de um João continuamente sereno e contemplativo, como convinha a figura do discípulo a quem Jesus amava (Jo 21.20). Esta é a perspectiva exata sob a qual o vêem muitos comentaristas bíblicos, entre os quais John D. Jones (op. cit., p.46-47).

"(João) Era um homem de espírito quieto, contemplativo, quase místico.
(...)
Filho de Zebedeu, João é apresentado como sendo o 'discípulo a quem Jesus amava'. Nele havia algo de tão gracioso, tão cativante, tão celestial que Jesus - se é que posso assim dizer - se apaixonou por ele. A alma de Jesus de tal modo ligou-se a de João que ele o amava como sua própria alma.(...) Assim, por esse testemunho, sei que esse mesmo João era o mais santo e assemelhado a Cristo dentre todos os apóstolos."

A opinião do renomado pregador gales, embora abrilhante o romantis­mo com que freqüentemente se aborda a carreira dos doze, carece de ser corrigida à luz de algumas passagens neotestamentárias.
Ao contrário de um ser quase angelical, floreadamente pintado por mui­tos artistas e declamado por tantos pregadores, temos em João um homem tão pecador e frágil como seus demais amigos de discipulado. Um homem semelhante a qualquer um de nós, marcado por uma existência plena de ambigüidades e contradições. Os contextos bíblicos nos quais está inserido permitem identificar três aspectos básicos de sua personalidade que em nada avalizam o ideal discipular construído pela tradição cristã: sua enérgica capa­cidade de reação diante da oposição, seu forte sentimento sectarista e sua inclinação para o poder.
Para o primeiro caso, basta-nos o episódio narrado em Lc 9.54. Ali, toda a ternura do discípulo João é colocada em cheque diante da naturalidade com que propõe tão severo juízo sobre os samaritanos, os quais rejeitaram abrigar o Mestre em sua jornada para Jerusalém:

"Vendo isto, os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?"

Semelhante postura vingativa, contrária à própria essência do evange­lho, exigia da parte do Mestre uma dura repreensão (Lc 9.55).

"...Vós não sabeis de que espírito sois."

Nesse episódio percebe-se com clareza que o amor e a mansidão de Jesus despontavam como algo estranho ao coração do jovem discípulo. Afinal, as expectativas proféticas que nutria recomendavam um Messias que feriria a ter­ra com a vara de sua boca, e com o sopro de seus lábios destruiria o ímpio (Is 11.4b)!
Sua inclinação sectária é também flagrante no texto dos evangelhos. Alheio à mensagem inclusivista de seu Mestre, João sente-se orgulhoso por repreen­der alguém que, embora ostentasse o nome de Cristo, não fazia parte da seleta comunidade dos discípulos (Mc 9.38):

"...Mestre, vimos um homem que em teu nome expelia demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não seguia conosco."

Curiosamente, a intolerância de João reflete muito bem o tipo de senti­mento com o qual miríades de cristãos se identificaram ao longo de quase dois milênios de história eclesiástica: a idéia de que Jesus nos pertence ou de que é propriedade exclusiva de nosso grupo religioso. Esse exclusivismo destruidor não atenta nem para a fé no nome de Jesus, nem para os milagres dela advindos, quando praticados por outros alheios ao nosso grupo ou comunidade.
Por fim, há ainda o fascínio que a perspectiva do poder espiritual exerceu sobre a mente do jovem aprendiz. Ao lado de seu irmão e, auxiliado por sua mãe, João empreendeu esforços na tentativa de lograr proeminência naquilo que concebia ser o futuro reino do Messias (Mc 10.37).

"...Permite-nos [Senhor] que na tua glória nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda."

E desnecessário lembrarmos que o termo assentar-se aqui mencionado pelo filho de Zebedeu traduz a idéia de trono real, ou seja, do símbolo máximo da monarquia, a principal expressão de autoridade então conhecida.
Ê justo registrarmos, por outro lado, que essa sede pelo poder não era um exclusividade de João, tampouco de seu irmão mais velho, Tiago. Pouco antes dessa controvertida petição, encontramos uma delicada situação de con­flito entre os doze, cuja vertente era justamente a questão da primazia entre eles (Mc 9.3-4).

"Tendo eles partido para Cafarnaum, estando ele em casa, (Jesus) interro­gou os discípulos: De que é que discorríeis pelo caminho?
Mas eles guardavam silêncio; porque pelo caminho haviam discutido en­tre si qual era o maior."

Mateus e Lucas também registram outras ocasiões onde a mesma incli­nação parece dominar as mentes e os corações dos seguidores de Jesus:

"Naquela hora, aproximaram-se de Jesus os discípulos, perguntando: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus?"
"Suscitaram também entre si uma discussão sobre qual deles parecia ser o maior"
Lc 22.24

Diante disso, o pedido ganancioso de João e Tiago tornou-os alvo da indignação de seus condiscípulos (Mc 10.41), não porque isso lhes tenha parecido algo abominável, mas antes por ter representado um ousado adi­antamento aos demais na busca pelos privilégios e pelo poder do tão so­nhado reino messiânico.
Jesus resumiu a irascibilidade e o temperamento apaixonado de João e seu irmão Tiago, no epíteto Boanerges, ou Filhos do Trovão, cuja menção acompanha seus nomes na lista de Mc 3.17. Essa palavra aramaica de origem ainda não muito bem definida contribui para o confronto definitivo da ima­gem contemplativa, dócil e serena, que a tradição eclesiástica atribuiu ao dis­cípulo através dos séculos.
Todavia, se a história inicial de João foi marcada pela impulsividade e pelo caráter irascível, os anos de caminhada ao lado do Mestre, para quem se tornara um dos mais íntimos discípulos, e seu amadurecimento gradativo como apóstolo do evangelho revelaram um homem radicalmente diferen­te, que se transformou num verdadeiro paradigma de caráter trabalhado pelo Espírito Santo.
Como fruto dessa mudança interior, surgiu então um homem profun­damente marcado por uma personalidade na qual o amor, a misericórdia e a paz eram abundantes. Sua rica literatura bíblica - particularmente as epís­tolas — não deixa dúvida sobre a dimensão da metamorfose ocorrida em seu íntimo, como veremos mais adiante. Este João, experimentado, sofrido e amadurecido com os longos anos de apostolado é aquele que enfim se coa­duna com o perfil retratado pela arte primitiva e medieval. Atribuir tais qualidades ao jovem discípulo João é florear sua biografia, é caricaturar sua experiência cristã. Essa abordagem do discípulo como uma figura de virtu­des cristãs extemporâneas tem alimentado apenas o estereótipo mítico que a tradição construiu sobre ele, sumamente prejudicial a uma análise mais ampla e imparcial de sua vida e ministério.
As ricas experiências ao lado de Jesus, responsáveis pelo impacto que trans­formou o filho do trovão no apóstolo do amor, constituirão nosso próximo enfoque. O aperfeiçoamento espiritual que tal achego produziu em João, pode ser resu­mido nos dois episódios bíblicos que envolvem o discípulo e os discriminados samaritanos. O primeiro deles (Lc 9.54) exprime toda a inexperiência e a irascibilidade características de seu primeiro momento como discípulo e que lhe valeram o citado cognome. O segundo, por outro lado, reflete alguém que experimentara o doce fluir do Espírito no Pentecostes e se tornara um dos anciões da Igreja de Jerusalém. Alguém capaz de abrir mão de seus preconceitos e descer até aqueles pobres discriminados para ungi-los com o Espírito.

O discípulo a quem Jesus amava
João compunha a tríade de discípulos mais íntimos de Jesus. O que exa­tamente determinou essa seleção? Não sabemos. A possível relação de paren­tesco entre os filhos de Zebedeu e Jesus — já antes mencionada — poderia explicar parte dessa proximidade, se bem que não totalmente. Talvez houves­se algo por trás do comportamento apaixonado e inquieto apresentado por esses homens com o que Jesus pessoalmente se identificasse. De qualquer modo, o fato de estar entre os três mais próximos de Jesus proporcionou a João algumas oportunidades de presenciar as maravilhas do poder de Deus manifestas em Cristo. De tal sorte foi o jovem aprendiz marcado por esses momentos de glória que presenciou ao lado do Senhor, que seus escritos canônicos acabaram recebendo uma ênfase notável no caráter testemunhai de seu discipulado, facilmente detectável no emprego exaustivo de termos gre­gos como marturia (testemunho - Jo 3-32,33; 5-34; 8.17; 21.24; I Jo 5-10,11; Ap 1.2,9; 6.9; 11.7; 12.11,17; 19.10; 20.4), ou do verbo martureo (teste­munhar - Jo 2.25; 3.11,32; 4.39,44; 5.39; 7.7; 15.26; 19.35; 21.24; I Jo 4.14; 5-9; 3Jo 3; Ap 22.16,18,20), como vemos nos exemplos abaixo:

"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade e vimos a sua glória, glória como a do unigênito do Pai"
Jo 1.14

"e testifica o que tem visto e ouvido; contudo ninguém aceita o seu testemunho."
Jo 3.32

"Aquele que isto viu, testificou, sendo verdadeiro o seu testemunho..."
Jo 19.35ª

"O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (...): o que temos visto e ouvi­do anunciamos também a vós outros, para que vós igualmente mantenhais comunhão conosco."
I Jo 1.1,3a

Essa proximidade com Jesus conferiu a João alguns preciosos momentos só compartilhados por seus condiscípulos Pedro e Tiago, além de, eventualmente, André. Esses homens foram contemplados com a bendita exclusividade de pre­senciar milagres como o da cura da sogra de Pedro (Mc 1.29-31), da ressurrei­ção da filha de Jairo (Mc 5.37; Lc 8.51), da pesca miraculosa (Lc 5.10), da glória da transfiguração no monte (Mt 17.1), das advertências sobre a destrui­ção de Jerusalém (Mc 13.3) e da agonia no jardim do Getsêmani (Mt 26.37).
Entretanto, não se deve pensar que a intimidade de nosso apóstolo com seu Mestre se limitou apenas ao testemunho desses milagres; foi João quem sentou-se mais próximo a Jesus, durante a noite da Páscoa e aquele que dei­xou transparecer - através do recostar de sua cabeça sobre o peito do Mestre -uma profunda comoção com o anúncio da traição (Jo 13.21-25; 21.20). Ali­ás, a idéia que temos ao ler Jo 13.23, é que mesmo an­tes de reclinar sua cabeça no seio de Jesus para inquiri-Lo sobre a terrível profecia, João permanecera "acon­chegado" (gr. anakeimai) a Ele, ou seja, comodamente disposto junto a seu Senhor, como um filho que anela pela proteção do pai. A afetividade demonstrada para com seu Mestre - sem paralelos nas Escrituras -contrasta com as atitudes enérgicas que marcavam sua impetuosidade e secta­rismo. Ela foi o primeiro indício de que o "filho do trovão" se tornaria, mais adiante, o afável "discípulo a quem Jesus amava".
É curioso notarmos que apenas João atribuiu a si mesmo o honroso títu­lo de "o discípulo a quem Jesus amava" (Jo 13.23; 19.26; 20.2; 21.7,20); porém, quando o faz, não explicita seu nome. Na realidade, essa expressão, longe de representar qualquer jactância de sua parte, refere-se muito mais ao profundo laço de comunhão que, com o passar dos anos, fundiu sua alma à de seu amado Senhor. Autores como Herbert Lockyer, em seu livro Ali the Men of theBible (p. 196-7), sugerem que tal expressão traduzia, na realidade, um trocadilho com o próprio significado original do nome de João, amado de Jeová, ou aquele a quem Jeová ama.
Acerca dessa rara distinção atribuída ajoão, comentaJones (op. cit., p.46):

"Belas palavras têm sido ditas e escritas acerca dos eminentes santos da Antigüidade, no Velho Testamento. De Enoque, por exemplo, é dito ser aquele que 'andava com Deus'; de Moisés diz-se que 'falava com Deus como de amigo para amigo'; Davi é lembrado como 'o homem segundo o coração de Deus'. Aqui temos, entretanto, palavras mais belas a serem ditas. João, filho de Zebedeu é mencionado como 'o discípulo a quem Jesus amava'.(...)
Jesus encontrou em João sua alma gêmea. Sim, Aquele que não cometeu pecado e em cujos lábios nenhum dolo foi achado, encontrou em João a alma mais semelhante a Sua. (...) Jesus Se deleitava em João e se fazia acompanhar dele, concedendo a ele um lugar especial em Seu coração; João era 'o discípulo a quem Jesus amava'."

As páginas dos evangelhos registram ainda outros momentos que corro­boram esse distintivo título atribuído ao discípulo. Examinemos, então, alguns deles mais acuradamente.
Conquanto a captura de Jesus no Getsêmani tenha cumprido a profecia que apontava para o dispersar dos discípulos após Sua detenção (Zc 13.7; Mt 26.31,56; Mc 14.27,50; Jo 16.32), encontramos o apóstolo João corajo­samente seguindo a escolta que conduzia seu Mestre até a presença dos sumo-sacerdotes Anás e Caifás (Jo 18.15-16). Como sugere McBirnie, João alcançou, devido a sua prosperidade como empresário no ramo pesqueiro, uma notorie­dade tal que o tornara conhecido de algumas autoridades nacionais como o próprio sumo-sacerdote. Foi justamente esse status que permitiu a João não apenas entrar na casa de Caifás, mas também introduzir ali Simão Pedro (Jo 18.16), a fim de acompanharem mais de perto os desdobramentos relati­vos à prisão de Jesus. Visto que os discípulos de Jesus, quando de Sua deten­ção, também se tornaram alvo da inquirição do sumo-sacerdote (Jo 18.19) e que apenas o distintivo sotaque gaiileu seria o suficiente para os denunciar como suspeitos de envolvimento com o alegado agitador (Mt 26.73), temos nesse episódio uma evidência da devoção de João para com seu Rabi.
Por outro lado, o coração apaixonado do discípulo certamente se derramou em prantos diante da punição ignominiosa a que seu Mestre fora submetido: a crucificação. Pelo testemunho de seu próprio evangelho, temos razões sufici­entes para crermos que João acompanhou todo o processo de execução que culminou no martírio que os romanos costumavam chamar de crudelissimum taeterrimunque suplicium — o mais cruel e terrível dos suplícios.
Atônito o bastante para não se lembrar das palavras proféticas de Jesus com respeito àquele momento, João provavelmente assistiu seu Mestre ser entregue ao lancinante e por vezes fatal flagelum, o açoitamento que antece­dia a crucificação e que fazia o corpo do condenado pender em sangrentas talhadas (Mt 27.26). Como descrever a dor do discípulo ao testemunhar Aquele para quem se destinavam toda glória e poder em Israel sendo escarneci­do, espancado e coroado com espinhos, numa cerimônia sarcástica empreendi­da por parte dos embrutecidos soldados da coorte Antônia (Mt 27.27-31)? Os olhos de João se banharam em lágrimas ao atestarem o trôpego caminhar de Jesus pelas ruelas de Jerusalém, incapaz que estava de suportar o peso do patibulum, a trave horizontal que, dali a pouco, receberia, com o fincar dos cravos, seus braços estendidos. A exaustão tornara seu Mestre inapto para pros­seguir com a jornada pela cidade em direção à cruz, que os executores chama­vam de patibulum feratper urbem. A retomada só foi possível com o auxílio de um desconhecido camponês tomado dentre a multidão que, em meio àquele alvoroço, acompanhava o espetáculo ignóbil (Mt 27.32). João se contava en­tre os milhares de espectadores que, junto àquela movimentada via de acesso à Cidade Santa, viram se cumprir no Ungido de Deus a mais violenta, torturante e abjeta pena capital jamais elaborada pelo homem.
A ereção do patibulum, sobre o qual pendia o corpo desnudo e ensan­güentado do Mestre, de tal sorte marcou o coração de João que, anos mais tarde, ao registrar seu testemunho, soube, como nenhum outro evangelista, ressaltar a relevância daquele momento.

"E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim impor­ta que o Filho do homem seja levantado"
Jo 3.14

"Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que eu sou e que nada faço por mim mesmo;"
Jo 8.28

"E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim."
Jo 12.32

Seria precipitado afirmar que João foi o único dos doze a presenciar a cruci-ficação de Cristo. Mesmo confusos e atemorizados, os demais discípulos -exceto Judas Iscariotes — poderiam ter acompanhado a execução, passando des­percebidos em meio à populaça que se apinhava pelas ruas de Jerusalém por ocasião da Páscoa. De qualquer modo, sabemos, pelo testemunho das Escritu­ras, que João foi o único dentre os apóstolos a dialogar com o Mestre em Seus últimos momentos na cruz. Ao lado dele estavam também as fiéis seguidoras de Jesus, a saber, Sua própria mãe, Maria, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago Menor e José. Esta última era esposa de Clopas, personagem que alguns autores identificam com o Alfeu das listas apostólicas.
Um detalhe impreciso no episódio do diálogo de Cristo com João é a ques­tão da distância que este e as demais testemunhas mantiveram do Crucificado. As Escrituras não deixam muito claro como se desenrolou essa abordagem; enquan­to João diz estarem junto a cruz (Jo 19.25), Lucas e Marcos afirmam que esses íntimos espectadores permaneceram a contemplar de longe estas cousas (Lc 23.49, Mc 15.40). A fim de tentarmos equalizar essas duas narrativas aparentemente conflitantes, é necessário trazermos à luz alguns detalhes importantes acerca do processo de crucificação. Dada a ameaça constante de rebeliões por parte dos radicais zelotes, os condenados por crimes como motins, insurreições e proble­mas de ordem religiosa, eram, em geral, guardados por uma escolta de quatro homens, gerenciada pelo exactor mortis, o centurião que encabeçava a execução (conf. Mt 27.36). Qualquer transeunte que se aproximasse exageradamente do moribundo, seria considerado suspeito, sendo pois, prontamente rechaçado pela guarda romana. Portanto, aquilo que as traduções apresentam como junto à cruz Qo 19.25), pode ser, na verdade, uma versão exagerada do termo grego histemi que, embora seja traduzido como estar em pé diante de, não implica necessaria­mente numa relação de proximidade (conf. Mt 6.5, 20.32, Lc 6.8 eAp 18.15), ao contrário do termoparistemi, usado no versículo seguinte em referência a João e Maria. Assim, tomando-se a passagem de Jo 19.25 à luz de suas paralelas sinópticas, pode-se concluir que João e as demais testemunhas se colocaram o mais próximo possível da cruz — diante das restrições acima mencionadas — em distância suficiente para se travar o diálogo descrito pelo evangelista.
A questão envolvendo a atitude de Jesus ao entregar Sua mãe — possivel­mente viúva por aquela ocasião — aos cuidados de João, como vemos des­crita apenas em Jo 19.25-27, tem suscitado algumas enfadonhas tentativas de interpretação. Sem extensas conjecturas, podemos nos contentar com a possibilidade de que tal entrega se justificou pelo simples fato de os irmãos de Jesus terem, até então, rejeitado Sua condição messiânica (Jo 7.5), a qual
Maria já havia reconhecido. Devemos lembrar que as mulheres sofriam assaz discriminação naqueles dias. As viúvas, particularmente, acabavam vítimas do esquecimento e do desamparo social, atitudes contra as quais as Escritu­ras, desde os tempos mosaicos, severamente pregavam (Ex 22.22, Dt 10.18, SI 68.5, SI 146.9, Lc 18.3, Tg 1.27). Essa delicada condição poderia ainda sofrer sério agravamento se algum "desajuste" de ordem religiosa fosse verifi­cado. Não seria essa exatamente a situação da viúva Maria, ao depender de filhos que se opunham a sua crença num Messias rejeitado pelo sistema reli­gioso e morto numa cruz? Sob essa perspectiva é compreensível que Jesus a tenha confiado aos cuidados de alguém que não apenas a cercaria de todo carinho e respeito, como também comungaria de sua fé e devoção. Ademais, há que se considerar a suposta irmandade entre Salomé, mãe de João, e Ma­ria — defendida por alguns pesquisadores e já comentada no início do capítu­lo — que tornaria João alguém íntimo para receber de Jesus semelhante encargo.
A combinação dessas possibilidades bastaria para explicar a atitude de Je­sus para com Sua mãe naquele momento, contudo devemos acrescentar ain­da o profundo amor entre o Mestre e o jovem João, o que faria dele o escolhido para tal responsabilidade mesmo que ali estivessem presentes outros dos doze. Dessa forma, devemos ver a entrega de Maria à guarda de João como mais um referencial para entendermos quão verdadeira e signi­ficativa é a afirmação do evangelista quando a si mesmo se declara o discí­pulo a quem Jesus amava. Mais adiante, veremos, através das narrativas tradicionais, como Maria, a partir do episódio da cruz, esteve inserida no contexto da vida e da carreira apostólica de João.

João e a ressurreição de Cristo
As negras nuvens que cobriram os céus durante as três últimas horas da crucificação de Cristo retratavam com fidelidade toda a consternação que aco­metia o jovem discípulo. Suas esperanças de uma intervenção divina que pu­desse libertar seu Messias daquela humilhante situação, acabara com o penetrar da lança, operforatio sub alas, executado por um dos guardas romanos. Dentre os evangelistas, somente João ressalta esse importante detalhe, onde vemos descrito o golpe de misericórdia que acelerava o fim da execução (Jo 19.34).
João tristemente testemunhara aquilo que julgava ser o fim de seu maior projeto de vida. Nosso apóstolo juntou-se, então, às multidões que, sob grande desolação, gradativamente se retiravam do Monte Calvário a bater em seu peitos (Lc 23.48). Aquele sobre quem João depositara todas as suas expectativas messiânicas e por quem nutrira a mais profunda afetividade, recebera sobre Si a mais vil e perversa de todas as condenações, típica dos escravos foragidos, dos criminosos e dos insurretos.
Em meio à tamanha amargura e num clima de grande incerteza, João reú­ne-se aos outros dez discípulos num refúgio seguro. Ali, junto aos demais, buscava extrair uma reflexão conjunta que emprestasse algum sentido para os trágicos acontecimentos que marcaram aquelas últimas vinte e quatro horas.
Sentados ao redor daquela sala, João e seus temerosos amigos se entreolha-vam com suspiros que, de tão pesados, sufocavam as poucas palavras a serem ditas. Em meio àquela atmosfera de dor e angústia, o jovem discípulo, com os olhos banhados em lágrimas e a mente ainda desordenada, tenta debalde en­contrar alguma razão que explicasse aquilo que mais lhe parecia um pesadelo interminável. Subitamente, uma de suas conhecidas, trazendo consigo um sem­blante de quem fora surpreendida por algo fantástico, entra porta adentro e prorrompe em brados de quem parecia delirar: Vi o SenhoA (Jo 20.18). Con­quanto a maior parte dos presentes não desse crédito ao seu testemunho (Mc 16.11, Lc 24.11), Pedro e João, com a impetuosidade que lhes era peculi­ar, prontamente se levantaram e, desprezando os eventuais perigos da situação, se dirigiram ao local do túmulo. Naquele frenesi, João deixa para trás seu com­panheiro e chega primeiro à tumba, à frente da qual encontra os lençóis de linho jogados ao chão e se detém, imerso em íntimas conjecturas (Jo 20.4-5). O que estariam aqueles lençóis fazendo fora do sepulcro? Teriam os romanos algum interesse em que se retirasse dali o corpo de Jesus? Estariam os fariseus e os príncipes dos sacerdotes envolvidos nisso? Enquanto João buscava respostas que amenizassem sua ansiedade, o ofegante Pedro chega e, adentrando o sepul­cro, mostra-lhe também o lenço que cobrira a cabeça do Mestre. Nesse mo­mento inicia-se o descortinar do entendimento de João acerca de tudo que se passara. Em seu próprio testemunho, o evangelista resume os preciosos minu­tos nos quais as trevas da dor e da incerteza começam a se dissipar (Jo 20.8-9).

"Então entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepul­cro, e viu e creu.
Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário res­suscitar ele dentre os mortos."

O retorno para o local onde estavam reunidos os discípulos foi rápido. Entrementes, no caminho de volta, o pensamento do jovem discípulo orbitava desvairadamente entre a cena do túmulo vazio e as palavras do Mestre — até então incompreendidas — sobre "ressuscitar dentre os mortos".
Afinal, Aquele que profetizara ser entregue nas mãos dos gentios, espancado, escarnecido e morto também dissera que ressuscitaria ao terceiro dia (Mt 16.21, Lc 18.31-34). Para João, a tristeza daquelas últimas horas começava a dar lugar a uma expectativa boa demais para ser verdadeira! Esfuziante, ele mal podia esperar para encontrar-se com seus condiscípulos e contar-lhes sobre o que vira (ou o que não vira!) na sepultura.
A tarde daquele domingo já começava a declinar, enquanto João e os demais tentavam insistentemente ordenar os acontecimentos que transfor­maram em eternidade àqueles três últimos dias. Alheios ao tempo e à agita­ção religiosa de Jerusalém, os discípulos são interrompidos pelo abrupto adentrar de Cléopas e seu companheiro, os quais, tomados pelo entusias­mo, começam a relatar a incrível história de como encontraram — e até mesmo cearam - com o Mestre, quando se dirigiam a Emaús (Mc 16.12-13, Lc 24.13-33). Antes que pudessem concluir o fantástico relato, põe-Se em meio a eles Aquele sobre quem ardorosamente debatiam (Lc 24.35-36). Tal foi o impacto daquela manifestação, que se passaram alguns minu­tos até que João e seus companheiros vissem seu temor ser transformado num sentimento de júbilo sem precedentes (Lc 24.37-41, Jo 20.20).
Não é nosso objetivo nos determos nos pormenores relativos às primei­ras aparições de Cristo ocorridas naquela semana em Jerusalém. Importa-nos, antes, voltarmos nossa atenção para o ocorrido um pouco depois na Galiléia, local para onde alguns discípulos se dirigiram após a semana da ressurreição, por ordem do próprio Senhor (Mt 28.10,16). Ali encontramos João e seus amigos de volta ao antigo ofício, à espera do cumprimento de mais uma manifestação do Ressurreto.
Os quarenta dias que compreenderam o ministério de Jesus entre Sua res­surreição e ascensão, trouxeram consigo um período de reflexão para os discí­pulos. Afinal, se, por um lado, Jesus Se levantara dentre os mortos, aparecera ante seus olhos e, sobretudo, cumprira a Escritura sob uma ótica inusitada para eles (Lc 24.44-48), pairava no ar, todavia, a sensação de que algo muito pode­roso — e que envolveria a todos eles - ainda estava por acontecer.
Para João e os demais discípulos — novamente envolvidos com a pesca — aquela alvorada parecia ser mais uma dentre muitas que encerravam uma noite de trabalho árduo e infrutífero (Jo 21.1-3). Desanimados e esgotados em função da inútil labuta, não puderam nem mesmo dar a atenção devida a um certo alguém que, das margens, pedia por comida. Antes que recolhessem as redes e desistissem de uma nova tentativa, resolveram acatar a sugestão daquele estranho que mandava lançar as redes para a banda da direita. Quem seria, afinal, esse transeunte que ousava entender mais sobre pesca do que os experientes filhos de Zebedeu? Não obstante, em poucos minutos, aquilo que parecia ser um tolo conselho, revelou-se uma agradável surpresa! Ao ver as redes abarrotadas de peixes, João imediatamente recordou-se do início de seu discipulado quando, ao lado de Pedro, presenciara o mesmo acontecimento (Lc 5.3-7). Enquanto seus companheiros se detinham em admirar a inexplicável fartura, João voltou seu olhar e o manteve fixo naquele que parecia ter dado ordem aos cardumes, pelos quais ele e seus parceiros procuraram por toda a noite. Só havia uma resposta para aquele fenô­meno e João, mais do que todos, a conhecia muito bem: E o Senhor! (Jo 21.7).
Para João, o saldo deste encontro, ansiosamente aguardado por ele e pelos seus, não fora apenas a alegria de rever seu amado Mestre, mas também uma incômoda dúvida, relativa ao seu futuro particular, que passou a lhe acompa­nhar dali em diante. Afinal, naquela ocasião, o que estaria Jesus tentando dizer com a afirmativa de que João permaneceria até que Ele viesse (Jo 21.22) ? Seria possível que o jovem apóstolo vivesse o suficiente para presenciar a volta do Senhor? Haveria alguma relação desse vaticínio com o que Jesus dissera em Mt 16.28? A suspeita de que o jovem apóstolo viveria até a volta do Senhor acabou se tornando uma forte tradição da Igreja do primeiro século, como vemos nas palavras do próprio João Qo 21.23).

"Então tornou-se corrente entre os irmãos o dito de que aquele discípulo não morreria. Ora, Jesus não dissera que tal discípulo não morreria, mas: Se eu quero que ele permaneça, até que eu venha, que te importa?"

A disseminação dessa lenda se explica pelo fato de que a Igreja primitiva, de modo geral, concordava que a volta do Senhor se efetivaria num curto espaço de tempo. A ênfase exagerada desta tendência, porém, acabou causando distorções teológicas em algumas congregações, obrigando ministros como Paulo a trata­rem cuidadosamente do tema, visando resgatar o equilíbrio escatológico de seus fiéis, como vemos em sua primeira carta aosTessalonicenses.
Ê provável que nem mesmo João soubesse o significado dessas palavras proféticas a seu respeito, quando da escrita de seu evangelho entre 70 e 85 A.D., alguns anos antes de seu glorioso cumprimento, durante a experiência vivenciada na Ilha de Patmos, com a visão do Apocalipse.

O ministério de João no Livro de Atos
A narrativa de Atos dos Apóstolos registra de maneira tímida a atuação do apóstolo João nos acontecimentos ali descritos, sem contudo minimizar a relevância de sua participação na direção da Igreja de Jerusalém. O próprio Paulo, sobre cujo ministério o Livro de Atos dedica a maior parte de sua abordagem, se refere a João como uma das colunas da Igreja, ao lado de Tiago, o Justo e Pedro (Gl 2.9). Vale lembrar que o grego stulos (coluna, pilar) empregado por Paulo, designava um termo freqüentemente aplicado, no sentido metafórico, aos mestres da Lei e àqueles sobre quem pesavam grandes responsabilidades espirituais.
Sabemos, através do comentário de Lucas, autor de Atos, que assim como os demais discípulos e diversos outros seguidores anônimos, João também se fez presente no cenáculo, à espera da promessa referida por Jesus e con­cretizada no solene dia de Pentecostes (At 1.13, At 2.1). Do mesmo modo, João se achava entre os discípulos por intermédio dos quais muitos prodígios e sinais eram realizados, logo no início das atividades da Igreja em Jerusa­lém, conforme At 2.43.
Nosso apóstolo aparece diretamente mencionado nos capítulos 3 e 4, ao lado de Pedro, como co-participante da cura miraculosa dum coxo de meia-idade que, diariamente, mendigava às portas do templo. Antes de tudo, esse relato demonstra que João — assim como Pedro — embora ministro do evangelho, ainda se encontrava, de alguma maneira, ligado aos rituais judai­cos, sob os quais crescera.
A cura do coxo causou assombro tal na população presente que transfor­mou João e seu amigo no centro das atenções dos transeuntes (At 3.11), proporcionando a ambos mais uma rica oportunidade de proclamarem a salvação em Cristo. Essa pregação, marcada pelo incrível resultado de quase cinco mil convertidos (At 4.4), desencadeou também o princípio das per­seguições contra a Igreja, das quais João e seu condiscípulo tiveram a honra de serem os pioneiros. Frank Stagg acrescenta alguns detalhes importantes sobre esse episódio em que ambos apóstolos, sob grande risco, pregavam acerca do reino de Deus e da ressurreição em Cristo, nos arredores de uma instituição dominada pelos incrédulos saduceus (op. cit., p.76-77):

"A primeira perseguição aos discípulos de Jesus foi desencadeada pelos saduceus. E a razão era clara: incomodavam-se porque os discípulos esta­vam ensinando como se fossem rabinos (mestres) e porque pregavam a ressurreição. Provavelmente alarmaram-se com a ênfase que os discípulos davam ao reino, que poderia transformar-se em propaganda inflamatória. A ressurreição significava para o judeu muito mais do que hoje significa para o cristão. Foakes-Jackson diz sobre isto: 'Para o judeu daqueles tem­pos, significava uma iminente catástrofe mundial, que destruiria os reinos da terra e inauguraria miraculosamente uma nova ordem'. Portanto, suge-ria a revolução para aqueles que desejavam o status quo..."

A ousadia de João em anunciar publicamente a Cristo nas proximidades do grande patrimônio religioso de Israel custou-lhe a inquirição diante da corporação governamental dos judeus: o sinédrio. Formado por setenta homens, entre autoridades (sacerdotes e sumo-sacerdote), anciões (líderes leigos) e escribas (doutores da Lei, fariseus), o sinédrio funcionava como um órgão representativo do povo para as questões de natureza interna do país, sendo, para isso, munido de autoridade da parte dos romanos. Para o cidadão comum, comparecer ante o sinédrio significava, portanto, a desconfortável situação de enfrentar a mais respeitada instituição religiosa de Israel e, por conseguinte, os maiores expoentes religiosos da época, cujos veredictos nem sempre se limitavam às fronteiras da misericórdia.
Como nos informa Frank Stagg, o desprezo e o sarcasmo marcaram, desde o início, essa primeira audiência de João e seu companheiro diante dos poderosos de Israel (Ibidem, p.79-80).

"O sinédrio desafiou os discípulos em termos autoritários, dizendo-lhes: 'Com que poder, ou em nome de quem fizestes vós isto?' (4.7) As nossas traduções fazem transparecer muito mal o desdém que o texto grego sugere, por terminar a pergunta com pronome 'vós'. Podemos parafrasear assim: 'Com que autoridade ou em nome de quem fizestes vós isto, por autoridade vossa?!' Desprezavam os discípulos, em parte, pelo fato de estes serem 'homens sem instrução e vulgares' (4.13). Isto é, não tinham recebido nenhuma instrução rabínica, nem indicação alguma para qual­quer posição oficial no país. A tradução comum - 'homens iletrados e indoutos' não é boa. Não se quer dizer que fossem homens iletrados, e, sim, que não tinham preparo adequado, nem a indicação oficial."

A intrepidez de Pedro e João diante do sinédrio causou admiração em seus delegados, como vemos em At 4.13. Contudo, a tentativa do parla­mento em deter a disseminação da fé em Cristo, através de fortes ameaças como as mencionadas em At 4.17,18 e 21, apenas serviu para demonstrar o quanto aqueles galileus estavam dispostos a se arriscar em nome da fé que professavam. Voltaremos aos detalhes envolvendo as inquirições dos após­tolos no sinédrio quando tratarmos da biografia de Pedro.
O Livro de Atos volta a dedicar atenção ao trabalho missionário de João quando retrata a ousada campanha de Filipe, o Evangelista, na Samaria, em 8.5-25. Na realidade, essa iniciativa fora, em parte, resultado da violenta perseguição que se levantara contra a Igreja em Jerusalém, instigada por Saulo. Por alguma razão que desconhecemos, os apóstolos conseguiram permanecer em Jerusalém (8.1), enquanto os demais cristãos se espalharam pelos arrabaldes da Judéia e da Samaria. Essa situação, embora aparentemen­te negativa, colaborou para que se rompessem as barreiras que detinham a propagação da Palavra entre os estrangeiros (At 8.1-4). Esse sectarismo co­meçou a ser minado com o formidável evangelismo de Filipe entre os samaritanos, que presenciaram na ocasião um grande mover do Espírito de Deus, com curas, libertações e incontáveis conversões (At 4.5-8). Tal fora a repercussão de seu trabalho entre os samaritanos que a direção da Igreja em Jerusalém decidiu enviar para lá dois de seus maiores delegados: Pedro e João.
E interessante notarmos que o mesmo João que antes vira-se tomado pelo desejo de carbonizar com fogo celestial os samaritanos (Lc 9.54), é justamente um dos enviados à Samaria, com a missão de confirmar a ministração de Filipe, orando com imposição de mãos sobre aqueles novos (e inusitados) irmãos em Cristo. Curiosamente, João acabou cumprindo seu antigo desejo, porém de outro modo e com outra motivação. Fez recair sobre os samaritanos "fogo do céu", porém um fogo purificador, que ardia a alma com o calor da presença divina (At 8.17):

"Então (Pedro e João) lhes impunham as mãos, e recebiam estes (os samaritanos) o Espírito Santo."

Após a vitoriosa missão à Samaria, João não mais é citado nominalmen­te no Livro de Atos. Podemos, entretanto, deduzir sua participação em alguns dos acontecimentos posteriores ali descritos, entre os quais o pri­meiro concilio da Igreja, entre 49 e 50 A.D., quando se reuniram em Jeru­salém os grandes vultos do cristianismo daqueles dias. Na ocasião, o assunto em pauta era a polêmica gerada por alguns judaizantes acerca da necessida­de dos convertidos dentre os gentios se colocarem sob o regime da Lei mosaica a fim de serem salvos (At 15.1). Sobre essa questão conflitante, experiências como a vivida junto aos crentes samaritanos certamente fize­ram com que João fosse mais uma voz de apoio ao célebre parecer de Pedro naquela assembléia (At 15.11):

"Mas cremos que (nós judeus) fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles (os gentios) o foram."

Essa mesma visão universalista da graça de Deus, da qual João partilhava, o conduziu a terras muito distantes, com o propósito de espalhar a semente do evangelho de Jesus Cristo. Nessa saga missionária, o apóstolo experimen­tou diversas privações e situações de perigo, sobre as quais acabou triunfan­do. Tornou-se, mais adiante, alvo de diversas lendas que, embora fantasiosas em sua forma final, trazem em seu cerne vestígios de situações reais vividas por nosso apóstolo, como veremos a seguir.

O ministério de João em Éfeso
Embora o respeitável historiador e patriarca Nicéforo (séc. IX) registre em sua História Eclesiástica (2,2) a permanência do apóstolo em Jerusalém até a morte de Maria, outros autores dizem ter João dali partido em compa­nhia da mãe de Jesus para Éfeso, na Ásia Menor (atual Turquia), onde esta teria falecido. A questão do sítio da morte de Maria assume grande impor­tância dentro do contexto porque, como já vimos anteriormente, João fora incumbido, ao pé da cruz, de zelar pela vida daquela que, a partir de então, acolhera como sua própria mãe (Jo 19.27).
O escrito apócrifo do século V, conhecido como A Morte de Maria, nos conta que alguns discípulos teriam tomado o corpo da mãe de Jesus e o sepul­tado nas imediações do Vale de Josafá, em Jerusalém, seguindo supostas orien­tações do próprio Senhor. Como fruto dessa tradição mariolátrica, a Igreja romana assevera que Maria foi sepultada no Vale do Cedrom, próxima ao Getsêmani onde, por volta de 455 A.D., os bizantinos construíram a Igreja de Nossa Senhora de Josafá, da qual só restam o pórtico principal e o chamado Túmulo da Virgem. Se esta tradição estiver correta, teremos, então, dificulda­des para afirmar que João deslocou-se para Éfeso antes da morte de Maria, em cerca de 50 A.D., considerando seu compromisso assumido ao pé da cruz.
Embora a história tenha preservado várias narrativas nas quais se diz que João a teria levado consigo para Éfeso, devemos considerá-las passíveis de discussão. Uma das razões para isso é a posterior conversão dos demais filhos de Maria (Mc 6.3). Tiago, por exemplo, veio a converter-se não muito de­pois da ressurreição de Cristo (1 Co 15-7; Gl 1.19), tornando-se líder da Igreja em Jerusalém (At 15.13-29). Dessa forma, caberia a seguinte indaga­ção: Maria, já idosa, teria realmente se disposto a imigrar para uma metrópo­le gentílica, trocando a companhia de Tiago, seu filho, em Jerusalém, pela de João, em terras estranhas? Tal questionamento ganha vulto se observarmos o teor da epístola de Inácio de Antioquia dirigida a João, cujas linhas não dei­xam dúvidas de que a mãe do Salvador, permanecia, até então, em sua com­panhia em Jerusalém, como podemos constatar nesses excertos:

"Estamos profundamente entristecidos a propósito da tua demora em nos fortalecer com tuas admoestações e consolações. Se prolongada, tua au­sência certamente causará desapontamento entre muitos de nós. Apressa-te, portanto, em vir ter conosco, pois cremos ser isso de grande provei­to. Ademais, há por aqui algumas mulheres que desejam ver Maria (mãe) de Jesus, as quais, dia após dia, anseiam deixar-nos para se dirigirem até onde estás, de sorte que possam não apenas vê-la, mas também tocar os seios que amamenta-ram o Senhor Jesus e, igualmente, inquiri-la acerca de outros as­suntos em particular.
Se me permitires, de­sejo muito subir a Je­rusalém, a fim de ver os santos fiéis que aí se encontram, especi-almente Maria, a mãe, aquela que di­zem ser objeto de grande admiração e afeição por todos."

Conquanto ainda ca­reça de uma base histó­rica mais consistente, a possibilidade do deslo­camento de Maria para Éfeso junto a João, e de seu posterior falecimento e sepultamento nessa cidade, tem a seu favor respeitáveis defensores. É o caso de McBirnie, que assim comenta a questão (op. cit., p.l 10).

(...): Existem dois lugares ligados a sua morte que permaneceram até os dias de hoje. Em Jerusalém, temos a Tumba e, em Éfeso, a 'Casa de Maria'. Embora não se tenha encontrado seu túmulo em Éfeso, a arque­ologia lança indícios de que este outrora deve ter ali existido. Inúmeros guias turísticos disponíveis nas ruínas da antiga Éfeso afirmam o mesmo."

O pesquisador apostólico se refere aqui à chamada "Casa da Virgem Maria" em Éfeso, situada ao fim da rota que vai do Portão de Magnésia até o Monte Koressos. Segundo algumas tradições locais, alicerçadas em registros do Conci­lio de Éfeso, Maria teria se deslocado de Jerusalém para Éfeso em companhia do apóstolo João, seguindo as prioridades missionárias do discípulo amado, sob cujos cuidados havia sido entregue. Segundo os anais do Concilio ali reunido em 431 A.D., a mãe de Jesus, antes de mudar-se para cercanias do Monte Koressos, onde teria permanecido até sua morte aos sessenta e quatro anos, vivera durante um certo período, numa residência próxima ao local onde sécu­los mais tarde reuniu-se aquele importante conselho ecumênico.
A razão porque o Concilio de Éfeso - solicitado pelos imperadores Valentiniano III e Teodósio II — manifestou interesse por detalhes ligados a mãe de Jesus foi exatamente a controvérsia cristológica acerca da adoção dos termos theotokos (genitora de Deus) e cristotokos (genitora de Cristo) referen­tes a Maria. Embora a pessoa de Maria fosse o centro das discussões nesse concilio, os teólogos ali reunidos não tinham objetivos mariolátricos, mas divisavam estabelecer uma perspectiva correta na análise da relação entre a humanidade e a divindade de Cristo.
Ao analisar a Casa de Maria, a arqueologia constatou que sua fundação realmente data do século I, embora suas paredes e tetos pareçam ter sido sucessivamente reconstruídos ao longo dos séculos, numa provável tentati­va de preservação.
Mesmo a Igreja Católica, defensora das tradições que ligam o fim de Maria a Jerusalém, reconheceu a importância do sítio — já transformado em centro de peregrinação - através da visita do Papa Paulo VI em 1967 e, posteriormente, de João Paulo II, que reafirmou a importância daquela construção para o cristianismo.
Sem embargo, a dificuldade em precisar o verdadeiro local do descanso de Maria não obscurece o conjunto das tradições que vincula, de maneira particular, o ministério pós-bíblico de João a Éfeso. Consideremos, pois, alguns indícios que apontam para isso.
O antiqüíssimo texto O Ensino dos Apóstolos indica que a tradição sobre a permanência de João em Éfeso já era cultivada pelo menos desde fins do segundo século:

"Éfeso, Tessalônica, Ásia, toda a terra dos coríntios, assim como toda a Acaia e os termos ao seu redor, receberam a ordenação apostólica do sacerdócio da parte de João, o Evangelista, o mesmo que se reclinou sobre o peito de nosso Senhor. Ele mesmo edificou a Igreja naqueles lugares, e lá ministrou, permanecendo no ofício de guia."

Os vestígios mais consistentes da presença do apóstolo na Ásia Menor são os próprios discípulos que ele, direta ou indiretamente, ali conquis­tou, fruto de sua duradoura ação pastoral na região. O nome de Policarpo de Esmirna, por exemplo, ecoa na história eclesiástica como uma prova incontestável da permanência de nosso apóstolo nos termos da Ásia Me­nor. Esse gigante da fé cristã, conquanto filho de pais crentes, veio a se converter apenas aos pés de João, por cuja autoridade foi feito, mais tar­de, bispo de Esmirna, cidade de grande influência na região e vizinha a Éfeso. Policarpo foi líder cristão na cidade até cerca de 166 A.D., quando experimentou a graça de selar com sangue seu testemunho. Por se recusar a negar a Cristo, o ancião foi queimado vivo por ordens do magistrado romano Quadratus. A tradição registrou suas últimas palavras, antes que as chamas o levassem para a eternidade.

"Senhor Deus Soberano (...) dou-Te graças, porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a Teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. (...) Por isso Te bendigo e Te glorifico. (...). Amém."

Papias de Hierápolis é outro personagem que sinaliza a presença de João na Ásia Menor. Nascido na virada do primeiro para o segundo século, Papias embora tenha sido citado por Irineu de Lyon como discípulo direto de João, parece ter aprendido as sagradas letras através da ministração de Policarpo e de um certo presbítero de nome Aristion. Feito bispo de Hierápolis (cidade daFrígia, próxima a Êfeso) em aproximadamente 130 A.D., Papias tornou-se um dos grandes nomes da Igreja no segundo século. Sua contribuição literária e a influência dos ensinos de João sobre ela podem ser parcialmente medidas pela obra denominada Logion Kyriakon Exegeseos Biblio (Exposição dos Oráculos do Senhor) que, embora tenha sido originalmente composta em cinco volumes, e assim preservada pelo historiador Eusébio de Cesaréia, não chegou até nós senão em escassos fragmentos.
Baseado na interpretação literal do texto joanino de Ap 20.1-3, Papias — assim como Irineu, Justino e Tertuliano — foi um dos precursores do Milenarismo, ou doutrina do Milênio, segundo a qual, Cristo após subjugar o poder opressor dos césares, deveria em breve reaparecer e reinar absoluto sobre a terra por um período de dez séculos. Essa posição escatológica de Papias encontrou nos insignes Orígenes de Alexandria e Eusébio de Cesaréia seus mais ferrenhos opositores, o que fê-la sucumbir antes mesmo do séc. VI, muito embora tenha sido revivida, sob nova interpretação, dez séculos mais tarde, com a Reforma Protestante.
Outro nome que merece atenção quando se investiga o apostolado de João em Éfeso é o de Irineu de Lyon, um dos mais admiráveis pensadores cristãos do século II. Nascido em Esmirna, por volta de 125 A.D., Irineu pode ser considerado — como Papias — "neto na fé" de João, uma vez que também aprendeu as sagradas letras por intermédio de Policarpo, por quem demonstrava a mais fervente admiração. Irineu alcançou grande notoriedade na Igreja primitiva não apenas por seus escritos apologéticos, que combateram tenazmente a heresia gnóstica, mas também por seu posterior apostolado na cidade de Lugdunum (hoje Lyon), na antiga Gália (atual França), para onde se trasladara. Ali, tornou-se presbítero e, após o martírio do bispo Fotino em 177 A.D., assume a liderança local, destacando-se por sua teologia esme­rada e orientada, principalmente, por uma perspectiva pastoral. Irineu teria sido, segundo a lenda, martirizado durante a perseguição do imperador Séti­mo Severo, em cerca de 200 A.D.
Os escritos de Irineu, endossados por autores posteriores como Eusébio, Jerônimo e Gregório de Tours, reportam-se aos ensinamentos de João du­rante seu trabalho na Ásia Menor, especialmente em Éfeso, na qual teria vivido — segundo o próprio Irineu — até os dias do reinado de Trajano (98 a 117 A.D.) Reconhecendo a veracidade desse testemunho, o imperador ro­mano do oriente Justiniano I (527-565 A.D.), buscando celebrizar o mi­nistério do apóstolo na cidade, erigiu ali, no séc. VI, uma magnífica Igreja românica em sua memória, de cujas estruturas só restaram ruínas.
Assim, se o testemunho dos discípulos de João não deixa dúvidas sobre sua estada em Éfeso, resta-nos apenas conjecturar sobre as razões que influ­enciaram sua decisão de deixar Jerusalém com destino àquela localidade, notória por seu paganismo. Uma rápida olhada sobre as circunstâncias so­ciais, políticas e religiosas que envolviam essa grande cidade romana duran­te o século I será o bastante para entendermos a estratégia dessa orientação missionária possivelmente adotada por João.
Situada às margens do Mar Egeu e a apenas dez quilômetros da foz do rio Caister, Éfeso estava, naqueles dias, entre as maiores e mais exuberantes cida­des do mundo, com uma população superior a duzentos mil habitantes. Embora, nos dias do Novo Testamento, estivesse experimentando o declínio de sua proeminência na região, devido ao assoreamento de seu porto, Éfeso se mantinha como centro administrativo romano da província da Ásia Me­nor, da qual era a maior cidade. Conhecida mundialmente pelo esplendor de suas construções, a cidade ostentava o Templo de Diana (ou Artêmis, para os gregos), uma magnífica obra da engenharia sustentada por cento e vinte e sete colunas de vinte metros de altura, numa dimensão quatro vezes maior que o Partenon ateniense. Junto ao túmulo do governador romano na re­gião, Tiberium Celsus, a cidade viu ser erigida em 114 A.D. uma das maiores bibliotecas da época, com cerca de cinqüenta mil documentos. Encrustado no coração da cidade, próximo ao Monte Pion e de frente para a Via Arcadiana, estava o anfiteatro, que podia abrigar cerca de vinte e cinco mil espectadores.
Esse espaço dedicado às artes dramáticas — preservado até os dias de hoje — é mencionado em At 19.23-40, no episódio do tumulto encabeçado pelo ouri­ves Demétrio, no qual Aristarco e Gaio, companheiros de Paulo, foram toma­dos pela turba enfurecida que via no evangelho por eles pregado uma ameaça ao seu sustento financeiro, que se baseava no culto a Diana. É importante lembrarmos que esse culto pagão não representava apenas a principal caracterís­tica cultural de Êfeso, mas sobretudo, o grande orgulho de seus habitantes (At 19.28,34). Estes, com seus próprios esforços, haviam construído, ao longo de duzentos e vinte anos, o templo cuja magnitude proporcionara à cidade uma notoriedade que a celebrizaria por todo o mundo de então.
Se, por um lado, João viu nessa grande cidade um ponto estratégico para a causa do evangelho, sob quais circunstâncias espirituais ele a teria encontra­do em sua chegada à região? A narrativa de Atos dos Apóstolos, nos capítulos 18 e 19, traz um panorama elucidativo sobre a situação de Éfeso nos anos que precederam a chegada de João a Ásia Menor.
Embora tão expressiva em seu paganismo, Éfeso recebeu a Palavra ainda cedo, provavelmente antes mesmo de 50 A.D., data aproximada da primei­ra passagem de Paulo por ali, em companhia de seus parceiros, Áquila c Priscila (At 18.18-21). Esse casal de judeus, uma vez estabelecido na cida­de, colaborou para a difusão do evangelho na região, chegando a organizar em sua residência na cidade uma congregação cristã, conforme nos lembra Paulo em Rm 16.3-5 e 1 Co 16.19.
Dentre todas as ações evangelizadoras em Éfeso durante o século I, talvez nenhuma se equipare em volume de ensino e em profusão de prodígios espi­rituais à empreendida por Paulo. Em sua primeira estada ali, Paulo chegou a anunciar o evangelho em uma sinagoga local, se bem que não por muito tempo, já que se dirigia em missão a jerusalém (At 18.18-21). No caminho de volta, entretanto, após passar por Antioquia da Síria e pela Galácia e Prígia, o missionário decide estabelecer-se em Éfeso por um folgado espaço de tem­po. Ali, depara, a princípio, com doze discípulos (fruto dos esforços de Apolo) que evidenciavam sérios lapsos quanto às doutrinas do batismo e do Espírito Santo, falhas devidamente resolvidas pela intervenção de Paulo (At 19-1-7). A irredutibilidade dos judeus mostrou-se também severa em Éfeso, razão pela qual Paulo não se estendeu por mais de três meses em sua explanação do reino de Deus na sinagoga local. Essa oposição radical da comunidade judai­ca motivou o missionário a buscar novas bases para suas exposições na cida­de. Nessa altura, quando sua campanha parecia ter sofrido sério agravo, a providência divina abre, estrategicamente, as portas da escola de Tirano -provavelmente um mestre de filosofia ou retórica - em cujas dependências o apóstolo esmera-se na evangelização dos efésios pelo espaço de dois anos, fazendo com que a mensagem da Palavra de Deus repercutisse eficazmente não apenas na cidade, mas por toda a Ásia Menor (At 19.8-10). Donald Guthrie, autor do livro The Apostles, comenta o episódio (p. 176).

"Paulo tinha aprendido por experiência própria que, diante da oposição dos judeus, o melhor que tinha a fazer era afastar-se da sinagoga. Logo a seguir, no entanto, o apóstolo descobre um novo ponto de reunião, se­melhante à casa de Justus, em Corinto: a sala usada por Tiranus para suas exposições públicas. Era comum nas cidades gregas fazer-se as tais leituras públicas até o meio-dia, o que significa dizer que o mesmo local estava disponível, depois disso, para outro uso. Presumivelmente, Paulo ocupa­va-se de seu ofício durante o período da manhã, e dedicava-se ao ensino no restante do dia.
Este procedimento durou por dois anos e, já que Lucas afirma que a Pala­vra do Senhor foi ouvida por toda Ásia durante esse tempo, é provável que muitos indivíduos vieram das mais distintas partes da província a fim de ouvir as pregações de Paulo. Pode ter sido durante essa época, por exemplo, o estabelecimento das igrejas de Colossos, Laodicéia e Hierápolis, todas no vale do Licus, já que Paulo pessoalmente nunca as visitou. Ho­mens como Epafras e Filemon, bastante conhecidos do apóstolo, foram possivelmente por ele influenciados na sala de Tiranus. A estratégia de Paulo de escolher a principal cidade da província como base de suas ope­rações mostrou-se altamente frutífera, uma vez que as sete igrejas exis­tentes na Ásia (excluídas Colossos e Hierápolis) durante a escrita do Apocalipse por João, foram provavelmente fundadas durante o tempo do ministério efésio de Paulo."

Contudo, não foi apenas com ensinos teológicos que Paulo fez estremecer Éfeso e suas adjacências. Os sinais sobrenaturais da parte de Deus que amiúde se manifestavam através dele - tanto na cura de enfermos quanto na libertação de endemoninhados — serviram de grande testemunho para a população local. No caso específico dos possessos, a efetividade da ministração libertadora de Paulo produziu de imediato alguns imitadores como os filhos de um certo judeu de nome Ceva, a quem Lucas curiosamente chama sumo-sacerdote, mas que, talvez não passasse de um líder da sinagoga local. Tal fora o poder atestado por eles no emprego do nome de Jesus diante das potestades que os exorcistas ambulantes trataram de adotá-lo, como uma espécie de fórmula mágica, através da qual poderiam obter sucesso em seu ofício. O desastroso resultado registrado já na primeira tentativa (At 19.13-17), causou grande temor na população efésia, para quem se tornou manifesto que a mensagem de Cristo, apregoada por Paulo e seus parceiros, em nada se harmonizava com os encantamentos e fórmulas mágicas difundidos na região. Assim, um dos mais significativos efeitos dos sinais operados por Deus através de Paulo na cidade foi a contrição sem precedentes que se espalhou pela população local, cujas práticas esotéricas foram por ela própria publicamente execradas, conforme nos esclarece o Dr. Guthrie {Ibidem, p. 177-78).

"Os cultos de magia eram largamente praticados naquele tempo, sendo fomentados pela forte superstição, característica da vida paga. Entre os cris­tãos efésios havia quem se envolvesse com essas artes, através das quais se desenvolvia a habilidade de se enganar a terceiros. Para tanto, os que se entregavam a tais práticas se faziam valer dos chamados livros de encanta­mento, alguns dos quais estão preservados até o presente. A literatura da Antigüidade nos informa que Éfeso era especialmente conhecida pela pro­dução desses livros de magia. Não é, portanto, de se estranhar que o cristi­anismo tenha impactado fortemente essa espécie de culto. O que é surpreendente é o fato de aqueles cristãos terem não apenas reconhecido a incongruência de seus textos mágicos mas também o valor do testemu­nho público da rejeição desses manuscritos. Tais livros, em si, representa­vam um significativo valor financeiro e poderiam ter sido vendidos, dando assim àqueles cristãos alguma compensação pela perda de sua lucrativa prática. No entanto, decidiu-se pela queima pública dos mesmos.
(...)
Foi necessário muito denodo moral para que aqueles ex-encantadores permanecessem diante da fogueira, na presença de muitos daqueles ou-trora por eles enganados. O cálculo do valor daquelas obras cercou o montante de cinqüenta mil dracmas, o que, mesmo convertido em valo­res atuais, representaria uma significativa soma financeira. Não é, portan­to, surpresa que, em vista de tal testemunho, a Palavra de Deus tenha triunfado de maneira tão poderosa naquele lugar."

O próprio João, em sua primeira epístola, escrita por volta de 85 A.D. em Éfeso, não esconde sua preocupação com a notável influência exercida pelas práticas mágicas, habituais na cidade (ljo 4.1):

"Amados, não deis crédito a qualquer espírito: antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora."

Em At 20.16-38, Lucas nos confere elementos para um retrato mais níti­do da Igreja de Éfeso com a qual João deparou, não muito tempo depois. Essa descrição, que focaliza a terceira e última passagem de Paulo pelas cerca­nias da cidade, revela primeiramente que a comunidade cristã de Éfeso já contava, na ocasião, com um corpo de presbíteros devidamente estabelecido. A decisão de Paulo em não aportar na cidade, mas reunir a liderança local na vizinha Mileto (At 20.16-17), se explica pelo fato de a congregação efésia se encontrar de tal sorte numerosa, que uma simples parada ali poderia signifi­car o retardamento de sua viagem a Jerusalém.
Outro ponto importante acerca desse acontecimento é a profecia deixa­da por Paulo referente ao futuro próximo daquela Igreja. Nela, o apóstolo alerta os anciões locais acerca de manifestações heréticas que se sucederiam não muito depois de sua partida (At 20.29-30):

"Sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando cousas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles."

Desse vaticínio de Paulo podemos inferir dois tipos de ameaça àquela Igre­ja, com as quais João, mais tarde, deparou: a expressão lobos vorazes pode ser uma referência à ação de homens que, vindos de fora, se introduziriam sorra­teiramente em meio aos irmãos, trazendo perigosas armadilhas teológicas. Essa primeira parte da profecia tem sido freqüentemente associada à ação dos gnósticos, sobre os quais falaremos a seguir. Na seqüência da profecia, Paulo é incisivo ao afirmar que haveria ali homens que pervertidamente atrairiam dis­cípulos após si e que, ao contrário do primeiro caso, seriam procedentes direta ou indiretamente daquele seleto círculo de líderes que o ouvia. Aqui, a visão parece dizer respeito aos problemas ligados a dissensões que se sucederiam no seio daquela comunidade. Em todo caso, décadas mais tarde, ao escrever as mensagens às sete igrejas da Ásia, João constata o cumprimento desse vaticínio, conforme podemos ver em sua mensagem à Igreja efésia (Ap 2.2):

"Conheço as tuas obras, assim o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;"

Quem eram os tais homens maus, que a si mesmos de declaravam apóstolos e não eram). Como dissemos, existem fortes suspeitas de que, tanto a pri­meira parte da citada profecia de Paulo, como essa dramática revelação de João em Patmos, digam respeito à investida dos gnósticos na Igreja de Éfeso. Muitos relatos que associam João à cidade, dão testemunho de sua luta em defesa da fé ortodoxa contra os ataques desses esotéricos que, quando pene­travam nas comunidades cristãs, as pervertiam teológica e moralmente. Antes de nos atermos aos tradicionais embates de João contra essa heresia que ameaçou a Igreja ao longo dos séculos II e III, vejamos exatamente contra o que os apóstolos lutavam quando a ameaça se chamava gnosticismo.
Definir os gnósticos é tarefa muito difícil. Isso porque essa expressão filo-sófico-religiosa, de cunho sincretista, não se apresentava como uma organi­zação delineada, tampouco com uma liderança definida. Na realidade, contava-se, entre o primeiro e o segundo século, mais de setenta seitas distin­tas, alinhadas de alguma forma ao pensamento gnóstico.
Esse movimento, embora erudito, era resultado tanto da degeneração do pensamento platônico quanto da tendência sincretista que se verificava naqueles dias. Foi essa mesma inclinação sincrética que estimulou os gnósticos a estenderem seus tentáculos em direção à Igreja, onde promove­ram uma das maiores ameaças teológicas de toda a história do cristianismo.
A abrangência de suas doutrinas variava de acordo com seus mestres, mas sempre dentro de uma interpretação teológica inaceitável para a ortodoxia cristã. Os gnósticos clamavam possuir a gnosis, ou seja, um conhecimento especial e secreto, mediante o qual se alcançava a salvação. Em sintonia com boa parte da filosofia grega da Antigüidade, os gnósticos viam o mundo material como algo ruim, uma espécie de "aborto" da criação, algo distinto da verdadeira obra de Deus, o reino espiritual. Dentro desse raciocínio, os gnósticos conceituavam o ser humano como um espírito que se encontrava encarcerado na "prisão do corpo". Seu alvo era, portanto, libertar-se do mundo material que os cercava, o que só seria possível através da gnosis, ministrada por um mensageiro enviado dos céus. Essa entidade celestial, uma vez manifesta, os despertaria de sua letargia espiritual, através da qual se viam subjugados pelas inclinações físicas. O chamado "gnosticismo cristão" — cujos ensinamentos João tenazmente confrontou — via em Jesus Cristo exatamente esse mensageiro, ou seja, o elemento divino que desceu dos céus para nos recordar de nossa origem espiritual e para nos conferir o conhecimento secreto, imprescindível para alcançarmos o mundo dos espíritos. A missão de Cristo era, portanto, restaurar o mundo espiritual (chamado Pleromd) e livrar as almas humanas do cativeiro da matéria, nociva sob todos os aspectos.
Já que, para os gnósticos, o corpo era mau, a maior parte deles afirmava que Cristo não poderia ter possuído um corpo físico, enquanto alguns ou­tros reconheciam a existência desse corpo, porém composto de uma "subs­tância espiritual" distinta daquela que de nossos corpos. O ensinamento que o corpo de Cristo era uma mera aparência, visível apenas por meios milagrosos, representava não apenas uma negação da doutrina da encarnação, mas um desafio direto à obra expiatória de Jesus na cruz.
Essa forte reação contra a mundo material resultou, basicamente, em duas correntes de comportamento gnóstico, ambas igualmente incompatíveis com a mensagem apostólica. A primeira pregava o castigo ao corpo, com o intui­to de debilitar sua suposta ação negativa sobre o espírito. Essa tendência fru-tifícou na Igreja, posteriormente, em práticas ascéticas estranhas ao cristianismo, como por exemplo, a auto-flagelação adotada pelos monges medievais, que visavam o mesmo objetivo dos gnósticos. Outra corrente gnóstica, diametralmente oposta a essa, dizia que, embora corrompido em sua natureza, o corpo em nada poderia afetar o espírito, que era eterno e perfeito. Esses enfatizavam a plena liberdade a toda sorte de inclinação car­nal, entregando-se de forma irrestrita à voluptuosidade e arrastando após si muitos em suas práticas libertinas. Alguns biblicistas crêem que foi com o intuito de rechaçar o perigo representado por esse grupo gnóstico em parti­cular, que o apóstolo Judas elaborou sua breve epístola, em cujas linhas en­contramos os sinais da corrupção desses falsos mestres:

"Pois, certos indivíduos se introduziram com dissimulação, (...) homens ímpios, que transformaram em libertinagem a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo"
"Estes homens são como rochas submersas em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato"
"Os tais são murmuradores, são descontentes, andando segundo as suas próprias paixões."
"Estes são os que promovem divisões, sensuais, que não têm o Espírito."
Jd 4,12a, 16a, 19

A perversão moral decorrente da ação gnóstica, foi responsável não apenas por inúmeras divisões nas comunidades primitivas, mas também pela extinção das cha­madas Agapes ou Festas de Amor, nas quais os crentes se reuniam para celebrar a Santa Ceia, assim como para desenvolver, num clima jubiloso, a comunhão uns com os outros. Os gnósticos, através de seu procedimento abominável, subvertiam a espiritualidade das Agapes, transformando-as em reuniões divorciadas de seu pro­pósito original. Por fim, a lascívia, a glutonaria e a bebedice às quais passaram a se entregar alguns de seus participantes - graças à influência desses místicos - empres­taram às Agapes um perfil que, em alguns casos, se assemelhou ao das detestáveis festas pagas da Antigüidade. No versículo 12 da Epístola de Judas, citado acima, vemos precisamente a forma embrionária do processo de deterioração que aniqui­lou essa nobre tradição da Igreja primitiva (conf. 2 Pe 2.13-14).
Provavelmente foi no combate a essa terrível ameaça doutrinária que João empenhou boa parte de seu ministério na Ásia Menor. Mas deixemos de lado, por enquanto, a conduta gnóstica para nos atermos às contradições de sua teologia e as reações adotadas por João frente a elas.
Sob o prisma teológico, os ataques gnósticos à encarnação de Cristo des­pertaram em nosso evangelista a necessidade premente do emprego — em suas obras canônicas — de expressões que enfatizassem essa doutrina capital do cristianismo, como podemos conferir nesses exemplos:

"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos sua glória, glória como a do unigênito do Pai"
Jol.14
"Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus"
I Jo 4.2
"Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne: assim é o enganador e o anticristo."
2 Jo 7

E interessante observarmos o modo como João refutou as alegações gnósticas segundo as quais Jesus possuía um corpo distinto do humano, composto por algum tipo de substância de natureza fluídica. Ao abrir sua primeira epístola (IJo 1.1), João deixa evidente ao leitor que não apenas seus olhos viram (pois os gnósticos afirmavam que Jesus, embora imaterial, era aparente) e seus ouvidos ouviram, mas, sobretudo, suas mãos apalparam o Verbo da vida! O termo grego empregado para "apalpar", pselaphao, tanto aqui como em Lc 24.39, onde igualmente ocorre, dá a idéia de algo que excede um simples toque com as mãos, ou seja, algo próximo de uma constatação pelo tato! Isso reforça a tese de que por trás dessas linhas introdutórias, está implícita uma significativa refutação às alegações gnósticas.
Se alguns desses heréticos afirmavam que o mundo material nada mais era que um lapso da criação — obra do descuido do ser celestial Sofia — e que apenas o mundo espiritual expressava a realidade original, João, em contrapartida, abre seu evangelho de modo incisivo, pregando que o Verbo criou todas as coisas e sem Ele nada do que foi feito se fez (Jo 1.2), inclu­sive o kosmos, o mundo material do qual fazemos parte (v. 10) e no qual Jesus manifestou-Se em carne.
Os gnósticos que se chamavam de "cristãos" afirmavam que Cristo era ape­nas um mensageiro do reino espiritual, cujo alvo fora nos transmitir a gnosis (ou conhecimento) redentora. Ele e o Espírito Santo, eram apenas emanações de alguns dos trinta Eons (seres espirituais) que descendiam da divindade. João, entrementes, fulminando essa heresia, o apresenta como Aquele que, mesmo antes da criação do kosmos, estava com Deus e era Deus (Jo 1.1).
Nas primeiras linhas de seu evangelho, João não confronta apenas os argu­mentos gnósticos mas, de modo geral, todas as heresias cuja vertente se encontra­va na filosofia platônica. Isso porque o fim do primeiro século trouxe consigo o fascínio que a concepção filosófica de Deus exerceu sobre alguns pensadores cris­tãos primitivos. Para filósofos da Antigüidade clássica como Platão, acima de todo o universo havia um ser supremo que representava a perfeição, concebido como algo absolutamente imutável, estático e impassível. Para alguns cristãos — sobretudo os de origem grega — esse pensamento tornou-se a prova de que mes­mo a filosofia paga testificava do Deus único, sobre o qual os profetas das Escri­turas escreveram. Entretanto, a dificuldade residia em se tentar casar a idéia bíblica de um Deus essencialmente dinâmico e que Se manifestava intervindo na histó­ria humana, com a concepção filosófica de uma divindade inerte e distante da nossa realidade. Para pensadores cristãos como Orígenes e Clemente de Alexandria, que adeptos de uma concepção filosófica da fé, o Deus supremo, o Pai, era, de fato estático e passivo, mas possuía um Logos, ou uma Razão, que sendo de natu­reza pessoal, se comunicava com Sua criação. Dessa forma — segundo eles — quan­do as Escrituras dizem que Deus "falou", quem falou na verdade foi o Logos e não Deus, o Pai. Contudo, décadas antes que esta doutrina fosse sistematizada, João afirmava claramente em seu evangelho que no princípio era o Logos (Verbo), e o Logos estava com Deus e o Logos era Deus. Portanto, Cristo, o Logos de Deus, não era uma simples expressão perceptível de um Deus estático e distante, mas o próprio Deus criador revelado aos homens.
Não sabemos exatamente a quantos gnósticos João valorosamente resis­tiu, em defesa da fé apostólica. A história eclesiástica registra que nomes destacados como os de Valentino e Brasílides se valeram, em seus ensinos, de porções do Evangelho de João. Mas um nome em especial ficou registra­do na tradição como uma das mais notáveis personalidades gnósticas dos anos de João em Éfeso: Cerintus.
Cerintus cresceu numa atmosfera judaico-cristã, mas se deixou seduzir pelos valores racionais da filosofia platônica. Ele, como de resto a maior parte dos gnósticos, defendia a idéia de que a criação fora fruto da ação de demiurgos, ou seja, seres intermediários entre a divindade e o homem. Seus ensinamentos apresentavam um Jesus de natureza meramente humana até o momento do batismo, quando, ao receber o Espírito Santo, fora divina­mente capacitado a realizar Sua obra redentora.
Em face da ameaça representada por distorções doutrinárias como essa, João resiste ao líder esotérico com grande veemência, zelando pela ortodoxia da fé. Essa forte oposição do apóstolo aos ensinos de Cerintus acabou por gerar algumas lendas curiosas a esse respeito, como a encontrada na História Eclesiástica (cap. XXVIII) de Eusébio:

"João, o apóstolo, certa vez dirigiu-se a uma casa de banho para lavar-se. Porém, ao ver naquelas dependências um certo Cerintus, João, num sal­to, se dirige porta afora, não se permitindo compartilhar o mesmo teto com aquele herético. Exortando aos demais que ali se encontravam para fazerem o mesmo, João diz: 'Vinde, fujamos daqui, para que porventura as termas não desabem sobre nós, porquanto Cerintus, o inimigo da ver­dade, aqui se encontra'."

Outra preciosa informação relativa ao embate de João contra os gnósticos da Ásia Menor é fornecida por Jerônimo de Belém. Esse famoso pai da Igreja do século IV, descrevendo a disposição de João contra a heresia de Cerintus, traz à luz outro perigoso grupo herético em ação nos tempos do apóstolo na Ásia: os ebionitas. Jerome Theodoret registra, em sua obra The Nicene e Post-Nicene Fathers (p. 364-65), um importante comentário do autor patrístico sobre essa heresia:

"João, o apóstolo a quem Jesus amava, filho de Zebedeu e irmão de Tiago-aquele a quem Herodes, após a paixão de Cristo, mandou decapitar-escre­veu um evangelho a pedido dos bispos da Ásia, contra a doutrina de Cerintus e outros hereges, especialmente em oposição ao então crescente dogma dos ebionitas, os quais afirmavam que Jesus não existia antes de Maria."

Os ebionitas eram seguidores de um certo Ebion, cuja existência, embora citada por Agostinho, Tertuliano e pelo próprio Jerônimo, é atribuída à ima­ginação por Orígenes de Alexandria. O nome desse líder, derivado do hebraico ebionim (pobres), assim como sua provável origem monástica, explica a indi-gência na qual viviam seus seguidores. Os ebionitas podem ter sido parte do que restou dos essênios, os judeus dissidentes que habitavam a comunidade cenobita de Qumran, ao norte do Mar Morto. Foram esses monges, dedica­dos à meditação e à vida contemplativa, que produziram os chamados Ma­nuscritos do Mar Morto, cópia dos textos canônicos não canônicos, casualmente descobertos nas grutas da região, em 1947. Com o aniquila-mento do local pela décima legião romana, que por ali marchou em 68 A.D., os essênios foram dispersos, se dirigindo sobretudo para o norte da Palestina e para a Síria. Por si mesmos intitulados filhos da luz, os essênios cultivavam um profundo ardor messiânico, razão por que se refugiaram, distanciando-se da sociedade, considerada irremediavelmente corrompida e destinada ao juízo divino. Crê-se, contudo, que muitos deles estavam entre a multidão dos que receberam a mensagem de João Batista, sendo por ele batizados. Assim, parte dos essênios, em face do testemunho de João Batista, teria recebido a Jesus como Messias, porém não como Filho de Deus, isto é, Deus feito homem.
Seria essa a doutrina herética que Jerônimo denominou de o dogma dos ebionitas, contra o qual diz ter o apóstolo João se oposto, ao escrever seu evangelho? Não sabemos com precisão. Mas, do ponto de vista teo­lógico, é certo que os ebionitas — talvez como herança essênia — continu­avam presos às práticas legalistas e, conquanto cressem em Jesus como o Prometido de Israel, negavam sua divindade. Se analisarmos certos deta­lhes da narrativa de João, encontramos alguns pontos que confirmam o dizer de Jerônimo quanto a oposição do apóstolo aos ebionitas. Vemos, por exemplo, que apenas esse evangelista descreve o testemunho de João Batista, referente a Jesus, com o acréscimo da sentença O que vem depois de mim tem, contudo, a primazia, porquanto já existia antes de mim (Jo 1.15b). A frase é pertinente porque - como vimos - os ebionitas negavam a preexistência de Cristo e por ter sido pronunciada pelo profe­ta que levou os essênios — seus precursores — a crerem em Jesus! É tam­bém digno de nota como o apóstolo, em seu evangelho, associa de modo incisivo o ministério de João Batista ao testemunho da luz (Jo 1.7-8), a mesma luz da qual os essênios se diziam filhos e que João afirmava estar exclusivamente em Cristo (v. 4).
E possível que lutas intestinas, provocadas por heresias como a dos gnósticos e dos ebionias — que perturbavam a Igreja efésia durante o pastorado de João — tenham provocado um estresse que desgastou o relaci­onamento entre irmãos, comprometendo o amor fraternal daquela comuni­dade, como descreveria o próprio evangelista, por ocasião de seu desterro em Patmos (Ap 2.1a-4):

"Ao anjo da Igreja em Éfeso, escreve.
(...)
Conheço as tuas obras, assim o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mes­mos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixas-te esmorecer. Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor."

Antes de voltarmos ao ministério de João em Éfeso, especialmente no período de seu retorno do exílio em Patmos, vejamos algumas lendas que enfocam suas missões a outras regiões da Antigüidade.

Teria João ministrado na capital imperial?
A julgarmos pela tradição cristã, a Palestina e a Ásia Menor não foram os únicos termos a conhecerem o ministração do apóstolo João. Agostinho, bis­po de Hipona (séc. IV), fala de campanhas evangelizadoras empreendidas por ele na Partia, região que compreende o leste da Turquia, o noroeste do Ira e o sul da Armênia. A cidade de Roma também é citada como palco de algumas das mais fantásticas lendas ligadas ao trabalho pós-bíblico de João.
Tertuliano de Cartago (séculos II-III), um dos maiores autores cristãos de língua latina, afirma, ao escrever sua obra De Praescitione Hereticorum, que João esteve presente na capital, ao lado de Pedro, anunciando a mensagem do evangelho. Sua suposta presença ali pode ter sido decorrência de sua fuga da Ásia Menor, onde recrudescera a perseguição de Domiciano, ou mesmo resul­tado de seu aprisionamento em função desta. Segundo Tertuliano, João, uma vez em Roma, teria sido julgado e sentenciado a morrer imerso num caldeirão de óleo fervente. Diz a lenda que, mesmo submetido àquela tortura, o apósto­lo saiu miraculosamente ileso do caldeirão, não restando aos seus estupefatos algozes outra deliberação, senão exilá-lo em Patmos. Em função dessa narrati­va, presumivelmente fantasiosa, Roma ostenta até hoje a Igreja de San Giovani in Olio, erigida para eternizar esse suposto livramento na vida do apóstolo.
Outra tradição católica relativa à estada de João em Roma faz menção a uma tentativa de matá-lo por envenenamento. Mas diz a lenda que o ancião, antes que pudesse ingerir o líquido fatal, viu a peçonha deslizar cálice afora, transformada em serpente. Esse relato incrível inspirou o símbolo católico-romano que representa o apóstolo, onde se vê João segurando uma taça, a partir de cujo interior flui sinuosamente uma víbora.
Os detalhes fantasiosos que compõem as lendas sobre o apóstolo na capi­tal do império não tornam, contudo, infactível sua presença na cidade. Afi­nal, Roma, com cerca de um milhão de habitantes, era o maior centro urbano da Antigüidade e como tal, representava um alvo altamente estratégico para aqueles que, como João, se dedicavam à causa do evangelho. Ademais, é relevante o fato de Tertuliano estar entre os que relatam a visita do discípulo a Roma, uma vez que esse erudito do segundo século viveu num tempo não muito distante dos últimos anos de apostolado de João.
Mas, se a passagem de João por Roma ainda suscita dúvidas quanto a sua autenticidade, o mesmo certamente não ocorre com seu exílio na ilha de Patmos, como verificaremos a seguir.

O exílio em Patmos e o retorno a Éfeso
O ano 81 A.D. testemunhou a subida ao trono imperial de um dos mais cruéis perseguidores da fé cristã: o imperador Flavius Titus Domitianus. Filho do grande Vespasianus e irmão de Titus, ante cujo poder Jerusalém havia recentemente sucumbido, Domitianus foi o último dos Césares da dinastia Flaviana. Em seus doze primeiros anos, o novo soberano conduziu o império sob um regime de austeridade, no qual empreendeu significati­vos esforços a fim de restaurar a glória da cultura paga, que já começava a sentir os primeiros impactos da propagação do cristianismo. Não obstante, em 93 A.D., aquilo que parecia um ser um longo período de paz e prospe­ridade tornou-se uma terrível instabilidade social. O complexo de inferio­ridade em relação ao seu irmão Titus, mais os motins de algumas legiões, especialmente as estacionadas na Germânia (atual Alemanha) e o imenso déficit público - com o inevitável peso tributário dele resultante - transfor­maram Domitianus num déspota sangüinário que, oprimido por alucinações, entregou-se a uma vida de solidão, luxúria e práticas mágicas, através das quais tentava conduzir seu futuro. Tomado por uma necrofobia inveterada, Domitianus vivia exaurido pelo terror da profecia que previu o dia de sua morte. O biógrafo romano Suetonius (69-140 A.D.), em sua escandalosa obray4 Vida dos Césares, resumiu a tirania de Domitianus.

"A necessidade tornou-o ávido e o medo tornou-o cruel."

A perseguição levada a cabo pelo imperador irrompeu, a princípio, contra os filósofos — forçados a abandonar a capital — e culminou com os judeus e cristãos, cujo sofrimento se estendeu por três longos anos. E provável que o início dessas hostilidades contra os cristãos esteja, em parte, ligada aos ju­deus. Com o esvaziamento dos cofres públicos, arrasados pelo custo das ex­travagantes construções e dos numerosos espetáculos públicos, a pressão por mais impostos fez com que Domitianus reclamasse para o Estado os dízimos e ofertas que os judeus destinavam ao Templo de Jerusalém, já destruído por aquela ocasião. Com a óbvia recusa dos judeus, o império passou a vê-los como rebeldes contumazes e decretou-lhes a perseguição, despojando-os, sub­seqüentemente, de seus bens. Como o delineamento entre cristianismo e judaísmo ainda não estava muito claro para os gentios de então, o Estado passou a perseguir todos os considerados praticantes daquilo que chamavam costumes judaicos", entre os quais se contavam os cristãos.
O ódio do imperador contra os seguidores de Cris­to pode ter sido agravado com a suposta conversão de sua esposa, Flavia Domitila e de um parente próximo, Flavio Clemente, ambos acusados pelas autoridades de "costumes judaicos" e executados sob ordens do próprio Domitianus. Não é surpresa que a esposa de um imperador romano do pri­meiro século tenha se con­vertido ao cristianismo, pois o próprio Novo Testamento revela que a disseminação do evangelho nas cortes roma­nas já era uma realidade des­de o ministério de Paulo em Roma (conf.Fl 4.22).
Autores confiáveis como Clemente de Roma, relatam acerca dos "males eprovas inesperadas eseguidas quesobrevieram 'aos cristãos na época (1 Clemente 1). Segundo Clemente, os cristãos não eram apenas brutalmente executados em público por se recusarem a negar sua fé, como também banidos para colônias penais nas quais, diante de extenuan­tes castigos, a vida acabava se transformando num clamor contínuo pela morte. Foi provavelmente sob o reinado do cruel Domitianus, entre 95 e 96 A.D., que o apóstolo João, já em avançada idade, acabou condenado aos trabalhos forçados nas pedreiras e minas da então inóspita Ilha de Patmos, como ele mesmo relata (Ap 1.9).

"Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perse­verança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da pala­vra de Deus e do testemunho de Jesus."

Patmos é uma pequena ilha grega situada no Mar Egeu, de solo acidenta­do e vulcânico, cuja área total não excede quarenta quilômetros quadrados. Seu aspecto desolador, assim como sua inóspita condição geográfica fizeram dela, na época, um dos sítios ideais para o desterro dos condenados pelo regime romano.
Após exaustiva jornada através do Mediterrâneo, o ancião e seus compa­nheiros de desterro aportaram em Patmos, num local que a tradição deno­mina Fora. Ali principia, segundo algumas lendas, seus dezoito meses de aflição, em meio aos quais lhe foi revelada a visão que viria a compor o Livro do Apocalipse.
Em sua obra denominada The Monastery of St. John the Teologian (p. 3-4), Papadoulos agrega algumas informações interessantes acerca da obscura relação entre essa pequena ilha do Mar Egeu e os últimos anos do apóstolo João:

"De acordo com antigas tradições, o texto sagrado do Livro de Apocalipse foi revelado a João e por ele escrito enquanto se encontrava na gruta, hoje conhecida como a gruta do Apocalipse, que se encontra oculta sob os edifícios do Monastério do Apocalipse. O mosteiro foi erigido no século XVII para abrigar a Patmias, uma escola teológica construída na ocasião, cujas estruturas originais foram pouco alteradas desde então. A construção é formada por um complexo de celas, salas de aula, átrios floridos e esca­darias, além das capelas dedicadas a São Nicolau, São Artêmio e Santa Ana, sendo esta última construída de frente para a abertura da caverna.
A santa gruta em si foi, desde há muito, transformada em uma pequena Igreja consagrada a São João Teólogo. Nela ainda permanecem os sinais de uma longa tradição que testifica a presença de São João no local. Num canto, está o lugar onde o apóstolo encontrava repouso, recostando sua cabeça. Ao lado, o local onde apoiava sua mão para levantar-se do piso pedregoso sobre o qual dormia. Próximo dali, o espaço onde o ancião desenrolava seus pergaminhos. No teto da caverna pode se ver a tríplice fissura na rocha, através da qual o ancião ouviu a 'grande voz, como o som de trombeta'. A gruta, embora pequena e obscurecida é um local que nos conduz à meditação, à oração, ao louvor e à contemplação.
(...)
Um escrito apócrifo produzido numa data bem posterior ao Livro do Apocalipse, cuja autoria é atribuída a Prócoro, 'discípulo' de João, acres­centa alguns detalhes relativos à jornada de João a Patmos. A obra, intitulada 'Viagens e Milagres de São João, Teólogo, Apóstolo e Evangelista, Escritos por seu Discípulo Prócoro', data provavelmente do quinto século, embora alguns eruditos a situem no quarto século e outros, ainda, numa data muito posterior, como o século XIII.
Todas as tradições nativas da ilha derivam desse texto, cujas linhas apre­sentam um extenso relato de como o apóstolo escreveu seu evangelho em Patmos. Essa lenda foi largamente disseminada a partir do século XI, embora atualmente não possamos vê-la senão com grande ceticismo. O mesmo texto narra tam­bém os milagres operados por São João antes de sua chegada a Patmos, as difi­culdades por ele encontra­das na ilha e o sucesso final de seu apostolado. Há um relato particular enfocando João em confli­to com Kynops, um mago pagão, sobre quem, no devido tempo, triunfou. Ainda hoje podemos ver os nativos da ilha apontan­do os vários lugares men­cionados nessa narrativa. Enquanto os pescadores da região costumam indi­car aquilo que - segundo eles - é o próprio Kynops petrificado sob as águas calmas da baía de Scala, alguns monges exibem os afrescos que ilustram essas mesmas cenas, no nártex externo do grande Mosteiro  de  São   loão  Teólogo em Cora.
A partir do quarto século, Patmos transformou-se num dos principais cen­tros de peregrinação da cristandade. Muitas colunas e capiteis encontra­dos na Igreja principal e no grande mosteiro, assim como em outras capelas da ilha, são originalmente procedentes das igrejas construídas durante os séculos V e VI. Contudo, a partir do século VII, Patmos, assim como a maior parte das ilhas do Mar Egeu, conheceu o abandono, devido ao surgimento do islamismo e das subseqüentes batalhas navais entre árabes e bizantinos."

Investigando a estrutura lingüística do Apocalipse, comparativamente ao Evan­gelho de João, o bispo africano Dionísius (séc. III), propôs que a autoria desse livro profético fosse atribuída a um outro João, que ele mesmo chamou de "O Presbítero", em alusão às duas epístolas nas quais o personagem assim se apresenta (2 Jo 1 e 3 Jo 1). O autor sugerido por Dionísio teria sido, portanto, um cristão de razoável notoriedade, membro do presbitério da Igreja em Éfeso e que, poste­riormente, fora exilado pelos romanos em Patmos, onde recebera a visão do Apocalipse. Se confirmada, essa teoria tiraria nosso apóstolo de cena, no tocante aos eventos ligados a Patmos. Entretanto, essa proposta - em que pese a opinião de Papias segundo o qual teria havido dois líderes de expressão na Ásia conheci­dos como João — não encontra eco nos escritos de outros exponentes como Justino Mártir, Irineu de Lyon, Tertuliano de Cartago e Clemente de Alexandria. Para eles há muito mais similaridades do que discrepâncias entre os textos gregos do Apocalipse, das epístolas e do Evangelho de João, o que em tese reforça a autoria única dessas obras e faz do discípulo de Cristo o provável autor delas. Esse parecer, pois, traz nosso apóstolo de volta à cena de Patmos.
Não dispomos, infelizmente, de muitos detalhes confiáveis acerca da per­manência de João na colônia de Patmos. A maior parte dos comentaristas primitivos concentrou sua atenção no ministério do apóstolo em Éfeso, para onde teria retornado após seu exílio na ilha grega. Eusébio explica como isso se sucedeu (História Eclesiástica, XX, p. 103).

"Porém, após Domitianus ter reinado treze anos, vindo Nerva a sucedê-lo no governo, o senado romano decretou a revogação das honras a ele outorgadas, bem como o retorno para casa dos que foram injustamente exilados e a restituição de todos os seus bens."

Jerônimo, analisando o tema, apresenta um relato similar ao de Eusébio (citado em The Nicene and Post-Nicene Fathers, p. 364-5).

"Então, no décimo quarto ano após Nero, tendo Domitianus levantado a segunda perseguição, João foi banido para a ilha de Patmos, onde escre­veu o Apocalipse, sobre o qual Justino Mártir e Irineu, mais tarde, traça­ram comentários. Porém, o assassínio de Domitianus e a anulação, pelo senado, de seus atos - em face de sua excessiva crueldade - possibilita­ram o retorno de João a Éfeso, sob Nerva Pertinax, onde permaneceu até os dias do imperador Trajano, fundando e edificando igrejas através de toda Ásia. Esgotado pela idade avançada, João faleceu sessenta e oito anos após a paixão do Senhor, tendo sido enterrado nas imediações da­quela mesma cidade."

De volta a Éfeso, João viu-se recolocado em seu amplo e influente mi­nistério na região. Se a tradição estiver certa, a comunidade cristã local en­contrava-se, na ocasião, tremendamente marcada pelo triste martírio de Timóteo, que pode ter ocupado o bispado da cidade durante a ausência de João. Segundo contam as lendas, o ex-companheiro de Paulo sucumbiu ao fio da espada por sua oposição às orgias que se seguiam à procissão paga durante o festival dedicado a Diana. Como algumas narrativas tradicionais datam o martírio de Timóteo em 97 A.D., sob Nerva, é possível que este tenha realmente ocorrido ao tempo do regresso de João à cidade.
Os comentários dos pais da Igreja sobre as últimas realizações de João em Éfeso são assaz interessantes. Eusébio diz que, durante esse período, João, em comum acordo com outros ministros, redigiu o evangelho que leva seu nome (História Eclesiástica, p. 114).

"O quarto dos evangelhos foi escrito por João, um dos apóstolos. Quando exortado por seus condiscípulos e bispos, disse: 'Ficai e jejuai comigo por três dias; e se sucederá que aquilo que for revelado a qualquer um de nós, será compartilhado entre todos.' Naquela mesma noite foi revelado a André, um dos discípulos, que João seria aquele que escreveria sobre os acontecimentos (relativos ao evangelho) em seu próprio nome, e os de­mais o certificariam."

Baseados na tradição, podemos afirmar que, mesmo limitado pela idade avançada, João permaneceu firme à frente dos trabalhos pastorais, colabo­rando para o desenvolvimento da Igreja de Éfeso e suas cercanias, até o período do imperador Trajânus (98-117 A.D.), conforme registra Eusébio {op. aí., XXIII, p. 104).

"Por essa época, João, o amado discípulo de Jesus, apóstolo e evangelista, ainda vivo, governou as igrejas da Ásia, após o retorno de seu exílio insular, com a morte de Domitianus. Quanto ao fato de João ter vivido até então, são suficientes duas testemunhas que, como guardiãs das doutrinas orais da Igreja, são dignas de todo crédito: Irineu e Clemente de Alexandria.
Irineu, em seu segundo livro contra heresias, escreve o seguinte: 'E todos os presbíteros da Ásia que conferenciaram com João, o discípulo de nosso Senhor, testificam que o apóstolo permaneceu com eles até os dias de Trajanus.' No terceiro livro da mesma obra, Irineu registra esse fato com as seguintes palavras: 'De igual maneira, a Igreja de Éfeso, fundada por Paulo e onde João continuou a habitar até os dias de Trajanus, é uma fiel testemunha da tradição apostólica'."

Da época alusiva ao retorno de João a Éfeso, advém um tocante relato, que evidencia toda dedicação com que o santo ancião conduzia seu encargo pastoral. A comovente passagem a seguir foi preservada por Eusébio de Cesaréia e extraída de um discurso atribuído a seu contemporâneo Clemente de Alexandria (op. cit, XXIII, p. 104-07).

"Ouvi a essa história, que nada tem de fictícia, antes expressa a pura reali­dade, cuidadosamente preservada, e que diz respeito ao apóstolo João.
Após a morte do tirano, João retornou da Ilha de Patmos para Éfeso e dirigiu-se, sempre que solicitado, às regiões gentílicas adjacentes, onde ordenou bispos, instituiu igrejas inteiras ou apenas separou para o ministé­rio aqueles que o Espírito Santo já havia escolhido.
Tendo chegado a uma cidade não muito distante, cujo nome alguns ain­da podem citar, João, após consolar os irmãos, observou ali um jovem de boa estatura, de aspecto gracioso e de mente ardorosa. O apóstolo, en­tão, voltando-se para o presbítero ordenado, disse-lhe: 'Encomendo-te este mancebo, com todo zelo, na presença da Igreja e de Cristo.' Aproxi­mando-se do jovem, prometeu-lhe muitas coisas e repetiu-lhe aquelas palavras, sobre elas testificando antes de retornar a Éfeso.
Assim, o presbítero, levando consigo o rapaz que lhe fora confiado, edu­cou-o e sustentou-o até, por fim, batizá-lo. Algum tempo depois, contu­do, relaxou em seu cuidado e em sua vigilância, como se o jovem, agora selado no Senhor, já estivesse totalmente seguro.
Então, certos homens ociosos e dissolutos, familiarizados a toda sorte de iniqüidade, desafortunadamente se juntaram ao mancebo, desligando-o prematuramente de sua rígida educação. A princípio, conduziram-no aos mais caros divertimentos. Depois, levaram-no consigo em suas investidas noturnas, nas quais se entregavam aos saques. A seguir, sendo encoraja­do a desafios cada vez maiores, aquele jovem, em seu espírito audaz, passou gradualmente a acostu­mar-se com os modos de seus parceiros, tendo-se tornado qual um corcel bruto, que mordendo seu cabresto, se desvia do cami­nho e se arroja com impetuosi-dade no precipício.
Por fim, renunciando à salvação de Deus, passou a desprezar os pequenos delitos e, entregando-se a grandes transgressões, achou-se arruinado e disposto a padecer até o fim junto àqueles com quem andava. Tomando, pois, consigo os mesmos parcei­ros, fez deles uma corja, da qual se tornou o capitão, pelo que a todos sobrepujava em sangüinolência e crueldade.
Passado muito tempo, João foi novamente solicitado naquela re­gião e, tendo cuidado dos assun­tos porque fora chamado, disse: 'Vem, ó presbítero, e retorna-me o depósito que te fiz na presença da Igreja sobre a qual presides.' O ministro, a princípio, confuso, pensou tratar-se da cobrança de alguma soma de dinheiro. No entanto, quando João claramente falou-lhe: 'Demando-te a alma do jovem irmão', o presbítero, gemendo e derramando-se em lágrimas, replicou: 'Ele está morto!'. 'Como assim, morto?' pergunta João. 'Ele está morto' - disse ele - 'morto para Deus. Tornou-se, a princípio, ímpio e libertino e, por fim, um salteador. Ago­ra, acerca-se das regiões montanhosas em companhia de um bando de ho­mens semelhantes a ele.'
Ouvindo essas palavras, o apóstolo rasgou suas vestes e, ao bater em sua cabeça com grande lamentação, disse-lhes: 'Preparai-me, pois, um cavalo e alguém dentre vós para guiar-me em meu caminho.'
Assim João, ao cavalgar, muito distanciou-se da Igreja e, tendo chegado ao campo, foi feito prisioneiro pelas sentinelas dos bandidos. O apóstolo, entretanto, não esboçou qualquer tentativa de fuga, tampouco ofereceu resistência a sua prisão, antes disse-lhes: 'Por esse motivo vim até aqui. Conduzi-me ao vosso capitão.'
O jovem, armado, permanecia observando a tudo. Porém, ao identificar aquele que se aproximava como João, viu-se tomado de grande vergonha e tencionou retirar-se imediatamente. O apóstolo, no entanto, procuran­do persuadi-lo com toda a força e compaixão de sua idade, rogou-lhe: 'Por que foges, filho meu, por que foges de teu idoso e indefeso pai? Tem piedade de mim, filho meu; não temas, pois tu ainda gozas de esperança para a vida. Intercederei por ti, diante de Cristo. Fora necessário e eu sofreria a morte por ti, como Cristo assim sofreu por nós. Eu to daria a minha própria vida. Fica e crê que Cristo me enviou.'
Ao ouvir as palavras de João, o rapaz, interrompendo sua retirada, perma­neceu cabisbaixo. Então, de braços abertos, sofregamente correu para o ancião, tomado por uma lamentação através da qual expressava, tanto quanto podia, suas súplicas por perdão. Derramando-se, como se fora, em suas próprias lágrimas, batizado pela segunda vez, o jovem preocupa­va-se apenas em esconder sua mão direita. Mas, o ancião, pondo-se de joelhos em oração, empenhou sua palavra, lhe assegurando que verdadei­ramente recebera o perdão de seus pecados das mãos de Cristo. Toman­do, então, sua mão direita, como já purificada de toda iniqüidade, beijou-a.
O ancião, pois, levando consigo o jovem, conduziu-o de volta à Igreja, sustentando-o com muitas orações e constantes jejuns e abrandando sua alma com freqüentes consolações. João - como dizem - não o deixou até vê-lo completamente restaurado à Igreja."

Os esforços e as campanhas de João em prol da evangelização da Ásia não conheceram descanso, nem mesmo em sua avançada idade. Durante a época do imperador Trajanus, na qual o apóstolo deve ter findado seus dias, o evangelho já estava plenamente enraizado não apenas na Ásia, mas também na Galácia, Capadócia e Cilícia. Multiplicava-se também velozmente nas re­giões adjacentes do Ponto e da Bitínia.
Um dos termômetros mais exatos desse crescimento vertiginoso - nos anos que se seguiram a morte do apóstolo - na região da Bitínia, vizinha à Ásia Menor é a carta de Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, ao impera­dor Trajanus. Fiel cumpridor da lei e atento às tradições romanas, o jovem delegado viu-se aturdido com o grande número de acusações anônimas contra uma lista crescente de cristãos. Isso representava um problema de cunho jurídico, sobre o qual Plínio não se sentia devidamente capacitado para deliberar. Buscando um conselho proveitoso, o governador se dirige a César, numa carta datada de 111 A.D., onde expressa sua estupefação ante a propagação da fé crista, revelando que não apenas os templos pagãos estavam abandonados, mas as próprias carnes ofertadas aos deuses não encontravam compradores. Restava-lhe, assim, apenas constatar aquilo que nem mesmo o poderio de Roma, em duas severas perseguições, conseguira deter:

"o contágio dessa superstição penetrou, não só nas cidades, mas também nos povoados e nos campos."

João, após longa labuta parece ter findado seus dias numa idade próxi­ma ou mesmo superior aos cem anos. Segundo a tradição, permaneceu solteiro e inteiramente dedicado ao serviço pastoral. Se bem que afirma­ções desse tipo devem ser encaradas com cuidado, já que o ascetismo medi­eval contaminou boa parte das tradições apostólicas.
Ao contrário da maioria dos discípulos, João não conheceu o martírio, embora tenha sofrido os rigores da perseguição de Domitianus. Segundo tradi­cionalmente se crê, ele encerrou sua carreira naturalmente, gozando até o fim do sustento e da comunhão de seu rebanho, ao qual tanto se devotara.
McBirnie registra um interessante relato, extraído dos textos de Jerônimo, relativo aos últimos anos de João em Éfeso (op. cit., p. 117).

"Uma outra tradição concernente a João e passada adiante por Jerônimo, reza que quando o apóstolo já se encontrava evidentemente muito idoso em Éfeso, era necessário que seus discípulos o tomassem nos braços e o carregassem até a Igreja. Nas reuniões, João já não costumava pregar nada além disso: 'Filhinhos, amai-vos uns aos outros.' Depois de certo tempo, entretanto, seus discípulos, enfastiados de ouvirem sempre aquelas mes­mas palavras, perguntaram-lhe: 'Mestre, por que sempre nos dizes isso?' João, por sua vez, replicou: 'E mandamento do Senhor. Ademais, se só isso for feito, terá sido o bastante'."

E provável, por força da tradição apostólica, que João tenha falecido de morte natural na cidade de Éfeso, embora nenhum detalhe relativo aos seus momentos finais tenha sido legado à posteridade. A despeito disso, algumas lendas rezam que o evangelista foi sepultado na cidade onde, por longos anos, desempenhara o trabalho missionário que tanto colaborou na cristianização da Ásia Menor e sua vizinhança.

O local do descanso de João
Um dos mais antigos testemunhos sobre o sepultamento de João em Éfeso encontra-se nos escritos de Polícrates (130-196 A.D.), bispo daquela cidade em fins do segundo século. Oitavo pastor de uma família de longa tradição cristã, Polícrates foi também líder de um conselho de bispos asiá­ticos, para os quais sua ordenação nunca foi posta em dúvida. Em sua Epís­tola a Vítor e a Igreja de Roma Concernente ao Dia da Guarda da Páscoa, o bispo escreve.

"Ademais, João, que se recostou sobre o peito do Senhor e veio a tornar-se sacerdote, portando a mitra, tendo sido testemunha e mestre, descan­sa afinal em Éfeso."

O túmulo de João em Éfeso está entre os mais certos de todos os atribu­ídos aos doze apóstolos, embora o completo desaparecimento de suas relí­quias continue a intrigar os pesquisadores de sua biografia. McBirnie, que lá esteve antes das obras de conservação realizadas pelo governo turco, cita o texto do Dr. Cemil Toksoz, no qual são acrescentados alguns pormenores relevantes sobre o local {Ibidem, p. 119).

"Os discípulos de João construíram uma capela sobre a tumba do evangelista, que acabou se tornando um centro de adoração cristã. Um sem número de peregrinos visitou aquele santuário sobre o qual o impe­rador Justiniano e sua esposa Teodora decidiram erigir, no século VI, um monumento digno de São João, em face do inexpressivo vaior artístico da construção original.
A Igreja de Justiniano, construída em forma de cruz, possuía cento e trinta metros de comprimento e era composta por três naves. A nave principal, mais larga, era coberta por seis grandes domos, tendo o nártex cinco domos menores. A cúpula principal, assim como a seção central da Igreja, era susten­tada por quatro pilares quadrados. A tumba do apóstolo situava-se numa sala sob o piso logo abaixo do grande domo. Segundo a tradição, a poeira que emanava desta sala possuía poderes terapêuticos, razão que determinou um grande afluxo de doentes para o local durante a Idade Média.
O piso da Igreja era coberto por mosaicos. Os monogramas de Justiniano e sua esposa Teodora ainda podem ser claramente distinguidos nos capiteis de algumas das colunas.
Aos vinte e seis dias do mês de setembro, possível data da passagem do evangelista, eram realizadas ali cerimônias comemorativas nas quais as procissões iluminadas atraíam grandes multidões dos distritos vizinhos. Moedas datadas do segundo século, encontradas na tumba de São João, provam que, já em tempos remotíssimos, o lugar havia se tornado centro de peregrinação."

Naci Keskin, em seu livro Ephesus, apresenta algumas informações adi­cionais a esta descrição da tumba do apóstolo:

"Desde o princípio da cristandade, muitas comunidades cristãs aceitavam esse lugar (Éfeso) como ponto de peregrinação, ali realizando suas devoções. Posteriormente, essa Igreja, segundo os desígnios de Deus, foi destruída e reerguida de forma ampliada pelo imperador Justiniano. De aspecto cupular, a Igreja compunha-se de dois andares e ostentava um belo jardim cercado de pilares. Com seus cem metros de comprimento, abrigava seis grandes domos, além de cinco pequenos, os quais apresentavam-se ornamentados com mosaicos. Algumas moedas pertencentes à segunda metade do primei­ro século foram descobertas em escavações no local, o que prova que a tumba de São João já era visitada por muitos naquele período. Mananciais sagrados - aos quais se cantavam hinos - assim como o pó que curava toda sorte de enfermidades, se encontravam sob os tetos abobadados.
As águas curativas que minavam próximas da tumba de São João eram especialmente prezadas pelos peregrinos daquele tempo. Por cerca de quatro ou cinco anos São João permaneceu ao lado de sua rival Artêmis! Embora o templo de Artêmis tenha sido, tantas vezes, saqueado, nin­guém ousou tocar no santuário de São João, uma vez que o apóstolo, como seguidor de Cristo, representa o mensageiro maior do sagrado amor. A tumba de João, tanto quanto o Templo de Santa Maria nas colinas, foi concebido para abrigar os restos de apenas um discípulo."

A devoção mística da Idade Média acabou transformando o túmulo de João em mais um local para o qual convergiam numerosas romarias, cujos peregrinos eram estimulados a cultivar as mais descabidas superstições. Esse processo, repetido em outros sítios considerados sagrados, revela muito mais a mescla de influências pagas, que gradualmente se sedimentaram no seio da Igreja medieval, do que uma fé genuinamente bíblica.
Portanto, à parte as fantasias da tradição, resta pouca dúvida de que João foi mesmo sepultado em Éfeso, embora suas relíquias permaneçam misteri­osamente desaparecidas. Como vimos, as referências históricas desse argu­mento remontam a meados do século IV, quando Eusébio de Cesaréia, embasado na epístola de Polícrates a Vitor, bispo de Roma, deixa claro que Éfeso não fora apenas o local onde João desempenhara a maior parte de seu ministério apostólico, mas também o verdadeiro local de seu descanso.
McBirnie, ao visitar o local pela segunda vez em 1971, verificou um grande esforço do governo turco em restaurar o que restou da outrora portentosa basílica erigida por Justiniano para abrigar os restos do apóstolo. O pesquisador regis­trou, entretanto, seu desapontamento ao não encontrar ali qualquer informa­ção consistente sobre as relíquias do discípulo (pp. cit., p.121):

"Algumas relíquias de outros apóstolos ainda existem; entretanto, a tumba de João, que é, dentre todos os túmulos apostólicos, provavelmente o mais certo - tanto pela história como pela arqueologia - não contém quaisquer restos mortais, tampouco acha-se ali qualquer traço histórico ou tradição daquilo que se possa ter se sucedido a eles!"

Consideravelmente frutífera desde seus primeiros passos no discipulado até os últimos dias de seu apostolado, a história da carreira de João se cons­titui num manancial de testemunho cristão, cujos ensinamentos continu­am a edificar a Igreja até o presente século.
Nessa análise biográfica de João, pudemos verificar a evidência de sua ardente paixão pela causa messiânica, razão pela qual, ainda jovem e gozan­do de uma confortável posição social, atendeu ao chamado de Cristo para o aprendizado do evangelho. Os anos ao lado de Jesus trouxeram-lhe uma profunda transformação em seu íntimo, especialmente no que se refere a impulsividade que delineava seu temperamento. Essa mudança permanece como um testemunho do impacto que o Espírito de Cristo exerce sobre quantos creiam no poder e na graça dAquele que converteu o filho do tro­vão no discípulo do amor!
De todas as virtudes apresentadas pelo apóstolo, talvez nenhuma su­plante seu desmedido amor pelo Mestre, freqüentemente retratado nos evan­gelhos. Esse mesmo jovem que, em sua agressividade, ansiava ver o fogo celestial devorar seus opositores, era também aquele que sabia buscar cari­nhosamente no peito de Jesus o repouso para suas ansiedades e as respostas para seus questionamentos. Como a Igreja tem a aprender com a devoção e a espiritualidade do discípulo a quem Jesus amava).
Digna de atenção também é a intensidade com que João viveu sua missão apostólica. Como vimos anteriormente, já nos primeiros capítulos de Atos, encontramo-lo desafiando os perigos inerentes à pregação evangélica naque­les dias turbulentos. As perseguições que sofreu no período retratado em Atos foram apenas o princípio de seu longo ministério pastoral, que se esten­deu, de maneira exemplar, até fins do primeiro século e foi marcado por muitas outras aflições, como o duro desterro em Patmos.
Outros apóstolos, em suas jornadas missionárias, percorreram extensões territoriais superiores às atingidas por João; contudo, poucos deixaram marcas tão profundas de seu trabalho como ele. Se Tomé atingiu a índia, Judas Tadeu a Armênia e Simão Zelote a Britânia, João, por sua vez, evangelizou a estratégica região da Ásia Menor, com suas prósperas concentrações urbanas, tornando-se bispo de uma das maiores cidades do mundo antigo: Êfeso. Como resultado de sua dedicada semeadura na região, a Igreja primitiva viu-se enriquecida pela con­versão de homens ilustres como Policarpo, Irineu e Papias, que se tornaram gi­gantes do pensamento cristão do segundo século e de cujas penas saiu parte da importante literatura patrística, que ainda influencia o cristianismo após quase dois milênios. As cartas às sete igrejas da Ásia são outra prova da grande familia-ridade que o apóstolo tinha com aquela região e do dinamismo que caracterizava seu ministério, mesmo em seus dias mais avançados.
Se a ação missionária de João impressiona por sua devoção e perseverança, sua teologia encanta pela singeleza e objetividade. Embora acessível às mentes mais humildes, o texto de João transborda de verdades transcendentes e essen­ciais, do ponto de vista teológico. A singularidade de sua cristologia pode ser facilmente percebida na notável exposição acerca do Logos de Deus, bem como na ênfase em sua encarnação, presentes não apenas em seu Evangelho, mas também suas epístolas. João proporcionou em seu texto argumentos funda­mentais para a defesa da ortodoxia crista diante de desafiadoras heresias, como o gnosticismo que perturbou a paz na Igreja em seus primeiros dois séculos.
Digna de destaque, enfim, é a formidável capacitação que Deus concedeu a esse humilde pescador galileu, transformando-o não apenas num testemunho vivo de Cristo, mas numa barreira para tudo o que ameaçasse a doutrina ortodo­xa. Não é de se admirar, portanto, que a preciosidade encontrada na literatura de João — com a qual retratou a formosura de Cristo de modo tão particular— tenha transformado seu evangelho no livro mais publicado em todo o mundo!
Essa sublimidade com que esse apóstolo interpretou a Pessoa e a obra de seu Mestre, a quem fielmente serviu, poderiam ser perfeitamente resumidas na expressão com que encerrou sua obra-prima (Jo 22.25).
"Há, porém, ainda muitas outras cousas que Jesus fez. Se todas elas fos­sem relatadas uma a uma, creio eu que nem mesmo no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos."
FONTE: FONTE: Doze homens e uma missão / Aramis C. DeBarros. - Curitiba : Editora Luz e Vida, 1999.

Um comentário:

  1. Muito bom...mas alguem sabe onde estava o Ap. João quando seu irmão Tiago sofreu o mártir? e Pedro foi preso (At 12: 1 - 4)

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